Incertezas quanto aos cenários econômico e político domésticos, contudo, podem afetar o ritmo de negócios nos próximos meses, com impacto na confiança Alto endividamento das famílias, com menor espaço para consumo, continua a preocupar empresariado — Foto: Pixabay O Índice de Confiança Empresarial (ICE) subiu 1,1 ponto em junho, para 92,7 pontos, informou, nesta quarta-feira (1º), a Fundação Getulio Vargas (FGV). Além de o indicador atingir o mais elevado nível desde maio do ano passado (96,2 pontos), foi o maior avanço desde janeiro (1,2 ponto), impulsionado por menor temor com impactos do conflito no Oriente Médio, explicou Aloisio Campelo Jr., pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da fundação (FGV Ibre). Entretanto, ponderou Campelo, a elevação em junho não pode ser interpretada como sinal de tendência de crescimento sustentável na confiança. Isso porque ainda há outros fatores de incerteza nos cenários econômico e político que podem afetar o ritmo de negócios nos próximos meses, disse. Ao detalhar a evolução do indicador em junho, Campelo contou que a expansão foi motivada tanto por saldos positivos nas respostas sobre momento atual, quanto nas expectativas. O Índice de Situação Atual (ISA), um dos dois componentes do ICE, subiu 1,1 ponto em junho, para 94,4 pontos. Já o Índice de Expectativas (IE) avançou 1,2 ponto, para 91,1 pontos. “O que aconteceu é que [a guerra entre Irã e Estados Unidos] não foi tão ruim quanto (os empresários sondados) estavam achando que seria”, disse. “O nível de atividade econômica não foi muito alterado pela guerra e pelos últimos acontecimentos no mercado. Parece ser mais um movimento de retorno à normalidade”, resumiu. O técnico lembrou que, no começo da guerra, em fevereiro, se projetava até mesmo uma desorganização global na cadeia de insumos, o que não ocorreu. “Quase não teve impacto [a guerra] na cadeia de suprimentos [no Brasil]”, comentou. Porém, no entendimento do especialista, não é como se a confiança do empresário tivesse melhorado muito, mas, sim, como um “retorno” ao quadro registrado em fevereiro, antes do conflito se iniciar, disse. Ou seja: mesmo com melhora de perspectiva no cenário externo, em junho, o empresário continua com as mesmas questões no mercado doméstico afetando o ritmo de demanda. Uma delas é a continuidade do patamar elevado de juros, citou o pesquisador. Além de deixar compras a prazo mais caras, também torna mais custosos os empréstimos para o empresariado. Outro ponto a ser lembrado, segundo Campelo, é a permanência de endividamento elevado das famílias, com menor espaço para consumo, o que inibe a demanda. “E nós temos esse quadro em que a redução gradual dos juros passou a ser feita a conta-gotas, porque nós tivemos um ‘repique inflacionário’”, acrescentou. Questionado sobre se o ICE vai continuar a subir nos próximos meses, Campelo comentou que, em sua análise, é muito mais provável que o empresário opere com cautela. O economista lembrou ainda que, além dos fatores e ordem econômica, não se pode esquecer que o segundo semestre contará com eleições, o que sempre acrescenta incertezas em relação à demanda. Para ele, a capacidade de um aumento contínuo do ICE depende da estabilização dos cenários externo e doméstico, que ainda apresentam muita turbulência. “Não é uma impossibilidade subir [o ICE]. Mas creio que não se apresenta, hoje, um quadro em que, com certeza, se preveja rota certa de crescimento”, finalizou.