Críticas pesadas a ex-treinador são ponta do iceberg de caos de governança na federação do país asiático 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 No aeroporto, torcedor segura um cartaz em coreano, com a frese: 'Hong Myung-bo! Devolva o dinheiro e saia! Destrua a KFA' — Foto: JADE GAO / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 01/07/2026 - 22:37 Crise no Futebol Sul-Coreano: Governo Investiga Após Eliminação na Copa A eliminação precoce da Coreia do Sul na Copa do Mundo gerou uma crise no país, com críticas intensas ao ex-treinador Hong Myung-bo e à Associação de Futebol Sul-coreana (KFA). A situação evoluiu para uma questão de Estado com investigações anunciadas pelo governo. Protestos e questionamentos sobre a governança da KFA refletem uma cidadania ativa que vê no futebol uma expressão da identidade nacional, enquanto o país observa o avanço esportivo do Japão. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Na primeira Copa do Mundo com 48 seleções, 32 avançaram à fase mata-mata e outras 16 se despediram já no fim da fase de grupos, mesmo num sistema que classificou até terceiros colocados. Uma dessas eliminadas precocemente foi uma potência do futebol asiático, que não reagiu bem ao mau resultado: nos últimos dias, a Coreia do Sul foi palco de manifestações contundentes, presenciais e nas redes sociais. Um movimento que chamou atenção do mundo para além do noticiário esportivo e virou até questão de Estado após o governo anunciar uma investigação na Associação de Futebol Sul-coreana (KFA). Na terça-feira, quando retornou ao país, o agora ex-treinador Hong Myung-bo foi alvo de vaias, faixas de protesto e xingamentos ao desembarcar no Aeroporto de Incheon. A segurança precisou ser reforçada no local. Principal alvo da revolta, o treinador foi ameaçado de morte, teve o rosto censurado em uma emissora de TV, viu sua foto ser estampada em placas de entrada proibida em restaurantes do país e ainda foi chamado de incompetente pelo presidente do país, Lee Jae-Myung. Hong, que estava desde julho de 2024 no cargo, pediu demissão quatro dias após a derrota por 1 a 0 para a África do Sul, que decretou a eliminação da equipe, com campanha de uma vitória e dois reveses. Foi a oitava participação sul-coreana na Copa do Mundo. A equipe só avançou da fase de grupos em três dessas oportunidades, sendo o melhor resultado o quarto lugar de 2002, edição que sediou junto ao Japão. Curiosamente, Copa em que Hong, ainda como jogador, terminou com a bola de bronze. Exercíco da cidadania As críticas dos últimos dias, porém, foram a ponta do iceberg de uma crise ainda maior, com a KFA no centro. A escolha do nome de Hong, que já havia treinado a equipe na Copa de 2014, não passou por um comitê consultivo associado à federação, considerado uma etapa primordial no processo seletivo. O comitê, na época, tinha o americano Jesse Marsch, hoje comandante do Canadá, como favorito. A escolha da diretoria técnica da KFA, balizada pelo presidente Chung Mong-gyu, desencadeou questionamentos do povo e do poder público sobre a lisura das decisões. Chung virou alvo de inquéritos, foi convocado a depor duas vezes e virou alvo da Justiça. O imbróglio chegou até a envolver a Fifa, que veta interferência governamental em federações — ainda que a KFA seja um dos casos em que há dinheiro público investido. Em maio deste ano, Chung anunciou que deixaria o cargo após o Mundial. Professora e coordenadora do Núcleo de Estudos e Negócios Asiáticos da ESPM, Han Na Kim explica que, desde antes da Copa, já havia a noção de que a KFA era um problema de governança pública: — No legislativo, há dois lados. Houve deputados que chamaram a KFA de maior inimiga do futebol coreano, mas há um contraponto, de quem fala que a culpa também é dos atuais dirigentes. A professora explica que as manifestações e a inquietação dos sul-coreanos podem parecer uma reação exagerada do país, conhecido pela exportação de produtos de mídia de massa, como o K-Pop e os doramas. Mas há uma percepção de identidade nacional no futebol, que se mistura com o espírito de um país relativamente novo, que passou por anos de dura repressão. — Os torcedores sul-coreanos são muito participativos, eles não só torcem. Querem participar das discussões públicas sobre governança esportiva, reclamar quando não estão bons os processos decisórios e também cobrar responsabilidade dos dirigentes. Na Coreia, criticar qualquer técnico e cobrar a federação são coisas que eles enxergam como um exercício de cidadania — afirma. — Não é uma reação emocional, eles não estão criticando só porque estão com raiva, tristes ou porque perderam e não vão seguir na Copa. Eles percebem que tem problema social aí, problema político. E os coreanos já tiveram muito mais autoridade. A Coreia viveu ditadura, viveu épocas terríveis de sufocamento de opinião. Então, hoje, quando eles querem falar, eles vão à rua mesmo. Esportivamente, os coreanos também veem o vizinho Japão avançar mais rapidamente no esporte. Os nipônicos chegaram perto de complicar o Brasil na segunda fase do Mundial, num cruzamento considerado azarado. Assim como os japoneses, os coreanos vivem um movimento de exportação de talentos para as principais ligas europeias. Caso do zagueiro Kim Min-Jae, jogador importante do Bayern de Munique, e do meia Lee Kang-in, do PSG, que fez boa Copa. Além, claro, do veterano atacante e ídolo internacional Son Heung-min, que pode ter disputado sua última Copa em 2026. Mas os resultados atuais, por enquanto, são amargos.