O Brasil está envelhecendo. Em 2024, havia 59 milhões de brasileiros com 50 anos de idade ou mais, cerca de 27% do total da população. Até 2044, essa faixa etária irá somar 92 milhões de pessoas, o que possivelmente representará 40% da população do país, segundo dados publicados no estudo “Mercado Prateado: consumo dos brasileiros 50+ e projeções em saúde”, da Data8, especializada em estudos da economia da longevidade. Esse cenário traz uma série de desafios e oportunidades. A pesquisa mostra que o envelhecimento da população brasileira passou a movimentar cifras bilionárias na economia da saúde: pessoas com mais de 50 anos respondem por 35% do consumo em saúde no país — em 2024, foram R$ 247 bilhões, em um mercado de R$ 700 bilhões. Em duas décadas esses brasileiros irão consumir R$ 559 bilhões em produtos e serviços de saúde. Ainda segundo a pesquisa da Data8, as pessoas com 50 anos ou mais consomem 75% a mais em saúde do que a população abaixo dessa faixa etária. Essa diferença, diz a empresa, se explica pelo protagonismo dos planos de saúde, remédios e suplementos. Duas operadoras de planos de saúde olham com mais foco justamente para esse público. Criada em 1997, a Prevent Senior atende pessoas de todas as faixas etárias, mas 90% dos 557.174 beneficiários têm 49 anos ou mais. A maior concentração — 444 mil clientes — está na faixa entre 61 e 100 anos de idade. A MedSênior, criada em 2010 e também voltada à população com 49 anos ou mais, atende cerca de 290 mil pessoas e, segundo Maely Filho, vice-presidente da MedSênior, vem mantendo, nos últimos anos, ritmo consistente de expansão, com crescimento médio em torno de 40% ao ano. Do total de beneficiários, cerca de 20% têm entre 50 e 59 anos. A faixa de 60 a 69 anos representa 35% do total, enquanto os clientes entre 70 e 79 anos correspondem a 30%. Já os beneficiários com 80 anos ou mais somam 16% da base. “Desde sua fundação, a companhia estruturou um modelo assistencial centrado em medicina preventiva, acompanhamento contínuo e atuação multidisciplinar”, diz o executivo. A MedSênior vem mantendo, nos últimos anos, ritmo consistente de expansão, com crescimento médio em torno de 40% ao ano, diz Maely Filho, vice-presidente da empresa — Foto: Foto: Gustavo Andrade/Divulgação Na área de medicina diagnóstica a população mais velha também conta com projetos com foco em prevenção. É o caso do checkup Longevidade, criado pelo grupo Fleury e voltado principalmente ao público 60+. Seu objetivo é identificar precocemente condições associadas ao envelhecimento, especialmente a chamada síndrome da fragilidade, quadro caracterizado pela redução das reservas fisiológicas do organismo e que pode se manifestar por sinais como perda de peso, fraqueza muscular, fadiga e lentidão, explica Patrícia Maeda, presidente da unidade de negócios B2C do grupo Fleury. “Essa condição aumenta o risco de quedas, hospitalizações e perda de autonomia funcional”, afirma. Segundo Maeda, existe hoje uma demanda crescente por modelos de cuidado que não estejam centrados apenas no tratamento da doença, mas na preservação da saúde, da autonomia e da qualidade de vida ao longo do tempo. Uma demanda que levou o grupo a desenvolver, recentemente, o Fleury Lifecare, para pessoas a partir dos 35 anos, com a proposta de acompanhar o indivíduo de forma integrada, considerando diferentes dimensões da saúde ao longo do tempo. Modelos baseados em prevenção e acompanhamento contínuo, lembra ela, também contribuem para a sustentabilidade do sistema de saúde, “porque permitem identificar alterações precocemente e reduzir a necessidade de intervenções mais complexas no futuro”. Seguindo a lógica de saúde preventiva, também aumenta a busca por vacinação entre pessoas com 50 anos ou mais. Na rede Previmune, que conta com 25 unidades, o público 50+ ultrapassa 20% da base de clientes hoje, ante 10% em 2024. Fundador da Previmune, o médico André Luiz Silva atribui esse crescimento às mudanças no comportamento da população com foco na prevenção e na qualidade de vida, “com a necessidade de proteção contra formas graves de doenças infecciosas relacionadas à imunossenescência [envelhecimento natural do sistema imunológico]”. “A vacinação nessa faixa etária é considerada pilar importantíssimo para o envelhecimento saudável, reduzindo complicações de doenças imunopreveníveis, hospitalizações e mortalidade”, afirma. Em 2025, a Previmune alcançou receita superior a R$ 25 milhões, e a previsão para 2026 é de crescimento superior aos 30% de 2025. As farmacêuticas vêm igualmente destinando investimentos em soluções para o envelhecimento saudável. Andrea Frazão, diretora da unidade de prescrição médica na Eurofarma, explica que a multinacional brasileira “tem um olhar não somente em incorporar ao seu portfólio medicamentos que tratem patologias, mas trazer também soluções que melhorem a qualidade de vida ao mesmo tempo que ampliam a longevidade”. Nessa agenda, um dos focos da companhia é o combate à obesidade e ao diabetes tipo 2. “A Eurofarma entrou no segmento de semaglutida biológica original injetável para obesidade e diabetes tipo 2, em parceria com a Novo Nordisk, em outubro de 2025”, afirma Frazão. “Para avançar nessa frente, em 2026, a companhia lançou o EuroCuida, um programa que busca oferecer apoio integrado aos pacientes que procuram o tratamento para essas patologias.” Sylvester Feddes, da Novartis Brasil: Busca por novos alvos terapêuticos ligados ao envelhecimento saudável — Foto: Foto: Divulgação Na Novartis, um exemplo do investimento em longevidade saudável foi a criação, em 2023, da área global de pesquisa Diseases of Aging and Regenerative Medicine, dedicada a compreender os mecanismos biológicos do envelhecimento e desenvolver novas abordagens terapêuticas para doenças associadas à idade. “Recentemente, a companhia também anunciou uma colaboração estratégica com a BioAge Labs para identificar novos alvos terapêuticos relacionados ao envelhecimento saudável”, comenta Sylvester Feddes, presidente da Novartis Brasil. O acordo, segundo ele, pode chegar a US$ 550 milhões entre financiamento inicial, pesquisa e marcos futuros de desenvolvimento e comercialização. “Esse avanço reflete uma transformação demográfica e epidemiológica global”, afirma o executivo. Segundo ele, a farmacêutica busca ir além do tratamento isolado de doenças. “O foco é compreender os mecanismos moleculares que levam à perda de função celular e tecidual ao longo do tempo e, a partir disso, avançar em intervenções farmacológicas regenerativas para pacientes.” A Roche, por sua vez, diz atuar hoje em mais de cem estudos clínicos no Brasil. Desses, mais de 90% são voltados a doenças crônicas ou degenerativas, como Alzheimer e degeneração macular relacionada à idade, diz Lorice Scalise, presidente da Roche Farma Brasil. “Pensamos longevidade também como forma de permitir que os pacientes mantenham autonomia, vínculos e qualidade de vida ao longo da jornada”, explica. Segundo ela, em 2025, a Roche investiu mais de R$ 590 milhões em pesquisa clínica no Brasil, somando R$ 1,7 bilhão nos últimos três anos. Lorice Scalise, presidente da Roche: 90% dos estudos clínicos são voltados a doenças crônicas ou degenerativas — Foto: Foto: Vivian Koblinsky/Divulgação Outra frente que vem atendendo o público mais sênior é formada por empresas que promovem estimulação cognitiva. A Supera, que atua nesse mercado com mais de 250 unidades no país, tem 84% de seus alunos com mais de 50 anos. “Tivemos crescimento de 24% na nossa base de alunos 50+ desde abril de 2024”, diz Bárbara Perpétuo, vice-presidente da Supera. Fundada em 2006, a empresa tem metodologia própria baseada nas neurociências que oferece atividades estruturadas com o objetivo de desenvolver habilidades cognitivas, éticas e socioemocionais. “A proposta vai além do treino mental, incluindo estímulos emocionais, considerados essenciais para um envelhecimento ativo e saudável”, diz Perpétuo. Em 2025, a Supera faturou R$ 187 milhões, um crescimento de 9,3% em relação a 2024. Diante desse cenário de envelhecimento da população, cada vez mais empresas têm estruturado programas de diversidade etária e ampliado a contratação de pessoas mais experientes. Na Talento Sênior, que atua nessa frente, o número de contratações de profissionais seniores para empresas parceiras aumentou 138% no último ano. “Com contratações baseadas no conhecimento e experiência do profissional, e não contratações para posições mais operacionais, de baixa qualificação”, afirma Juliana Ramalho, CEO da Talento Sênior.