No primeiro ano do novo mandato, valores obtidos pelo republicano somam mais que o dobro dos US$ 622 milhões faturados em 2024; parte dos negócios envolve países estratégicos para a política externa 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O presidente dos EUA, Donald Trump, durante o encontro do G7 na França — Foto: Mandel Ngan/AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 01/07/2026 - 11:04 Trump Fatura US$ 2,2 Bi em 2025: Críticas à Interseção Negócios-Política Donald Trump faturou US$ 2,2 bilhões em 2025, mais que o dobro do ano anterior, gerando questionamentos sobre conflito de interesses entre suas atividades empresariais e seu papel político. Grande parte do lucro veio de criptomoedas, com destaque para a World Liberty Financial. A venda de 49% da empresa para investidores dos Emirados Árabes Unidos destaca a interseção entre negócios e política externa. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O presidente dos EUA, Donald Trump, faturou ao menos US$ 2,2 bilhões (R$ 11,4 bilhões no câmbio atual) no primeiro ano de seu segundo mandato na Casa Branca, segundo uma declaração financeira relativa a 2025 divulgada na terça-feira, que registrou um aumento vertiginoso nos ganhos do republicano após o retorno à Presidência. A declaração também indica um aparente conflito de interesse entre as atividades empresariais e o papel político de Trump, enquanto ele é responsável por formular políticas públicas para regular setores econômicos em que figura como parte interessada. O relatório obrigatório de divulgação financeira revela que a maior fatia do faturamento obtido por Trump veio dos negócios de sua família com criptomoedas, que renderam cerca de US$ 1,4 bilhão (R$ 7,27 bilhões). Um dos maiores ganhos foi proveniente da venda de quase metade da principal empresa de criptomoedas da família, a World Liberty Financial, a uma empresa de investimentos ligada aos Emirados Árabes Unidos — em uma transação que força a linha tênue entre política externa americana e interesses privados. Em janeiro de 2025, poucos dias antes da posse presidencial, uma empresa de investimentos ligada ao governo emiradense adquiriu uma participação de 49% na World Liberty. Pouco depois, os Emirados fecharam um acordo com o governo Trump — apesar das objeções de alguns integrantes da área de segurança nacional — para a exportação de valiosos chips de computador utilizados em inteligência artificial. A declaração divulgada na terça-feira não faz referência explícita a esse acordo, mas menciona investimentos não identificados que geraram mais de US$ 200 milhões (R$ 1,04 bilhão) para Trump. O negócio não foi o único a opor as duas frentes. A Organização Trump, empresa da família, também tem capitalizado a popularidade do presidente em determinadas regiões do mundo. A marca Trump foi licenciada para empreendimentos em países estratégicos para os interesses da política externa dos EUA, incluindo Arábia Saudita e Catar. Os dois contratos geraram mais de US$ 14 milhões (R$ 72,7 milhões) para Trump no ano passado, segundo a declaração. Ao todo, projetos no Oriente Médio geraram pelo menos US$ 35 milhões (R$ 181,7 milhões), enquanto empreendimentos no Vietnã e na Romênia, além de contratos mais antigos na Índia, Turquia e Indonésia, renderam pelo menos mais US$ 20 milhões (R$ 103,8 milhões). Trump e Sheikh Mohamed bin Zayed Al Nahyan, líder dos Emirados Árabes unidos, em Abu Dhabi, em 2025 — Foto: Doug Mills/The New York Times O presidente americano afirmou no passado ser isento das leis federais sobre conflitos de interesse. A Casa Branca não respondeu a pedidos do New York Times por um comentário a respeito do tema. Em uma declaração recente, em maio, a porta-voz presidencial Anna Kelly declarou que Trump "age apenas no melhor interesse do povo americano" e que "não há conflitos de interesse". A declaração financeira não oferece com clareza detalhes sobre o patrimônio líquido do presidente, grande parte do qual depende de estimativas de valor de imóveis e das oscilações no valor de mercado de ativos, e nem informa se todas as suas empresas tiveram lucro ou prejuízo. Porém, comparado ao ano anterior, o valor faturado é muito superior aos US$ 622 milhões (R$ 3,2 bilhões) arrecadados em 2024. Ao final do ano passado, segundo o relatório, Trump possuía ativos financeiros de investimento avaliados em pelo menos US$ 857 milhões (R$ 4,4 bilhões), em comparação ao valor declarado de US$ 236 milhões (R$ 1,2 bilhão) no ano anterior. Criptomoedas A narrativa oficial da Casa Branca fica sob suspeita, porém, em um momento em que Trump é, ao mesmo tempo, um dos principais empresários do setor de criptomoedas e o principal formulador de políticas públicas para essa indústria. Nesta quarta-feira, ele desconversou ao ser perguntado sobre potenciais conflitos de interesses entre a Presidência e seus negócios particulares. — Eu, propositalmente, nunca falo com nenhuma das pessoas que administram o dinheiro — disse a jornalistas. — Sabe por que estou lucrando? Porque o mercado de ações está subindo. O relatório financeiro demonstrou que os empreendimentos em criptomoedas estão agora entre os negócios mais lucrativos do presidente — uma reviravolta notável para alguém que já classificou as criptomoedas como um refúgio para traficantes de drogas e golpistas. Trump abraçou a indústria durante a campanha presidencial de 2024 e lançou uma série de empreendimentos que renderam somas gigantescas. Ao lado dos três filhos, ajudou a criar a World Liberty, empresa de criptomoedas que comercializa uma moeda digital chamada $WLFI. No ano passado, a World Liberty vendeu seu token para investidores de todo o mundo, destinando 75% de cada venda a uma empresa ligada a Trump, após o desconto de determinadas despesas, garantindo que o presidente lucrasse mesmo que o valor do token caísse. Segundo a declaração financeira, Trump recebeu cerca de US$ 500 milhões com essas vendas em 2025, em comparação com US$ 57 milhões em 2024. Outro negócio lucrativo no setor foi a negociação da memecoin — moeda digital de caráter especulativo — chamada $TRUMP. Lançado poucos dias antes da posse, o criptoativo arrecadou mais de US$ 600 milhões (R$ 3,1 bilhão) em vendas, segundo a declaração. O preço da moeda disparou inicialmente, mas depois despencou, sendo negociado recentemente em torno de US$ 1,67 (R$ 8,67) — queda de aproximadamente 80% em relação ao valor registrado um ano antes. Além dos negócios com países estrangeiros, medidas tomadas por Trump no controle da Casa Branca parecem contribuir com os objetivos empresariais. Em outubro, o presidente concedeu perdão ao homem mais rico do setor de criptomoedas e fundador da Binance, empresa que se tornou uma parceira estratégica dos negócios, Changpeng Zhao. O negócio da memecoin se beneficiou diretamente de uma declaração da Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC), emitida em fevereiro de 2025, informando ao setor que esse tipo de token deixaria de estar sujeito à supervisão da agência, revertendo a posição adotada pelo presidente da SEC durante o governo Biden. O presidente também sancionou uma legislação em julho passado para promover um tipo de criptomoeda conhecido como stablecoin — criptomoedas projetadas para manter um valor estável —, quatro meses depois de a empresa apoiada por sua família lançar seu próprio criptoativo do gênero.