A BlackRock está recomendando alocação acima da média em dívida de mercados emergentes, especialmente Brasil, Colômbia e México. Segundo Axel Christensen, estrategista-chefe da gestora para a América Latina, os títulos em moeda local oferecem “uma combinação muito atrativa de retorno e risco”. No entanto, para ações, a diretriz agora é de mudança da alocação acima da média em emergentes para neutra, a partir do segundo semestre. “No primeiro semestre, tivemos um resultado muito, muito positivo. A redução agora não quer dizer aversão a emergentes, mas sim que estamos realizando alguns lucros”, afirmou Christensen nesta quinta-feira (2) durante apresentação a jornalistas do relatório de perspectivas globais para o segundo semestre. De acordo com ele, a postura agora será mais seletiva em ações latino-americanas. “A América Latina não tem peso suficiente em comparação com a Ásia para manter os mercados emergentes com sobrepeso. Como você sabe, Brasil, México e outros países representam menos de 10% dos índices mais amplos de emergentes.” Axel Christensen, estrategista da BlackRock: títulos em moeda local oferecem “combinação muito atrativa de retorno e risco” — Foto: Divulgação Em renda fixa, por outro lado, disse, esses países deixaram para trás a volatilidade que os caracterizava no passado e, agora, demonstram uma resiliência significativa. “Não observamos crise grave, apesar do ciclo de taxas de juros elevadas nos EUA e da recente incerteza geopolítica decorrente do conflito no Oriente Médio.” Na região, explicou, o comportamento de diversos mercados está menos atrelado à inteligência artificial e ao conflito no Oriente Médio, e muito mais associado a fatores idiossincráticos ou globais. Ele citou o exemplo da Colômbia, cujos ativos sofreram mais impacto das eleições recentes no país. “As economias de mercados emergentes, especialmente na América Latina, têm esse elemento peculiar que acreditamos ser uma boa maneira de obter diversificação em um mercado atual que, se não for analisado corretamente, pode acabar com uma concentração maior em tecnologia e inteligência artificial do que o esperado”, avaliou. O Brasil, exemplificou, é uma fonte importante de minerais críticos, necessários não apenas para a IA, mas também para a transição energética e a redução das emissões. “Portanto, no que diz respeito às empresas brasileiras do setor de mineração, acreditamos que continuará havendo uma demanda estruturalmente alta por seus produtos.” Além disso, avaliou, o país vem desempenhando um papel fundamental em um novo arranjo geopolítico mundial. “Vemos países como o Brasil conseguindo usar sua dimensão e sua influência para garantir não apenas minerais críticos, mas também produtos essenciais como alimentos e energia.” De acordo com Christensen, o país precisará de investimentos significativos em infraestrutura, como a expansão dos portos e o aumento da oferta de energia renovável. “A combinação do papel fundamental do Brasil na IA, na transição energética e nos novos arranjos geopolíticos está colocando o Brasil no centro das atenções dos investidores.” O estrategista-chefe afirmou que a gestora está propondo um aprofundamento da leitura dos índices e dados de mercado, para adotar uma estratégia de diversificação diferente da tradicional. “Não devemos encarar o portfólio com ações, renda fixa e investimentos alternativos como classes de ativos que não se conectam. As oportunidades não têm essas fronteiras.” Ele disse que o tema central para o segundo semestre de 2026 gira em torno das oportunidades e dos riscos que a inteligência artificial representará, e de um de um quadro muito mais claro da escassez, por exemplo, de chips e de minerais críticos, como o cobre, bem como do aumento da volatilidade nos principais produtores e países, principalmente na Ásia emergente, como Coreia do Sul e Taiwan. “Esses polos de escassez, muitos dos quais podem ser encontrados fora do setor de tecnologia, como energia e suprimentos, como mencionei, minerais críticos, também são uma forma de se expor a essa transformação da IA”, comentou. “Portanto, a IA é algo muito mais amplo do que sete megaempresas.” Uma das vias, prosseguiu ele, são os investimentos em data centers por meio de empresas de capital aberto, mas também por meio de fundos de infraestrutura que atuam em mercados privados no segmento alternativo. Daí vem, explicou ele, a estratégia de diversificação diferente, que ele chama de “abordagem de portfólio total.” Para ele, a renda fixa tinha uma contribuição muito forte em termos de diversificação de risco, sendo uma análise mais focada em rendimento, mas, mais recentemente, tem observado uma mudança nesse papel, à medida que mais empresas de tecnologia acessam os mercados por meio de IPOs ou emissões de títulos para se financiarem. Portanto, disse, ela não está diversificando tão eficazmente quanto no passado. O S&P 500 dos Estados Unidos ou qualquer índice de mercado emergente apresenta perto de 80% de exposição a economias asiáticas, que também são muito fortes em tecnologia, e até mesmo em um número concentrado de empresas, de acordo com ele. “Se realmente queremos ter um portfólio diversificado para gerenciar o risco, precisamos ir além dos dados tradicionais.” Além disso, comentou, o aumento da inflação e dos gastos governamentais em muitas economias desenvolvidas enfraqueceu, de certa forma, os aspectos de diversificação e gerenciamento de risco, deixando a fonte de retorno como fator dominante. Comparando o retorno dos títulos de emergentes, como o Brasil e o México, com os de desenvolvidos, com os títulos corporativos e com os de grau de investimento, detalhou, a dívida de mercados emergentes está em alta, com foco em rendimentos e ajustada ao risco. O motivo, disse, é o fato de os bancos centrais terem sido muito ativos do que os de nações ricas na busca por uma meta de inflação. “O Brasil, talvez no extremo superior desta análise, encontra-se em condições muito mais estáveis do que as que experimentamos no passado. Mesmo com taxas de juros elevadas, o país consegue administrar o crescimento econômico. Seria melhor se as taxas fossem mais baixas, mas o país consegue seguir em frente, apesar de uma taxa de crescimento talvez menor.” O estrategista-chefe da BlackRock frisou ainda que as moedas emergentes se valorizaram em relação ao dólar e, mesmo com a recuperação recente do dólar, o impacto tem sido limitado. Sobre as eleições no Brasil, Christensen afirmou que o novo governo terá de enfrentar desafios como encontrar ou revitalizar os motores de crescimento do país. “Existem polos críticos nos quais o Brasil tem vantagens, seja na cadeia de suprimentos de IA ou na segurança alimentar e energética em um mundo que busca muito mais diversificação de suas fontes. Portanto, as oportunidades definitivamente existem.” Outro desafio, acrescentou, é como facilitar as condições de financiamento, sobretudo em infraestrutura, setor que é muito sensível às taxas de juros. “À medida que o Banco Central continuar fazendo o bom trabalho que tem feito no passado no controle da inflação, esperamos ver taxas de juros mais baixas que possam facilitar um aumento nos investimentos, principalmente na área de infraestrutura.”
BlackRock eleva recomendação para títulos em moeda local de emergentes e reduz para ações
Gestora aponta em especial papéis do Brasil, Colômbia e México, por ver boa relação entre retorno e risco









