Delcia Matsumoto Ohno, Cleusa Juliana Ireno e Eulogia Roldan Biguilim não se conhecem. Mas dividem a experiência de ter a saúde apoiada por tecnologias inovadoras. Delcia, com 89 anos, participa de estudo de telemonitoramento remoto de idosos do Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP). Depois de uma cirurgia cardíaca no ano passado, ela usa pulseira e balança inteligentes com dados captados por bluetooth e enviados por celular ao InCor. “Com o monitoramento, me sinto acolhida e fico mais tranquila”, diz. Cleusa, 47 anos, passou por cirurgia sem presença do cirurgião – o procedimento, realizado em 2025, foi feito por um robô no Hospital Universitário, em São Paulo, comandado a distância pelo médico localizado no HC. Já o apoio de inteligência artificial (IA) no diagnóstico oncológico de alteração pulmonar levou Eulogia, com 77 anos, a realizar seis exames e procedimentos em menos de 15 dias. “A rapidez ajuda a reduzir a ansiedade”, diz ela. As experiências mostram os avanços na área, encabeçados por instituições de ponta com procedimentos turbinados por IA, internet das coisas (IoT), dados e biotecnologia. O HC é uma delas. O InCor mira desospitalização e monitoramento contínuo com uso de IA e IoT. Uma das inovações, que está em teste com 200 pacientes, é a pulseira (smart band) projetada para captar, a cada 15 minutos, dados do paciente por emissão de luz sobre a pele — a luz é refletida a cada dilatação dos vasos capilares. Enviados a um celular, com algoritmos para extrair biomarcadores como pressão arterial, saturação de oxigênio e ritmo cardíaco, os dados seguem ao InCor via rede máquina a máquina (M2M), a mesma que sustenta maquininhas de pagamento. “Estamos desenvolvendo também protocolo para monitoramento de idosos para avaliar o impacto do monitoramento contínuo versus procedimento assistencial normal”, conta Marco Antônio Gutierrez, diretor do Laboratório de Engenharia Biomédica do InCor — é deste projeto que Delcia está participando. Outras iniciativas incluem algoritmo para interpretação de eletrocardiograma (ECG) indicando probabilidade de diagnósticos, utilizado na casa e agora em testes em Unidades Básicas de Saúde (UBSs). Marco Antonio Gutierrez, do Incor: Protocolo para avaliar impacto do monitoramento contínuo de idosos — Foto: Foto: Divulgação Outra área da instituição craque em tecnologias é o Instituto de Radiologia (Inrad). Segundo Giovanni Cerri, presidente do conselho do Inrad e do escritório de inovação InovaHC, um dos primeiros passos foi o desenvolvimento da telessaúde, com consultas remotas e exames avaliados a distância. O telemonitoramento está em curso com desenvolvimento de um equipamento de tamanho similar a um celular para monitorar batimentos cardíacos de gestantes de alto risco. “Estamos caminhando no futuro para saltar de contatos eventuais para permanentes entre o paciente e o sistema de saúde”, diz Cerri. Giovanni Cerri, do Inrad/HC e InovaHC: Contatos entre paciente e sistema de saúde caminham para ser permanentes — Foto: Foto: Ader Gotardo/Divulgação Para melhorar o cenário para a saúde digital, o InovaHC está tocando projeto-piloto de interoperabilidade com uma dezena de instituições públicas e privadas por meio de infraestrutura da B3, a mesma usada no open finance — a expectativa é ter modelo de open care validado no ano que vem. Do laboratório de IA para saúde criado em 2020 saem iniciativas como o desenvolvimento de laudo radiológico enriquecido com resumo clínico do paciente organizado e resumido por IA generativa, em parceria com a AWS. Já a conexão 5G embasou as primeiras telecirurgias robóticas realizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) — a de Cleusa foi a retirada de tumor pulmonar. A trilha de inovação futura inclui a radiômica, técnica capaz de extrair dados de exames de imagem “invisíveis” aos olhos humanos, permitindo, por exemplo, diagnósticos mais precoces e o teragnóstico, com aumento da capacidade de unir diagnóstico em nível celular e terapia no mesmo instante. O Einstein Hospital Israelita encabeça outro ecossistema pródigo em inovações, inclusive com parcerias com startups e indústria. A instituição está criando Centros Colaborativos de Inovação (CCIs) voltados a projetos de longo prazo com a indústria e deve estruturar seis até o fim do ano, o primeiro deles com a Philips. “Temos tido oportunidade de ajudar no desenvolvimento de novas tecnologias”, diz Rodrigo Demarch, diretor-executivo de inovação do Einstein. Na área cirúrgica, uma das plataformas em teste captura dados intraoperatórios para apoiar o cirurgião durante a atividade. Outra, da norte-americana Andrômeda, traz informações como exames de imagem do paciente para a tela do cirurgião. A própria instituição dá origem a novas tecnologias. A startup We Care Skin, nascida no ecossistema, desenvolveu um creme para tratamento de lesões causadas por radioterapia baseado na flora brasileira. Um dos algoritmos desenvolvidos em casa ajuda a prever a readmissão de pacientes no pronto-socorro em até 30% dos casos. Outro permite predizer risco de desenvolvimento de úlcera de pressão (escara) em pacientes acamados. A plataforma HStory, apoiada por GenAI, permite levar à tela do médico todo o histórico do paciente na instituição, com algoritmos que permitem prever riscos para doenças metabólicas e outras. As unidades de pronto atendimento começaram também a usar IA que transcreve automaticamente o atendimento ao paciente. No Hospital Sírio-Libanês, tecnologias como visão computacional, modelos preditivos de aprendizagem de máquina (ML), modelos de séries temporais e modelos de linguagem (LLMs) renderam diversas iniciativas. Uma delas envolve bioinformática de alto desempenho para processar sequenciamentos genéticos em larga escala — um dos resultados foi um estudo publicado em 2025 que identificou 90 versões da proteína receptora da medicação em tratamento contra tumores de mama. “Hoje é possível identificar as variações da proteína com maior precisão e indicar tratamentos mais adequados a cada perfil”, conta Conrado Tramontini, gerente da Garagem de Inovação do Sírio-Libanês. A instituição tem uma série de soluções com IA criadas em casa. O Bronco.Alerta monitora pacientes com risco de broncoaspiração analisando notas clínicas com LLM e acionando protocolo de cuidado em caso de sinal de risco. Outra aplicação analisa laudos de exames de mamografia com nódulos suspeitos e engaja a paciente na linha de cuidados. A plataforma IntegralInfo usa processamento de linguagem natural (NLP) para consolidar dados clínicos de prontuário e gerar resumos estruturados para a passagem de plantão. “A convergência entre inteligência artificial, análise de dados, biotecnologia e dados de mundo real redefine o cuidado centrado no paciente ao permitir diagnósticos mais precoces e tratamentos altamente personalizados”, observa Gustavo Pinto, diretor corporativo nacional do Serviço de Apoio Diagnóstico e Terapêutico (SADT) da Rede Américas. A rede implementou IA para rastreamento precoce de câncer de pulmão em cerca de dez mil exames ao mês de raio-X e tomografia nos hospitais Nove de Julho, Samaritano Higienópolis e Alvorada Moema, em São Paulo (SP). No Nove de Julho, algoritmos de IA realizam triagem automatizada de ECG para identificação precoce de arritmias, projeto em parceria com Johnson & Johnson MedTech e Neomed que insere pacientes identificados em linha de cuidados com protocolos específicos. A rede também usa plataforma de telemedicina no atendimento de acidentes vasculares cerebrais (AVC), Telestroke, para conectar hospitais de diferentes níveis de complexidade a especialistas em neurologia vascular em tempo real. Gustavo Pinto, diretor Corporativo Nacional da Rede Américas: Diagnósticos mais precoces e tratamentos personalizados — Foto: Foto: Divulgação A Dasa, por sua vez, promove modernização do parque com soluções de mercado turbinadas com IA ao mesmo tempo que cria soluções próprias e com parceiros. Da GE Healthcare, traz 16 novos equipamentos de ressonância magnética com IA para ajuste de parâmetros e melhoria de imagem e a solução ViewPoint, ultrassom fetal com inteligência para estruturar e comparar medidas e indicar pontos de atenção. A casa adotou recentemente a solução Leonardo, da LeoRad, baseado em laudos pré-prontos, bastando ao médico detalhar por voz apenas as alterações, conta Giancarlo Domingues, head médico de inovação em diagnóstico por imagem e patologia/B2B na Dasa. Já a Dasa Genômica está trazendo para seu portfólio tecnologia de análise fitogenética, com base em mapeamento de genoma óptico, com capacidade cerca de 70 vezes superior à geração anterior, adianta o geneticista Gustavo Guida. O apoio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) busca estimular a inovação na saúde. Entre financiamentos e contrapartidas, foram R$ 6,7 bilhões para 351 projetos desde o início de 2023. Isso inclui editais como a chamada Mais Inovação Saúde – ICTs, com R$ 71 milhões para 51 projetos ligados a Instituições Científicas e Tecnológicas (ICTs), voltados a insumos farmacêuticos ativos, terapias avançadas e terapias com alto impacto para o SUS; e Mais Inovação Saúde – Empresas, com R$ 250 milhões como subvenção a 25 iniciativas para reduzir vulnerabilidades do SUS e ampliar o acesso à saúde. No primeiro caso, um dos exemplos, com investimento de R$ 50 milhões, é do Hemocentro de Ribeirão Preto (SP), com terapia inédita no Brasil com células CAR-NK para tratamento de linfoma não Hodgkin de células B — o processo usa células de doadores saudáveis prontas para uso (off the shelf), com acesso mais rápido e seguro do que terapias CAR-T convencionais. No segundo, o apoio à Brain4Care, que criou dispositivo portátil e não invasivo para medição de pressão intracraniana. “O projeto, com investimento superior a R$ 6 milhões, está focado na validação do monitoramento em tempo real para emergências neurológicas por meio de estudo de fase 3 conduzido dentro do SUS”, detalha Joana Meirelles, superintendente da Área de Saúde e Transformação Digital da Finep. Joana Meirelles, da Finep: R$ 6 milhões para validação do monitoramento em tempo real para emergências neurológicas — Foto: Foto: Lucas Landau/Divulgação Outro projeto, da Nintx, com investimento de R$ 13,7 milhões, usa a biodiversidade brasileira como base para o desenvolvimento de nova terapia para doenças inflamatórias intestinais – a empresa foi premiada na categoria Deep Tech do prêmio Finep de Inovação, que teve ainda como vencedoras a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), com plataforma inédita de terapia gênica para tratar epilepsias e atrasos em neurodesenvolvimento, e o Instituto de Ciências Exatas (ICEx) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que desenvolve oftalmoscópio capaz de identificar em tempo real e de forma não invasiva o biomarcador da doença de Alzheimer, para diagnóstico precoce.
Procedimentos turbinados por IA, internet das coisas, dados e biotecnologia revolucionam o mercado
Cada vez mais pacientes passam pela experiência de ter a saúde monitorada por tecnologias inovadoras







