Carlos Júnior foi selecionado para residência artística na Universidade de Salamanca e leva à Europa exposição construída ao longo de 25 anos sobre cultura afro-brasileira, identidade e permanências 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Aqueduto do século XVIII da Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá — Foto: Divulgação/Carlos Júnior RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 29/06/2026 - 19:14 Fotojornalista Carioca Leva Cultura Afro-brasileira à Espanha Carlos Júnior, fotojornalista carioca de 58 anos, leva à Espanha sua exposição "Orixá: um sopro de vida", fruto de 25 anos de registro da cultura afro-brasileira. Criado na Taquara, Zona Sudoeste do Rio, ele captura a essência da região e sua transformação. Selecionado para uma residência artística na Universidade de Salamanca, Júnior documenta memórias e combate a intolerância religiosa com suas imagens em preto e branco. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Nascido e criado na Zona Sudoeste do Rio de Janeiro, o fotojornalista e documentarista Carlos Alberto da Silva Júnior, de 58 anos, carrega o território não apenas como endereço, mas como matéria-prima do próprio olhar. Morador da Taquara, em Jacarepaguá, por quase toda a vida, ele enxerga a região como um espaço de contrastes, entre áreas urbanizadas e natureza preservada, tradição popular e transformação constante da cidade. Entre o Maciço da Pedra Branca, a história da Colônia Juliano Moreira, os blocos de bate-bola e as paisagens que se espalham até o litoral da Zona Sudoeste, Silva aprendeu cedo que o Rio também existe longe dos cartões-postais mais conhecidos. Ao longo da carreira, transformou esse entendimento em método: observar o que resiste, permanece e continua produzindo memória mesmo fora dos grandes centros de atenção. Foi dessa forma que construiu uma trajetória voltada ao registro de lugares, culturas e histórias frequentemente deixados à margem. — Eu sou cria daqui. Minha raiz é daqui. A Zona Sudoeste tem uma riqueza muito grande. Você tem montanha, história, carnaval popular, cultura. Isso influenciou bastante o meu olhar — afirma. A fotografia entrou na vida de Silva em 1994, quando ele tinha 26 anos. Até então, seguia um caminho distante das fotos. Formado em Mecânica Industrial e trabalhando como técnico em mecânica de precisão, vivia uma rotina marcada pela previsibilidade. Mas o interesse crescente pela fotografia começou a mudar seus planos. A partir da observação de fotógrafos em atuação pelas ruas do Centro do Rio, ele começou a imaginar outro futuro possível. — Eu via os fotógrafos do jornal trabalhando e pensava, “É isso que eu quero”. Um dia falei para a minha mãe que ia abandonar o trabalho e entrar na fotografia. Ela falou que eu estava largando uma área certa para entrar em uma coisa sem saber se ia dar certo. E eu falei, “É isso que eu quero” — conta. Rua do bairro Vila Valqueire em época de Copa do Mundo — Foto: Divulgação/Carlos Júnior A decisão abriu caminho para um período de formação intensa. Silva comprou uma câmera usada, estudou fotografia no Senac e na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, na Zona Sul, e conseguiu o primeiro estágio. Depois vieram experiências em redações, revistas e agências, incluindo uma passagem pela revista Manchete. Foi também nesse período que atravessou uma transformação na profissão: a passagem do analógico para o digital. Enquanto muitos profissionais temiam o impacto das novas tecnologias, Silva optou pela adaptação. — Eu peguei a era do negativo, revelava filme, montei laboratório em preto e branco. Depois veio o digital e tivemos que aprender tudo de novo. Quem não procura novos espaços acaba ficando para trás — diz. Mais de três décadas depois dos primeiros cliques, o fotógrafo chega a um momento de reconhecimento internacional. Carlos Júnior, como assina seus trabalhos, foi um dos cinco profissionais brasileiros selecionados entre mais de 70 propostas para participar de uma residência artística na Universidade de Salamanca, na Espanha. Em novembro deste ano ele apresentará ao público europeu a exposição “Orixá: um sopro de vida”. A mostra reúne cerca de 30 imagens e sintetiza um trabalho iniciado há 25 anos. Manifestação religiosa em terreiro de Candomblé na Taquara — Foto: Divulgação/Carlos Júnior No início dos anos 2000, contratado para registrar cerimônias religiosas, Silva passou a guardar os arquivos produzidos e transformou aquele acervo em uma pesquisa documental própria. Ao longo do tempo, percorreu terreiros de candomblé em diferentes regiões do estado registrando rituais, espiritualidade e espaços de preservação cultural ligados às nações Ketu, Angola, Jeje e Efon. O projeto nasceu da fotografia, mas cresceu como reflexão sobre memória e intolerância religiosa. — Eu comecei a guardar essas imagens pensando que elas serviriam para o futuro. Quando comecei a pesquisar mais, percebi que existia muito preconceito e intolerância relacionados às religiões afro-brasileiras. Eu quis mostrar outro olhar, mostrar a cultura, o legado histórico e a beleza que existem ali — afirma o fotógrafo. Ao contrário da diversidade de cores tradicionalmente associada aos terreiros, ele escolheu trabalhar em preto e branco. A decisão foi estética, mas também narrativa. Segundo Silva, retirar as cores ajuda a direcionar o olhar para os gestos, expressões e símbolos presentes em cada imagem. Em paralelo à preparação para Salamanca, outro projeto ocupa sua rotina de trabalho. Previsto para estrear em setembro, o documentário “Seis escudos”, codirigido por ele ao lado do jornalista britânico Robbie Blakeley, acompanha a trajetória de seis clubes tradicionais do Rio que seguem existindo fora dos grandes holofotes do futebol: Bangu, América, Campo Grande, Madureira, Olaria e São Cristóvão. Mais do que um filme sobre esporte, o projeto fala sobre permanência, tema que parece atravessar toda a produção do fotógrafo. Ao olhar para a própria trajetória, Silva evita definições grandiosas, prefere falar em continuidade. — Você nunca sabe tudo da fotografia. Sempre aparece uma luz diferente, um olhar diferente. Eu olho meus trabalhos de agora e vejo o quanto aprendi. A fotografia é como uma criança crescendo e em constante aprendizado — finaliza o fotojornalista.
Da Taquara para a Espanha: fotógrafo do Rio transforma periferia, memória e religiosidade em obra internacional
Carlos Júnior foi selecionado para residência artística na Universidade de Salamanca e leva à Europa exposição construída ao longo de 25 anos sobre cultura afro-brasileira, identidade e permanências






