"Dê-me a Excalibur", era como o médico Peretz Capelhuchnik solicitava aos instrumentadores uma longa e reta tesoura cirúrgica trazida por ele nos anos 1970 da Inglaterra. O equipamento de grandes proporções, que ganhou informalmente da equipe o nome da lendária espada do rei Arthur, era novidade na sala de emergência da Santa Casa de São Paulo e virou sua marca registrada.

Se um centro cirúrgico é tenso por natureza, a temperatura podia ser ainda mais elevada sob o comando de um médico conhecido por seu extremo rigor e perfeccionismo. Por isso, Peretz recorria a apelidos, como Excalibur, bordões e outras criações advindas de seu humor peculiar. Assim acalmava os ânimos de alunos e residentes, dos quais cobrava sem pudor a excelência.

Professor emérito da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, Peretz é descrito por ex-alunos como um profissional exigente e generoso na mesma medida. Uma "enciclopédia ambulante", que demonstrava imensa vontade de compartilhar tudo o que aprendeu ao longo de mais de 70 anos dedicados à medicina.

Ele nasceu em Passo Fundo (RS) em 1926. Filho de refugiados da antiga Bessarábia —região que hoje compreende partes da Ucrânia e da Moldávia—, realizou o sonho interrompido da mãe, Enta, que cursou o primeiro ano de medicina em Odessa, na Ucrânia. Ela teve de abandonar os estudos por causa da perseguição aos judeus no Leste Europeu no início do século 20 e da fuga da família para o Brasil.