Fazer uma obturação no dentista pode ser doloroso, caro e, de modo geral, uma experiência desagradável. Colocar uma coroa ou fazer um tratamento de canal costuma ser ainda pior. Mesmo assim, a maioria das pessoas aceita o procedimento porque o dentista diz que é necessário. Mas, em um número surpreendente de casos, pode haver outra opção. Onde um dentista enxerga a necessidade de uma coroa, outro pode indicar apenas uma obturação. E, enquanto um recomenda o uso da broca, outro pode sugerir primeiro uma pasta de dente com flúor de prescrição. Em outras palavras, o diagnóstico de um dentista nem sempre é a palavra final. A formação profissional, a filosofia de tratamento e até fatores econômicos podem influenciar a decisão. — Um dentista que se formou em 2026 e outro que se formou em 1999 podem propor planos de tratamento completamente diferentes — afirma Shelbey Arevalo, diretora-executiva do National Dental Advocacy Program, organização que ajuda pacientes a navegar pelo sistema de saúde bucal. Então, como saber se você recebeu o diagnóstico mais adequado para o seu caso? E quando vale a pena buscar uma segunda opinião? Veja o que especialistas recomendam antes da sua próxima consulta. Nem todos os dentistas concordam sobre quando usar a broca As cáries — chamadas de caries pelos dentistas — são danos à superfície do dente causados pelos ácidos produzidos pelas bactérias presentes na boca. Quanto mais profunda a lesão, maior o problema. Embora isso pareça simples, na prática nem sempre é. Se o ácido desgastou apenas o esmalte, a camada externa do dente, mas ainda não atingiu a dentina — a camada logo abaixo —, a decisão de intervir depende da avaliação do profissional, explica a dentista Sara Stuefen, de Vinton, no estado de Iowa, e porta-voz da American Dental Association. — Em alguns casos, ainda há tempo para reverter a situação — diz ela. Melhorar a escovação e o uso do fio dental, além de reduzir o consumo de doces ou até mesmo de café, pode ser suficiente para interromper a progressão da lesão. — Muitos pacientes não sabem que é possível reverter uma cárie quando ela ainda está nos estágios iniciais — acrescenta Diana K. Nguyen, professora associada de odontologia clínica da Universidade da Califórnia, em São Francisco. Quando a cárie alcança a dentina, que é mais macia, a maioria dos dentistas recomenda fazer uma obturação imediatamente. Ainda assim, existem diferenças de abordagem. Alguns indicam uma coroa quando cerca de 50% do dente já foi perdido ou restaurado; outros só recorrem a esse procedimento em estágios mais avançados. Os padrões de tratamento estão mudando Assim como acontece em outras áreas da medicina, a odontologia está em constante evolução. Uma das principais tendências atuais é a odontologia minimamente invasiva, que busca evitar o uso da broca sempre que possível. — Nos últimos 50 ou 60 anos, nos tornamos muito mais conservadores do que éramos antes — afirma Margherita Fontana, professora da Faculdade de Odontologia da Universidade de Michigan. — Existem muitas intervenções preventivas que custam muito pouco. Segundo Nguyen, já se sabe há décadas que cremes dentais e enxaguantes bucais com alta concentração de flúor, prescritos pelo dentista, podem interromper e até reverter cáries em estágio inicial. Também é possível controlar algumas lesões com vernizes de flúor e preveni-las com selantes dentários, recurso que antes era recomendado apenas para crianças, mas hoje também pode beneficiar adultos, explica Fontana. Há ainda produtos mais recentes, embora menos estudados, que ajudam a reconstruir o esmalte dental. Um deles é o Curodont, um líquido aplicado diretamente na área afetada que atrai cálcio e fosfato presentes na saliva, favorecendo a reconstrução do esmalte. Outro é a pasta MI Paste, que libera minerais diretamente nos dentes, segundo Nguyen. Fontana acrescenta que, ao longo das últimas décadas, também surgiram alternativas ao tratamento de canal. Em alguns casos, quando a cárie está muito próxima do nervo do dente, é possível isolar a região comprometida — em uma técnica conhecida como remoção seletiva da cárie — preservando parte do tecido afetado em vez de removê-lo completamente. O dinheiro também influencia A odontologia não é apenas uma área da saúde: também é um negócio. E procedimentos como obturações e coroas costumam gerar mais receita do que limpezas preventivas, o que pode criar incentivos, mesmo inconscientes, para indicar tratamentos mais invasivos em casos limítrofes. — Quanto maior a intervenção cirúrgica, maior costuma ser o retorno financeiro. Não é possível cobrar repetidamente apenas por acompanhar uma lesão ao longo do tempo — afirma Nguyen. Outra tendência é o crescimento das chamadas Dental Support Organizations (DSOs), empresas que compram ou administram consultórios odontológicos e ficam responsáveis pela gestão do negócio. Embora, em geral, essas organizações sejam proibidas de interferir diretamente nas decisões clínicas, alguns estados americanos moveram ações judiciais alegando que a cultura corporativa pressiona dentistas a priorizar o lucro. A Califórnia aprovou recentemente uma lei para limitar o poder dessas empresas, enquanto Nova York discute uma medida semelhante. Faça perguntas Para conhecer melhor a forma de atuação de um novo dentista, os especialistas recomendam perguntar qual é sua filosofia de tratamento antes de iniciar qualquer procedimento. Segundo Nguyen, é um bom sinal quando o profissional conhece medidas preventivas, procura alternativas menos invasivas e explica claramente as opções disponíveis. — Se o dentista estiver com pressa e disser: "Não tenho tempo para explicar isso, fale com alguém da equipe", eu consideraria isso um sinal de alerta — afirma. Quando buscar uma segunda opinião Se você tiver dúvidas sobre um diagnóstico e não estiver sentindo dor intensa, vale a pena procurar uma segunda avaliação. Segundo Arevalo, dizer ao dentista que deseja outra opinião pode ser desconfortável, mas, se ele tentar desencorajá-lo, isso também deve ser encarado como um sinal de alerta. Nguyen ressalta que uma segunda opinião exige uma nova consulta e um novo exame clínico. Apenas enviar radiografias para outro profissional não é suficiente. Alguns planos odontológicos cobrem essa segunda avaliação, enquanto outros não oferecem esse benefício. Enviar as radiografias — às quais o paciente tem direito de solicitar acesso — pode reduzir os custos, mas Arevalo recomenda não informar ao segundo dentista qual foi o diagnóstico inicial, para evitar qualquer influência na avaliação. Construa uma relação de confiança Os especialistas destacam que é importante desenvolver uma relação de confiança com o dentista — alguém que conheça seu histórico, escute suas preocupações e em quem você possa confiar. Também é essencial fazer sua parte em casa. Os dentistas levam em consideração o histórico do paciente ao definir um tratamento. Se você mantém uma boa higiene bucal e comparece regularmente às consultas, é mais provável que o profissional opte por apenas acompanhar uma lesão inicial, explica Nguyen. Por outro lado, quem vai pouco ao consultório, já possui muitas obturações e coroas ou faz uso de medicamentos que reduzem a produção de saliva pode receber recomendações mais intervencionistas. — Você nos procura apenas duas vezes por ano, certo? — diz Fontana. — Posso recomendar produtos eficazes e realizar tratamentos no consultório para prolongar a saúde dos seus dentes. Mas, no fim das contas, a maior parte do trabalho depende de você.