Curitiba, 2005. Quem segue apressado pela calçada dificilmente desconfiaria que, dentro daquele Volkswagen Gol prata estacionado em frente ao Shopping Mueller – uma vaga disputadíssima –, havia um agente secreto à espera de instruções superiores. O chefe da operação, conhecido pelo codinome “Capa Preta”, mandara alugar o veículo em dinheiro vivo, para não deixar rastros. Pouco depois, outro araponga, supostamente a serviço da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), abre a porta, acomoda-se no banco do passageiro e entrega um pacote recheado de arquivos confidenciais, incluindo áudios gravados clandestinamente em um hotel ali pelas redondezas.
Nada de perseguições em alta velocidade ou operações mirabolantes para desarmar bombas nucleares. A missão daquele dia era bem mais modesta: identificar os donos das vozes grampeadas no “aparelho”. É assim que Tony Garcia descreve uma tarde típica em seu antigo ofício. Preso preventivamente em 2004, acusado de fraudes na gestão do extinto Consórcio Nacional Garibaldi, liquidado pelo Banco Central dez anos antes, o empresário afirma ter sido recrutado para atuar como informante da “República de Curitiba” em troca da liberdade.
Para se livrar do “calabouço”, como define a cela que ocupava numa unidade da Polícia Federal, Garcia assinou um acordo de colaboração premiada homologado pelo então juiz Sergio Moro. No entanto, em vez de arrancar detalhes sobre o rombo financeiro ou exigir a delação de comparsas, o magistrado parecia interessado em algo mais ambicioso: investigar um suposto esquema de venda de sentenças judiciais. Para isso, teria encarregado o “colaborador” de coletar provas contra advogados, juízes, desembargadores e até ministros do Superior Tribunal de Justiça.








