Iniciativas do Jacarezinho e da Mangueira, relacionadas a problemas como enchentes e acúmulo de lixo, recebem reconhecimento 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Moradoras do Acari, uma das comunidades pesquisadas pelo projeto Retrato das Enchentes, que investiga os impactos dos alagamentos na rotina das famílias — Foto: Divulgação/Pedro Prado RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 12/06/2026 - 18:32 Projetos das Favelas Cariocas Ganha Destaque Internacional em Sustentabilidade Projetos nascidos em favelas cariocas, como Jacarezinho e Mangueira, estão ganhando reconhecimento internacional por suas soluções para problemas estruturais. O Retrato das Enchentes, do Instituto Decodifica, foca em coleta de dados cidadã sobre impactos de enchentes, enquanto Omìayê e Ambiente Circular, do Instituto Singular, transformam resíduos em produtos sustentáveis. Essas iniciativas destacam a capacidade das comunidades de inovar e responder à crise climática. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Na Zona Norte, onde diferentes áreas convivem com alagamentos recorrentes, infraestrutura desigual e desafios ambientais cotidianos, duas iniciativas nascidas em favelas da região vêm ganhando projeção internacional ao transformar problemas estruturais em conhecimento, tecnologia social e soluções ambientais. No mês do meio ambiente, projetos que têm origem no Jacarezinho e atuação na Mangueira mostram como a Zona Norte também é lugar de produção de dados, inovação e respostas concretas à crise climática. O projeto Retrato das Enchentes, do Instituto Decodifica, recebeu no mês passado o Macquarie Community Resilience Prize, oferecido pelo Macquarie Group e pelo MIT Solve, além do Prêmio Josué de Castro de Impacto Social, concedido pelo Brasil Forum UK. No ano anterior, a iniciativa também foi finalista e vencedora da votação popular do Prêmio Periferia Viva, iniciativa do Ministério das Cidades. Já os projetos Omìayê e Ambiente Circular, do Instituto Singular Ideias Inovadoras, foram contemplados com o Excellence Award in Education & Environmental Sustainability 2026 Brazil, que foi concedido pelo Non-Profit Organisation Awards 2026. Sabões e detergentes produzidos pelo projeto Omìayê são resultado da reciclagem de óleo de cozinha coletado na Mangueira — Foto: Divulgação Embora atuem em áreas diferentes, as iniciativas têm um ponto em comum: nasceram em territórios da Zona Norte historicamente afetados por desigualdades urbanas. O reconhecimento internacional recebido pelo Retrato das Enchentes tem origem em uma metodologia construída a partir da experiência do Instituto Decodifica no Jacarezinho. A trajetória da organização começou em 2020, durante os primeiros meses da pandemia de Covid-19, quando ainda atuava como LabJaca. Onde trocar figurinhas do álbum da Copa?: Veja opções no Rio e em Niterói Naquele momento, o objetivo não era produzir pesquisas. A equipe se mobilizou para ações emergenciais de comunicação comunitária, distribuição de cestas básicas e entrega de kits de higiene às famílias da favela. Durante esse processo, porém, os integrantes começaram a coletar informações junto aos moradores e identificaram uma discrepância entre os dados oficiais sobre casos suspeitos de Covid-19 e a realidade observada no local. Richelle (à esquerda) e colegas da Ecofábrica Omìayê trabalham na fabricação de produtos ecológicos na Mangueira — Foto: Divulgação A constatação revelou a necessidade de produzir informações a partir das próprias comunidades, dando visibilidade a realidades que frequentemente não apareciam nas estatísticas oficiais. O que começou como uma resposta à emergência sanitária evoluiu para uma metodologia de geração cidadã de dados, aplicada posteriormente em pesquisas sobre segurança pública, raça e gênero, infraestrutura urbana, acesso a serviços básicos e mudanças climáticas. Em 2023, o LabJaca passou por um reposicionamento institucional e se transformou no Instituto Decodifica. A mudança refletiu a expansão da atuação para diferentes pontos do Brasil, mas sem romper os vínculos com o Jacarezinho, onde a metodologia foi construída. Hoje, a favela continua sendo uma referência para a identidade da organização. Foi ali que surgiram as primeiras experiências de produção comunitária de dados que orientam o trabalho desenvolvido atualmente em comunidades da Zona Norte, da Baixada Fluminense e de outros estados do país. A atuação ocorre por meio de parcerias com organizações locais, como o coletivo Fala Akari, em Acari. Moradores de Acari participam de levantamento do projeto Retrato das Enchentes, que investiga os impactos dos alagamentos na rotina das famílias — Foto: Divulgação Foi dessa experiência acumulada que nasceu o projeto Retrato das Enchentes. A pesquisa utiliza a metodologia da Geração Cidadã de Dados para mapear os impactos das chuvas em territórios vulnerabilizados, colocando os moradores como protagonistas na produção de conhecimento sobre a própria realidade. — A geração cidadã de dados é fundamental para legitimar a periferia enquanto sujeito na produção de conhecimento e na participação cívica — destaca Thiago Nascimento, cofundador do instituto. O levantamento já ouviu 718 famílias em favelas do Rio de Janeiro e de outros estados. Os resultados mostram que 70,5% dos entrevistados afirmam que suas ruas alagam com frequência. Outros 55% relatam prejuízos ao sono e à concentração devido às enchentes. Quase metade aponta sintomas físicos após episódios de chuva e 32,3% informaram diagnósticos médicos associados às enchentes, como dengue, doenças de pele e leptospirose. Em Acari, na Zona Norte, a pesquisa identificou perdas materiais recorrentes, danos estruturais em residências e interrupções de serviços essenciais durante os períodos de chuva intensa. “A gente perdeu muita coisa. Não tem como recuperar. E se tiver como recuperar, a gente não pode, porque tem medo de perder tudo de novo”, relata um morador de Acari em depoimento coletado pelo projeto. Além dos prejuízos materiais, o estudo aponta efeitos emocionais persistentes, como a chamada ansiedade climática, caracterizada pelo medo constante de novos episódios de enchentes. Para Mariana de Paula, cofundadora e diretora-executiva do Decodifica, um dos pontos fortes da pesquisa é justamente tornar visíveis impactos que costumam ficar fora dos levantamentos tradicionais. — Acreditamos que o diferencial está na combinação entre inovação metodológica, participação comunitária e impacto social. O projeto cria um ecossistema de monitoramento cidadão, em que moradores ajudam a definir indicadores, realizam a pesquisa e participam da incidência política. Isso nos permite identificar dimensões pouco mensuradas em estudos convencionais, como os impactos na saúde mental, a ansiedade climática e os efeitos sociais prolongados das enchentes — afirma. Enquanto o Decodifica atua na produção de conhecimento sobre os impactos ambientais, na Mangueira a transformação acontece por meio do reaproveitamento de resíduos e de soluções comunitárias para o saneamento. O projeto Omìayê transforma óleo de cozinha usado em produtos de limpeza ecológicos produzidos por mulheres da comunidade em uma ecofábrica local. Já o Ambiente Circular promove ações de educação ambiental e gestão de resíduos junto a escolas, comércios e instituições, incentivando a separação correta dos materiais, a compostagem e a reciclagem. — O Omìayê propõe um novo olhar sobre o saneamento em territórios vulnerabilizados, demonstrando que soluções descentralizadas também podem gerar transformação ambiental em larga escala — afirma Bruno Pierri, coordenador do projeto. Os resultados já alcançados mostram o impacto da iniciativa. Mais de 7.074,5 litros de óleo de cozinha foram reaproveitados, evitando a contaminação de mais de 170 milhões de litros de água. O projeto também produziu mais de 117 mil litros de bioinsumos biorremediadores e cerca de 8,2 toneladas de ecosabão, beneficiando aproximadamente três mil famílias. Menos de um mês após obra, trecho de rua em área nobre de Jacarepaguá volta a afundar; moradores pedem reparo definitivo para problema de uma década Auxiliar de produção da Ecofábrica Omìayê, Richelle Miranda da Costa, de 19 anos, afirma que a iniciativa mudou sua trajetória profissional e ampliou os benefícios para toda a comunidade: — Passei a fazer parte da Ecofábrica Omìayê motivada pela oportunidade de aprender e construir um futuro melhor. Desde então, adquiri novos conhecimentos, desenvolvi habilidades e conquistei mais estabilidade profissional, com um trabalho formal e salário fixo. Mas o impacto vai muito além da minha vida. É gratificante ver a diferença que o projeto faz na comunidade, seja por meio da reciclagem do óleo de cozinha, da produção de sabão e detergente ou das ações de tratamento de esgoto, que ajudam a melhorar a qualidade de vida das pessoas. Ele afirma que, hoje, o projeto representa aprendizado, oportunidade e transformação. — Quem conhece de perto o nosso trabalho entende a importância de preservar o meio ambiente e de fortalecer iniciativas que geram benefícios concretos para toda a comunidade — diz. No projeto Ambiente Circular, a gestão de resíduos já desviou quase dez toneladas de materiais dos aterros sanitários, deixando apenas 17 quilos de rejeitos finais. — Esse reconhecimento mostra que sustentabilidade não é apenas discurso, mas uma responsabilidade que deve ser incorporada à rotina — ressalta Jacqueline Moreira, diretora de sustentabilidade do instituto.
Projetos nascidos em favelas do Rio conquistam prêmios internacionais
Iniciativas do Jacarezinho e da Mangueira, relacionadas a problemas como enchentes e acúmulo de lixo, recebem reconhecimento






