Como o caso do Banco Master pode te afetar?No primeiro episódio do Guia do Adulto Premium, explicamos o que aconteceu com o Banco Master e as consequências do rombo milionário. Crédito: EstadãoGerando resumoO grupo de empresas que montou uma espécie de nova versão da Reag na Faria Lima também faz a gestão, à semelhança da gestora liquidada pelo Banco Central (BC), fundos controversos citados em suspeitas de fraudes em processos judiciais. Entre os fundos listados pela reportagem, estão desde aqueles investigados pela Polícia Federal por fraudes no banco Digimais, do bispo Edir Macedo, até um fundo da empresa de investimentos em sustentabilidade Ambipar, que está em recuperação judicial. Como mostrou o Estadão, um grupo de ex-executivos da Reag se uniu a outro, de ex-agentes da corretora do Máxima, banco que deu origem ao Master, hoje investigados pelas fraudes no Digimais. Juntos, levaram mais de 30 fundos da gestora liquidada pelo BC em meio a uma crise provocada por operações da Polícia Federal que a investigam no caso Master e por lavagem de dinheiro bilionária para sonegadores do setor de combustíveis. Reag foi um dos alvos da Operação Carbono Oculto Foto: Werther Santana/EstadãoNa gestão de fundos, está a Asarock Asset Management, que pertenceu a um ex-cliente da Reag acusado pela União de sonegação com uso de fundos da gestora. Esse cotista de fundos é Lélio Vieira Carneiro, que foi dono da empresa e a repassou a ex-executivos da Reag. Fundos ligados a ele continuam sob gestão da Asarock. Na administração dos fundos da Asarock, está o grupo ID, cuja primeira gestora foi fundada pelo lobista Francisco Maximiano, o Max, alvo de diversas operações da PF, e integrado por ex-agentes do Máxima. PublicidadeO escândalo do Banco Master é de direita ou de esquerda?Estadão cria ferramenta detalhando conexões políticas de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Crédito: Daniel WetermanA ID CTVM é conhecida por administrar fundos de investimentos do banco Digimais, do bispo Edir Macedo. Como mostrou o Estadão, esses fundos foram usados para maquiar prejuízos do banco. Auditorias apontaram ausência de dados sobre R$ 3 bilhões investidos. Os donos da ID, Rodrigo Balassiano (Bala) e Roberto Giancoli Filho (Beto), foram alvo de busca e apreensão na última terça-feira, 23. Lelio, ID e Asarock em fundos bloqueados PUBLICIDADEHá dois fundos mapeados pela União como ligados a Lelio Carneiro geridos pela Asarock e administrados pela ID. São eles: o Fera 12 e o Rodoma 16. Juntos, eles têm patrimônio de R$ 988 milhões. Eles fazem parte de uma teia de mais de uma dezena de empresas e fundos ligados a Lelio, segundo a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional. O órgão obteve o bloqueio dessa estrutura complexa de pessoas jurídicas e de Lelio no valor de R$ 250 milhões na Justiça Federal. Há, ainda, mais de R$ 1 bilhão em fundos atribuídos a Lelio em administradoras e gestoras ID.“A estruturação das empresas e fundos, levada a efeito pelos administradores do grupo empresarial, mediante utilização de interpostas sociedades para realizar a movimentação financeira do grupo adquirido, configura, prima facie, ato simulado e fraudulento, com intenção de burlar a legislação tributária, com evidente prejuízo ao fisco”, afirmou o juiz federal Fabiano Bley Franco, ao decidir impor o bloqueio multimilionário a Lelio.PublicidadeProcurados, os ex-executivos da Reag não se manifestaram. A empresa ID CTVM, que é investigada no caso Digimais, defendeu a regularidade de seus fundos e que segue rigorosos padrões de governança. Ela nega formar um “mesmo grupo” com as empresas dos ex-dirigentes da Reag. Dizem ainda que encerraram fundos citados na reportagem. A Asarock defende a legalidade de seus fundos e afirma não formar um grupo com a ID. Lelio afirma ser indevidamente alvo do processo da União. (Leia a íntegra mais abaixo)Fraudes no Digimais tiveram fundos da IDSegundo a Polícia Federal, a ID CTVM, de Beto e Bala, gere e administra fundos de investimentos ligados ao Digimais sob suspeita de fraude. De acordo com as investigações, fundos de investimentos foram usados para maquiar prejuízos no banco. O principal caso investigado pela PF diz respeito a fundos do Digimais que compraram o direito a receber uma indenização judicial obtida por herdeiros da antiga Companhia de Mineração e Siderurgia encampada — ou seja, teve o seu controle acionário assumido — pela ditadura de Getúlio Vargas, em 1940, no processo de criação da Vale do Rio Doce.PublicidadeA Justiça Federal do Rio condenou a União a indenizar acionistas — e seus herdeiros legais — em valores atualizados equivalentes a 7 mil ações da Vale. O fundo estima ter R$ 2,2 bilhões a receber. A ação judicial é dos anos 1990. Não há controvérsia sobre a condenação, que tem trânsito em julgado, mas, em casos como esse, que envolvem altas quantias a serem pagas, a União costuma travar uma longa guerra, que pode levar anos, sobre o cálculo do quanto deve ser pago aos autores da ação. Segundo a Polícia Federal, esses recebíveis foram comprados por um valor de R$ 71 milhões por fundos de investimentos ligados ao banco e à ID. E, depois, vendidos a outros fundos, que reavaliaram seus valores para R$ 741 milhões. Esses fundos tinham o Digimais como seu cotista. O banco vendeu essa carteira de direitos creditórios pelos mesmos R$ 741 milhões, o valor sob suspeita de ser inflado, à holding de Edir Macedo, seu próprio controlador. PublicidadeLeia tambémEx-executivos e alvos da PF no caso Digimais erguem ‘nova Reag’ e levam fundos bilionáriosFundador da Reag é suspeito de lavagem de dinheiro no inquérito de respiradores de Rui CostaQuem é João Carlos Mansur, fundador da Reag, alvo de operação contra o Banco MasterPUBLICIDADEO Digimais afirma que “permanece à disposição das autoridades para prestar quaisquer esclarecimentos e colaborar com as apurações em curso”. “A instituição reafirma seu compromisso com a transparência, a conformidade regulatória e a plena colaboração com as autoridades competentes”, diz.Fundo da Ambipar teria sido usado para inflar balançosA reportagem identificou outros fundos acusados em processos judiciais de serem usados para blindar empresas de dívidas ou mesmo de outras fraudes. Entre eles, está um fundo ligado ao caso da Ambipar, empresa da área de investimentos em sustentabilidade que entrou em recuperação judicial com dívidas de R$ 10,5 bilhões. Este é outro caso que se entrelaça com o escândalo do Banco Master. É que a Ambipar teria usado fundos do banco para inflar seus balanços. PublicidadeHá outra situação semelhante envolvendo um fundo chamado Fênix, gerido e administrado por empresas ID. O Bradesco denunciou ao Judiciário paulista que a Ambipar fez operações financeiras com este fundo também para maquiar seu balanço. De acordo com o banco, mais da metade do que a Ambipar declarou em caixa disponível, de R$ 4,7 bilhões, estava alocada no fundo Fênix, que investe em direitos creditórios, ou seja, créditos a receber decorrentes, por exemplo, de empréstimos ou mesmo recebíveis de ações judiciais. O fundo investia em créditos de uma empresa de participações chamada Everest, que pertence a Tercio Borenghi, controlador da própria Ambipar. O Bradesco afirmou, no processo judicial, que é “chegada a hora, porém, de abrir a caixa preta da Ambipar”. “Não só para que os credores tenham conhecimento do destino que se deu ao seu caixa, especialmente para saberem se ele escoou via Everest e Fidc Fênix, mas também para que os agentes intermediários e as pessoas físicas que contribuíram com o esvaziamento patrimonial da sociedade sejam responsabilizados pela inadimplência deixada", afirma. A Justiça ainda não decidiu sobre o caso. Procurados, a Ambipar e Tércio não se manifestaram. A ID afirma que o fundo Fênix foi encerrado.Papéis assinados por agente de viagensDocumentos obtidos pelo Estadão mostram ainda um detalhe curioso sobre o papel da ID na administração do Fundo Fênix. Assim como outras dezenas de fundos da gestora, seus papéis recebem a assinatura da empresária Antonella Giancolli, que mora na Itália, é dona de uma agência de viagens e não tem qualquer qualificação para administrar fundos. PublicidadeEla é irmã de José Roberto Giancoli Filho, o Beto, um dos donos da empresa. Como mostrou o Estadão, a ID teve uma história marcada por brigas entre sócios. Em um desses casos, Antonella foi chamada a depor como testemunha. Ela acabou admitindo que não administra, de fato, a empresa e os fundos. “Tudo o que meu irmão pede para assinar, eu assino”, disse. Não são só papéis de fundos que Antonella assina para o irmão. Morando em Roma, ela é a dona da casa de R$ 7 milhões, com mais de 800 metros construídos. É nesta casa que Beto Giancolli mora. Questionada sobre a casa e o papel de Antonella na empresa, a ID afirmou que não comenta assuntos pessoais. Fundo da OAS teve fraude reconhecida pela JustiçaEmpresas de nome ID gerem e administram, também, um fundo que provocou uma verdadeira guerra no processo de falência da OAS, empreiteira que tinha contratos com a Petrobras (seus donos delataram na Operação Lava Jato) e acabou falindo. PublicidadeO fundo Zegama tem como cotistas ex-dirigentes da própria OAS e adquiriu ativos do próprio grupo, que estava dividido entre duas novas empresas, a Coesa e a Metha. Credores afirmaram que a operação, com a OAS nas duas pontas, era uma fraude. A Justiça reconheceu a fraude no uso dos fundos. Segundo o desembargador Grava Brazil, em um julgamento, a relação entre os ex-dirigentes da OAS e o fundo “confirmou a promiscuidade societária”. “Em que pese tais esclarecimentos, o que houve, em verdade, foi a transferência, para grupo capitaneado pela própria OAS, a custo zero, das empresas deficitárias e, antes disso, o direcionamento dos ativos relevantes dessas empresas para o atual Grupo Metha (esvaziamento patrimonial)”, afirmou o magistrado. PublicidadeEmpresários negam ser um mesmo grupo e defendem legalidade das operações em fundosA ID CTVM afirma que a “Zegama é administrada pela ID Serviços Fiduciários, que não faz parte do mesmo o grupo”. A reportagem constatou que essa empresa é dirigida por Beto Giancoli e tem como sócias outras empresas ID que têm ele e outro sócio como controladores. Além disso, também foi registrada no mesmo prédio das outras empresas e tem identidade visual semelhante em sua divulgação. A ID CTVM afirma que atuou no Fidc Fênix, “que já foi encerrado, cumprindo todos os seus deveres regulatórios e de governança”. Segundo a empresa o “cargo exercido pela Sra. Antonella foi devidamente aprovado pela CVM e pelo BC”. “Atualmente ela não atua em nenhuma diretoria, sendo somente acionista da holding Bekoach”, diz.Asarock diz ter relação apenas profissional com a ID A Asarock afirma que “possui governança própria, foi adquirida em setembro de 2025 e tem Gabriel Pupo como seu único acionista”. “Com mais de 20 anos de atuação no mercado financeiro, Gabriel sempre desenvolveu sua atividade profissional como agente autônomo de investimentos, construindo ao longo desse período relacionamento próprio com investidores, cotistas e demais participantes do mercado, trajetória que culminou na constituição de uma carteira com mais de 60 fundos de investimento atualmente sob gestão da companhia”, diz. PublicidadeSegundo a empresa, a “migração desses fundos ocorreu dentro dos procedimentos regulatórios aplicáveis e mediante as aprovações necessárias de administradores fiduciários, cotistas e demais instâncias competentes, conforme a estrutura de cada veículo”. A empresa afirma cumprir a legislação e regulamentação da CVM e diz que “a relação da gestora com administradores fiduciários, incluindo empresas do grupo ID, é estritamente profissional”. “A empresa trabalha com diferentes administradores do mercado e avalia continuamente a estrutura mais adequada para os fundos sob sua gestão. Não integra nem compõe grupo econômico com a ID ou qualquer outra administradora fiduciária”. Lelio Carneiro afirma que vendeu participação em gestoraLelio Vieira Carneiro Junior afirma que a “Asarock não foi fundada por mim”. “Adquiri a companhia em 2024, quando decidi atuar no segmento de gestão de fundos de investimento, e vendi integralmente minha participação em setembro de 2025″. Publicidade“Com a venda, toda a estrutura operacional da empresa — incluindo seus profissionais e contratos — permaneceu na companhia, como ocorre normalmente em operações dessa natureza. Desde então, não possuo mais nenhuma participação societária, função executiva ou influência sobre a gestão da Asarock”, diz.Ele afirma que foi “incluído pela União como suposto responsável solidário antes mesmo da conclusão da discussão administrativa”. “O Carf, em primeira e segunda instâncias, já afastou integralmente minha responsabilidade no caso”, diz.“Também não possuo vínculo societário com as empresas que discutem os débitos tributários objeto da ação. Não existem atualmente bens bloqueados em meu nome relacionados a esse processo, uma vez que a empresa envolvida está questionando os débitos e apresentou garantia suficiente para assegurar a discussão judicial”, afirma. Ele afirma que nunca houve “utilização de fundos de investimento para prática de sonegação fiscal”. “As decisões do Carf registraram expressamente que as operações analisadas não caracterizam ilícito tributário e determinaram o afastamento da responsabilidade que me havia sido atribuída”, afirma.
De Ambipar ao Digimais, ‘Nova Reag’ gere fundos suspeitos de fraudes
Grupo que levou fatia da Reag abriga fundos acusados de fraude em processos judiciais, em semelhança ao que ocorria com gestora liquidada; procurados, empresários defenderam legalidade do negócio










