A colunista Maria José Tonelli reflete sobre como a sensação de estagnação econômica, a falta de confiança e o avanço da tecnologia têm alimentado um sentimento coletivo de desesperança Creio que se trata de uma percepção compartilhada por muitos: depois da pandemia ficamos mais impacientes e uma atmosfera mais triste parece cercar as cidades. Estamos mais impacientes no trânsito e com qualquer resposta que não seja imediata. Nem mesmo os jogos recentes do time brasileiro na Copa provocaram uma grande mobilização e festas nas ruas. Ainda torcemos para o Brasil ganhar, mas sem grandes esperanças. Parece que perdemos a fé, não só no time, mas na vida. No ambiente de trabalho, as pesquisas mostram desengajamento e um novo termo: "resenteeism", junção das palavras ressentimento e presenteísmo, que marca a presença física e, ao mesmo tempo, a frustração ou desmotivação das pessoas, seja por lideranças tóxicas, promoções adiadas ou salários que nem sempre garantem uma condição digna frente à alta dos custos de vida. A esperança nas promessas do século XX para uma vida moderna parecem ter perdido força, seja no progresso material, na liberdade individual, no desenvolvimento social ou na democracia. Trabalhar não garante que os sonhos de segurança financeira e da casa própria sejam alcançados; e na vida pessoal, não se encontram mais ligações emocionais sólidas, como a família enquanto refúgio num mundo sem coração e outros valores e ideais que garantiam uma certa estabilidade emocional, relacional e de compromissos coletivos. Como todos acompanham, o país também é campeão em depressão e problemas de saúde mental. Mas isso não acontece só no Brasil. As pessoas estão mais relutantes em confiar em outros indivíduos com valores políticos e culturais diferentes dos seus, tendem a consumir mídias que trazem pensamentos semelhantes e estão mais céticas com líderes nacionais. O relatório de 2026 do Edelman Trust Barometer Global Report chama esse fenômeno de insularidade, ou efeitos de isolamento social e cultural, e aponta ainda o crescimento da ansiedade ligada a fatores econômicos e o medo da inteligência artificial que aumenta a distância entre ricos e pobres. Poucos acreditam que a próxima geração estará em melhor situação. Nessa mesma direção, David Brooks diz que as pessoas fazem compras como forma de preencher o vazio espiritual e que a humanidade retrocede em muitos valores: movimentos religiosos se tornam mais extremistas, aumentam as polarizações políticas e surge um reforço na mentalidade de que são necessários homens fortes autoritários e mulheres tradicionais de volta à cozinha. Um retrocesso que pode ser entendido como uma busca desesperada de apoio numa comunidade supostamente forte, frente ao vazio de promessas não cumpridas pelo modelo de desenvolvimento do século passado. Colunista aponta que no ambiente de trabalho, pesquisas mostram desengajamento e o termo: "resenteeism", junção das palavras ressentimento e presenteísmo, que marca a presença física e, ao mesmo tempo, a frustração ou desmotivação das pessoas — Foto: Damir Samatkulov/Unsplash Frente aos avanços galopantes das tecnologias, da velocidade e da concentração do poder e da riqueza, o medo é real, mas as possibilidades de enfrentá-lo são restritas, já que própria capacidade cognitiva (de foco e de atenção) foi reduzida pela velocidade da dopamina nas mídias. Se não há pensamento, não há criatividade nessa escultura eletrônica gigante, como já apontava Paul Virilio, na Arte do Motor. A lógica da corrida organiza a mentalidade contemporânea e já não somos mais capazes de compreender os fatos nessa era da instantaneidade que não permite o pensamento crítico. Não temos outra função a não ser buscar constantemente a própria sobrevivência. Mas o mundo não é monocromático e precisamos lembrar que, na contramão dessa mentalidade, os humanos sempre foram capazes de vencer situações extremas na luta do bem contra o mal. O trabalho continua sendo uma fonte de identidade e propósito para 70% dos entrevistados em uma pesquisa recente da McKinsey, Purpose at Work Study (2024/2025). Além disso, se observa uma procura intensa por competências humanas como criatividade, colaboração e pensamento crítico, que fazem diferença ao pensamento unidimensional da IA. A geração dos baby-boomers, que trouxe mudanças comportamentais profundas no século passado, talvez possa contribuir para a construção de uma sociedade mais colaborativa, agora que experimentam a longevidade. Estamos no meio do olho do furacão. Que o futuro nos reserve dias melhores. Maria José Tonelli é doutora em psicologia social, professora titular na FGV–EAESP, e especialista em diversidade e desenvolvimento de lideranças.
Da ansiedade ao ressentimento: o humor de uma sociedade em crise
A colunista Maria José Tonelli reflete sobre como a sensação de estagnação econômica, a falta de confiança e o avanço da tecnologia têm alimentado um sentimento coletivo de desesperança









