Com frequência, eu sento na frente de alguém que já decidiu pedir demissão. Quando pergunto para onde a pessoa quer ir, muitas vezes ela não descreve um destino, mas a empresa atual com os defeitos corrigidos. Algo como um lugar em que o gestor finalmente escuta ou um lugar onde existe o espaço para crescer que hoje ela não tem.PUBLICIDADEEu fico ouvindo e penso quase sempre a mesma coisa. Isso não é destino. É o lugar de onde ela está saindo, com os erros apagados.Quando alguém me diz que quer sair do emprego, eu costumo devolver uma pergunta. Você está fugindo de algo ou indo buscar algo? Na maior parte das vezes é fuga, e tem um detalhe que deixa claro: quem foge descreve bem aquilo de que está fugindo, e quase nada sobre onde quer chegar. A cabeça, quando quem assume o comando é a ameaça, vira um alarme: serve para tirar você do incêndio, mas não ajuda a escolher onde morar depois.Leia outras colunas de Ricardo BasagliaO pseudo-ocupado é o novo lento do mercado corporativoSenioridade não cura imaturidade no trabalhoBrooks Holtom estudou mais de mil desligamentos voluntários e mostrou que muita gente não sai depois de uma longa conclusão racional. Sai depois de um choque: uma reunião ruim, uma promoção negada, uma frase atravessada do gestor. Ninguém pesa tudo com calma para chegar a uma conclusão, e sim leva um baque e decide no calor da emoção.PublicidadeSaber se é fuga ou busca pode parecer o que resolve tudo, mas não resolve. Quem acabou de levar um baque, na maior parte das vezes, decide mal, qualquer que seja a resposta. O que essa pergunta faz é outra coisa: obriga a pessoa a parar um segundo antes de decidir. E esse segundo de freio, às vezes, é o ponto mais valioso da conversa.Dentro dele cabe um diagnóstico que muita gente não faz. Nem todo incômodo pede o mesmo tamanho de ruptura. Às vezes o problema é uma pessoa. Às vezes é a função. Às vezes é a empresa inteira. Às vezes é a carreira. O erro é tomar uma decisão desproporcional ao problema.Às vezes, um pedido de demissão poderia ser resolvido com uma conversa franca com o gestor, com uma mudança de mesa ou mudança de equipe Foto: Envato O conserto certo é o que cabe no tamanho do estrago. Quando o que incomoda é uma pessoa, às vezes trocar de time resolve, e custa menos. Recomeçar uma carreira do zero é o extremo oposto, o conserto mais pesado que existe, e só se justifica quando o problema é a própria profissão. Entre um ponto e outro estão mudar de estrutura e trocar de empresa. O que eu mais vejo é gente indo direto para o extremo antes de testar o mais simples: pede demissão quando bastava trocar de mesa. Repara onde você está parado agora. O problema é uma pessoa, a função, a empresa ou a carreira inteira? A resposta honesta pode ser menor do que a vontade de sair faz parecer.E o que eu vejo é que, muitas vezes, quem consegue uma mudança interna encontra ali o que ia buscar fora: novidade, aprendizado, espaço, algum senso de futuro. Mas poucas pessoas tentam porque pedir demissão parece mais fácil do que negociar uma mudança dentro da empresa.PublicidadeE aqui chego no ponto incômodo: boa parte das pessoas que me dizem que precisam sair, na verdade, precisam ter uma conversa difícil que vêm evitando há meses. O pedido de demissão é a forma de não ter essa conversa. É mais fácil pedir demissão do que sentar com o gestor e dizer, com todas as letras, o que não está funcionando. Às vezes a pessoa chama de decisão de carreira aquilo que, no fundo, era medo de uma conversa de dez minutos.CONTiNUA APÓS PUBLICIDADEFaço questão de uma ressalva, porque sem ela isso vira papo motivacional. A conversa só constrói quando do outro lado tem quem escute. Tem ambiente em que falar para cima é punido, em que quem aponta o problema vira o problema. Aí, sim, sair é mais sensato do que insistir. Não quero transformar a conversa difícil em heroísmo de palco. Só quero que você repare quando está fugindo dela e chamando isso de estratégia.Nada disso vale como sermão para quem está num ambiente que adoece. Existe fuga que é sobrevivência, e aí exigir um destino claro antes de sair é um risco grande: você sai porque o lugar é ruim o suficiente, e o destino se acha depois, em segurança. O resto pode ser mais simples do que parece na hora da raiva. Na maioria das vezes em que alguém me diz que precisa sair, existe conserto sem demissão. Fuga quase nunca tem endereço. Tem pressa. E, exceto quando o assunto é sobrevivência, a pressa é a pior conselheira para a sua carreira.