Na Roma antiga, poucas coisas divertiam tanto as elites quanto ver a necessidade alheia transformada em espetáculo.

Fosse no Coliseu, onde escravizados lutavam por prêmios e pela sobrevivência, ou na Saturnália, o festival em que senhores e servos trocavam temporariamente de papéis, o entretenimento romano dependia da encenação da própria desigualdade. A inversão era efêmera, permitida apenas para garantir que no dia seguinte a hierarquia voltasse intacta.

Passados dois milênios, a ilusão de que avançamos como civilização desmorona com um simples arrastar de dedos na tela do celular.

O reflexo contemporâneo desta tradição atende pelo nome de "As Patroas", um reality show criado pelos influenciadores Viih Tube e Eliezer. Nele, 11 funcionários da mansão do casal em Alphaville, entre babás, cozinheiras e motoristas, disputam provas semanais por prêmios em dinheiro e regalias.

Na estreia, sob os gritos de "dá a vida, dá a vida", os trabalhadores foram filmados mergulhando no lago da propriedade e revirando lixeiras e vasos sanitários em busca de moedas de plástico. A gincana da mansão, que ironicamente batizou suas dinâmicas de "desafio CLT", coroa semanalmente a "patroa da semana". É a velha Saturnália, adaptada para os tempos de engajamento digital.