Diante do risco de apagões digitais e ataques cibernéticos, empresas pulverizam dados entre múltiplos fornecedores para evitar o efeito cascata e garantir a continuidade dos negócios Luís Liguori, líder de arquitetura de soluções da AWS no Brasil. — Foto: divulgação Até 2029, a Gartner projeta que mais de 50% das companhias terão plataformas de nuvem específicas para cada setor. A tendência para os próximos anos é a adoção de estratégias híbridas e multicloud, com aplicações e dados distribuídos entre diferentes ambientes tecnológicos. O modelo ajuda a escalar iniciativas digitais e reduz o risco de interrupção. Desde 2023, a consultoria alerta para a necessidade de pulverizar riscos, já que falhas operacionais ou ataques cibernéticos em um único fornecedor podem gerar um efeito cascata capaz de paralisar simultaneamente serviços financeiros, logísticos e de e-commerce. “Durante muitos anos, a discussão girou em torno da confiabilidade dos provedores. Hoje, o debate é outro: mesmo os provedores mais resilientes podem falhar. E, quando isso acontece, o impacto se estende significativamente”, afirma Fernando Dulinski, CEO do Cyber Economy Brasil. O cenário vem exigindo mais flexibilidade e colaboração das empresas de TI. Na visão de Eduardo Campos, vice-presidente de soluções tecnológicas da Microsoft Brasil, essa diversidade deixou de ser apenas uma escolha de infraestrutura e se tornou a base de uma nova etapa da transformação digital, em que dados, aplicações, segurança e agentes de IA precisam atuar de forma integrada e governada. Essa nova lógica já orienta as decisões tecnológicas de muitas organizações. Na Rumo, voltada à infraestrutura ferroviária, trata-se de uma discussão permanente. “Não podemos assumir que um fornecedor, por maior e mais confiável que seja, está imune a falhas. E, em uma atividade como a nossa, a disponibilidade não é opcional”, afirma Marco Aurélio Andriola, diretor de tecnologia ferroviária da companhia. Diante disso, a prioridade é reduzir dependências e garantir resposta rápida a cenários adversos. O modelo utilizado é multicloud, de acordo com a criticidade das aplicações. Cada ambiente é avaliado pelo Comitê de Arquitetura Corporativa para definir o método mais adequado, considerando os reflexos que uma eventual queda poderia gerar. Para atender a essa demanda, os grandes fornecedores têm investido em maior interoperabilidade. O foco da Microsoft, segundo Campos, é oferecer uma plataforma aberta e confiável, capaz de conectar ambientes, dados, aplicações, identidade e segurança, permitindo aplicar políticas de forma centralizada e manter a governança independentemente de onde as cargas estejam. Na AWS, o cliente também está no centro. “A conversa não gira em torno do produto e, sim, da necessidade ou problema da empresa. Não existe barreira contratual ou técnica”, afirma Luís Liguori, líder de arquitetura de soluções da AWS no Brasil. Ele cita uma ferramenta de conectividade entre clouds que possui parceria com outros fornecedores para serviços multicloud. Ao mesmo tempo, a AWS mantém, no mínimo, três zonas de disponibilidade em 39 regiões pelo mundo. Cada uma reúne dezenas de data centers separados por cerca de 100 quilômetros, permitindo que os sistemas permaneçam on-line mesmo se um data center inteiro falhar. “As empresas vivem em um mundo multicloud e com vários fornecedores. Por isso nossa cloud é aberta por design”, afirma Marcelo Zillo, líder de segurança do Google Cloud Latam. Para garantir a continuidade de aplicações críticas, a companhia adota uma arquitetura dividida em regiões e zonas globais, possibilitando a recuperação imediata em caso de falha local. O modelo é apoiado por acordos de nível de serviço (SLAs) que garantem 99,99% de disponibilidade e por uma rede privada global de fibra óptica, que desvia do tráfego congestionado da internet pública. Zillo acrescenta que o funcionamento está diretamente ligado à resiliência contra ameaças cibernéticas. A proteção dos dados ganhou protagonismo nesse cenário. Um dos métodos mais relevantes atualmente é o gerenciamento independente de chaves criptográficas, segundo Dulinski. Nesse modelo, os dados podem permanecer armazenados na nuvem, mas as chaves que permitem sua leitura ficam sob controle exclusivo da organização. Novas tecnologias também começam a ganhar espaço nesse contexto. Agentes de IA já são utilizados pela AWS para identificar comportamentos anômalos e detectar riscos de forma antecipada. Além disso, a empresa vem trabalhando em soluções de criptografia pós-quântica, voltadas à proteção de informações em um cenário futuro em que a computação quântica seja capaz de quebrar os métodos atuais de criptografia. Na EcoRodovias, companhia de infraestrutura que opera concessões rodoviárias, a abordagem vai além da distribuição das cargas de trabalho entre provedores distintos. Parte dos sistemas essenciais funciona de forma independente. “A nuvem nos dá escala, eficiência e capacidade analítica, mas se houver uma falha no sistema, o funcionamento local não é interrompido. Nossa inteligência precisa estar na borda da rede, diretamente na rodovia”, explica Afranio Spolador, diretor de tecnologia da empresa. Segundo ele, uma falha pode afetar diretamente a mobilidade em eixos logísticos do país, a segurança viária e a receita do negócio. Por isso, os sistemas mais sensíveis contam com mecanismos de contingência que mantêm as funções essenciais ativas nessas situações. A arrecadação de pedágio, o monitoramento de tráfego e o atendimento a emergências possuem níveis de redundância compatíveis com sua criticidade.