Levantamento mostra que os jovens são os mais expostos e os idosos sofrem as maiores perdas financeiras Viviane Fernandes: “Estão aumentando golpes em indivíduos habituados com as ferramentas digitais” — Foto: Divulgação Daqui a um minuto, antes de terminar de ler este parágrafo, 107 pessoas no Brasil terão sido alvos de ataques cibernéticos, segundo estudo da Silverguard - plataforma de inteligência e segurança focada no combate a golpes financeiros e fraudes digitais - a partir de dados do Datafolha e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O levantamento analisou 12.197 denúncias de janeiro a junho de 2025, sendo 96,9% de pessoas físicas e 3,1% de pessoas jurídicas. “Estamos vivendo uma verdadeira epidemia desses crimes”, alerta Viviane Fernandes, pesquisadora de infraestruturas públicas digitais do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec). “E as ocorrências não acontecem mais apenas com pessoas sem letramento digital, que não dominam a navegação na internet ou os recursos do celular. Estão aumentando os golpes em indivíduos habituados com as ferramentas digitais”, acrescenta. Conforme o Anuário de Segurança Pública 2025, cerca de 6 milhões de brasileiros foram vítimas de golpes e fraudes digitais em 2024. Enquanto os roubos físicos caíram 14%, os estelionatos eletrônicos saltaram 26% naquele ano. Ainda que as pessoas sejam digitalmente experientes, os golpes estão se tornando mais sofisticados. “Os meios continuam os tradicionais: WhatsApp e plataformas de redes sociais. Dois em cada três golpes iniciam nesses canais. Porém, os instrumentos evoluíram e as estratégias também”, diz Rodolfo Avelino, professor de segurança cibernética no Instituto Insper e integrante do Coletivo Digital. Avelino explica que os criminosos recorrem à chamada engenharia social, manipulando o comportamento humano para arquitetar abordagens altamente verídicas. Ao cruzarem dados de diferentes fontes, os golpistas traçam o perfil da vítima e ativam gatilhos psicológicos específicos. Entre os mais comuns estão o senso de urgência, que força a vítima a agir sem pensar; a promessa de vantagens, como dinheiro fácil ou benefícios antecipados; o medo, alimentado por ameaças e chantagens; e o senso de oportunidade, que se aproveita de eventos para camuflar falsas promoções irrecusáveis. Levantamento da Mastercard sobre cibersegurança na América Latina e no Caribe aponta que os jovens entre 18 e 27 anos foram as que mais interagiram com golpes em 2025 (29%), reflexo de um comportamento de risco: metade deles (50%) não adota práticas básicas de segurança. Já outra pesquisa, da Silverguard, revela que, em média, os prejuízos financeiros com golpes em todo o Brasil totalizam R$ 2,5 mil por pessoa ao ano. Neste aspecto, os idosos são mais os que mais perdem dinheiro. Entre eles, a perda pode chegar a cinco vezes mais. O dinheiro, por sua vez, dificilmente é recuperado. “Só 9% das reclamações de golpes via Pix resultam em restituição”, lamenta Fernandes. Para escapar das armadilhas, existem formas de prevenção e proteção. A principal delas é o cuidado com a exposição de dados pessoais. Veridiana Alimonti, diretora associada da organização Electronic Frontier Foundation (EFF), conta que 38% dos golpes estão relacionados a associações de dados pessoais que são garimpados na rede. “Além disso, as plataformas que fazem cadastro pedem uma enorme quantidade de dados desnecessários, que servem para compor perfis alvos de abordagens, muitas vezes criminosas.” Alimonti recomenda checar a origem das mensagens e verificar links antes entrar. “Em vez de clicar no link, procure a página oficial do fornecedor, dê preferência para os canais oficiais de comunicação. Ligue para a pessoa ou empresa antes de repassar dinheiro”, orienta. Avelino alerta para o perigo de solicitações que exigem um QR Code. “Você aponta para a imagem, mas pode existir uma outra oculta, que leva para um endereço de web diferente”. Fernandes também orienta a ter como primeira atitude o bloqueio da conta no banco. “Antes de fazer o boletim de ocorrência, o mais urgente é avisar o banco, pois o dinheiro enviado em um golpe muda de mão a cada dez segundos. Eles operam uma rede de correntistas comparsas, o que dificulta o rastreio”, observa.