Se tem algo que Susy Freitas sabe que quer continuar fazendo em seus livros, é deixar todo mundo confuso. Literatura não é para explicar nada —é para sentir para caramba.

"Tudo é um delírio, a vida é uma grande loucura", diz a escritora manauara. "Se você está lendo meu livro, vai ficar com tesão ou vai ficar com medo, mas vai sentir alguma coisa. Não quero saber o quanto o leitor entendeu, se sacou a referência. Está tudo muito didático hoje em dia. Tá chato."

Sentada em uma calçada na rua Antônio Carlos, em São Paulo, a escritora de 40 anos parece feliz ao ouvir o repórter confessar que, a certa altura, parou de tentar entender toda a narrativa de "No Baile do Juízo Final" —livro que ela vai apresentar na Flip ao lado da também ousada catalã Eva Baltasar.

A miscelânea indefinível de histórias do livro —algo entre contos, novelas e ensaios— se ambienta em Manaus, entrelaçando personagens cativantes, pulsando de personalidade. Todos os fragmentos parecem caminhar para um "gran finale" amarradinho, que dê sentido à coisa toda com um laço de fita em cima. Ingenuidade do leitor.

"E isso para mim tem tudo a ver com a cidade. É a grande conclusão", afirma a autora. "Em Manaus, as coisas se dissolvem. Parecem que vão ser algo e somem. A cidade é muito sem memória. Está sempre destruindo sua noção de passado, seja em relação aos povos indígenas, seja em relação a casarões históricos da época da borracha. Manaus é um grande Oxxo com uma FarmaBem do lado."