A Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA) propôs nesta terça-feira a primeira regra que pode acabar com a proibição de 53 anos sobre voos supersônicos no espaço aéreo americano. A medida troca o critério atual, baseado puramente na velocidade da aeronave, por um parâmetro de ruído. Qualquer avião poderá romper a barreira do som sobre o território americano desde que o estrondo sônico não ultrapasse o equivalente ao barulho de um trovão distante sobre a superfície. A proposta foi anunciada pelo secretário de Transportes dos EUA, Sean Duffy, e assinada pelo administrador da FAA, Bryan Bedford. Segundo o órgão, avanços em engenharia aeroespacial, ciência de materiais e técnicas de voo possibilitaram operar aeronaves supersônicas sem que o estrondo sônico chegue ao solo, obstáculo que, desde a década de 1970, manteve esse tipo de viagem restrito a rotas sobre o oceano. A regra publicada nesta terça trata apenas do ruído gerado na viagem de cruzeiro. Um segundo texto, com padrões para pouso e decolagem, ainda será proposto pela FAA ainda este ano. A agência estabeleceu como meta concluir as duas regulamentações até meados de 2027. A proibição em vigor remonta a 1973, quando a FAA editou uma norma vetando o tráfego civil acima de Mach 1 sobre o território continental americano. À época, o estrondo sônico gerado pela quebra da barreira do som, perceptível como uma explosão no solo, provocava reclamações de moradores e, em alguns casos, danos a construções ao longo das rotas de teste. Voo supersônico do avião demonstrador XB-1 — Foto: Boom A restrição nunca impediu o avião comercial mais famoso da história supersônica, o Concorde, de operar comercialmente, já que suas rotas regulares ligavam Nova York a Londres e Paris sobre o Atlântico. Mas o veto americano fechou a porta para qualquer rota doméstica nos Estados Unidos, limitando o mercado potencial da aeronave e contribuindo para a equação financeira que, décadas depois, selaria seu fim. A guinada começou em junho de 2025, quando o governo Trump assinou uma Ordem Executiva determinando à FAA que revisasse o banimento. Em paralelo, a Câmara dos Representantes aprovou em março o projeto que obriga a agência a permitir voos supersônicos sem estrondo perceptível no solo. O texto aguarda votação no Senado, com apoio do senador Ted Budd. Tecnologia que silencia o estrondo O mecanismo que sustenta a mudança regulatória chama-se Mach cutoff: uma combinação de velocidade, altitude e condições atmosféricas que faz o estrondo sônico se refratar para cima, dissipando-se na atmosfera antes de atingir o solo. A FAA citou como referência a demonstração de "cruzeiro sem estrondo" realizada pela Boom Supersonic, fabricante americana que desenvolve o avião Overture, e pesquisas conduzidas pela Nasa. Em janeiro de 2025, o demonstrador XB-1 da companhia rompeu a barreira do som três vezes sem que o estrondo chegasse ao chão. — O mundo quer viajar de forma supersônica — afirmou Blake Scholl, fundador e presidente-executivo da Boom Supersonic, ao comemorar o avanço regulatório obtido junto à Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO) em fevereiro deste ano, quando o órgão fechou um novo padrão internacional de ruído para decolagem e pouso de aeronaves supersônicas. Modelo acústico de voo supersônico silencioso — Foto: Universidade Estadual da Pensilvânia/Boom Para o diretor de Ciência e Tecnologia da Casa Branca, Michael Kratsios, a flexibilização regulatória tem um componente geopolítico. — Por muito tempo, regras ultrapassadas seguraram nossos engenheiros e fabricantes — disse Kratsios, ao defender que a medida fortalece a base industrial americana e garante que o futuro da aviação supersônica seja desenvolvido nos Estados Unidos. Já o administrador da FAA, Bryan Bedford, associou a mudança diretamente ao fim do veto histórico: — Isso significa que poderemos finalmente revogar a proibição dos anos 1970 sobre o voo supersônico em território americano, minimizando o impacto sonoro para comunidades ao longo das rotas e perto dos aeroportos. O fantasma do Concorde A última operação comercial supersônica regular do mundo aconteceu há quase 23 anos, um voo da British Airways entre Nova York e Londres, em 24 de outubro de 2003. O Concorde, projeto conjunto entre França e Reino Unido, chegava a Mach 2,04 (cerca de 2.500 km/h) voando a 18 mil metros de altitude, mas operava com prejuízo crônico. TAP terá voos para Curitiba e São Luís: 'Brasil é peça-chave', diz CEO Entre as razões para a aposentadoria da aeronave estão a baixa capacidade de passageiros, limitada a pouco mais de cem lugares, o alto consumo de querosene agravado pela crise do petróleo dos anos 1970, e os custos elevados de manutenção. O acidente do voo 4590 da Air France, em julho de 2000, costuma ser apontado como o gatilho do fim, mas analistas do setor consideram que ele apenas acelerou um declínio já desenhado pela equação econômica desfavorável. Publicidade da Air France para a rota do Concorde Paris-Rio — Foto: Reprodução/TravelUpdate Nenhuma companhia americana chegou a operar o Concorde em rotas comerciais regulares. A exceção foi a Braniff International, que voava o jato em trechos domésticos entre Dallas/Fort Worth e Washington, sempre em velocidade subsônica, justamente por causa da legislação de 1973. Viagens supersônicas vão decolar? Nesta nova era, a Boom Supersonic é a empresa com projeto mais desenvolvido. Diferente das companhias tradicionais, que focam em aumentar o conforto das longas viagens internacionais, a verdadeira prioridade da Boom Supersonic é a velocidade. Embora, num primeiro momento, o preço das passagens deva se equiparar às tarifas da classe executiva atual, a meta de longo prazo é democratizar o acesso às viagens supersônicas. A Boom já fechou pedidos com American Airlines, United Airlines e Japan Airlines para o Overture, que deve transportar entre 65 e 80 passageiros a 2.100 km/h sobre a água e a velocidades subsônicas sobre terra, até que a nova regra entre em vigor. A empresa projeta início de operações comerciais a partir de 2029. — Aviões não são navios de cruzeiro, ninguém embarca em um voo comercial porque adora estar em um avião. Quero que as pessoas possam chegar a qualquer lugar do mundo em cinco horas, por US$ 100. Vejo um futuro supersônico, mas para chegar lá será fundamental melhorar a eficiência do combustível e assim as viagens aéreas supersônicas, passo a passo, estarão disponíveis para todos — defendeu Blake Scholl, fundador e CEO da Boom. A proposta da FAA resolve apenas parte da equação que derrubou o Concorde. A tecnologia de Mach cutoff ataca o problema do ruído, mas não elimina os desafios que tornaram a operação supersônica deficitária no passado. Com o consumo de combustível mais alto, capacidade reduzida de passageiros e custo elevado por assento, o projeto ainda não tem vida longa garantida. O modelo de negócio da Boom Supersonic aposta em reverter essa lógica com motores mais eficientes, uso de combustível sustentável de aviação e um público inicial disposto a pagar tarifas mais altas. A meta de Scholl para voos supersônicos a US$ 100, mas o cronograma regulatório e comercial segue em andamento. A data para publicação das regras finais para operação dos supersônicos é em 2027, com os primeiros passageiros pagantes voando em 2029, segundo a fabricante.
Sem o estrondo do Concorde: EUA dão o primeiro passo para reviver os voos supersônicos
A última operação comercial supersônica regular do mundo aconteceu há quase 23 anos, um voo da British Airways entre Nova York e Londres, em 24 de outubro de 2003











