Habituados à democracia, que separa a sucessão da linhagem sanguínea, poucos analistas entenderam o já célebre vídeo de Michelle. Como o clã Bolsonaro opera segundo regras dinásticas, para interpretá-lo é preciso retornar a um passado distante. A inspiração da estratégia da esposa de Jair deita raízes na honorável prática do fratricídio.

No Império Otomano, a sucessão abria-se a todos os herdeiros homens do sultão, o que provocava sangrentas guerras palacianas. O sultão Mehmed 2º legalizou o fratricídio como parte do código imperial, o Kanunname, no seu segundo reinado, entre 1451 e 1481. Um de seus filhos tornou-se o sultão Mehmed 3º e, em 1595, ordenou a execução de seus 19 meio-irmãos. No reinado de Ahmed 1º (1603-1617), o fratricídio legal foi substituído pelo sistema de Kafes, o confinamento palaciano de potenciais herdeiros rivais.

As monarquias europeias tentaram proteger-se das batalhas entre irmãos por meio da regra estrita da primogenitura. A cláusula, porém, não evitou execuções e mutilações no interior da família real no Império Bizantino ou, nas origens do Império Russo, durante as guerras de sucessão de Vladimir 1º, príncipe de Kiev, no século 11. Também não impediu a prática na Inglaterra das Guerras das Rosas (1455-1487). O rei só pode ter um herdeiro –eis o princípio que orienta Michelle.