Impulsionada pelo envelhecimento populacional, aumento das doenças crônicas e maior busca por prevenção, a medicina diagnóstica brasileira vive um período de expansão, com avanço de tecnologias como inteligência artificial (IA), automação e genética. Ao mesmo tempo, empresas e especialistas apontam desafios relacionados à remuneração dos exames, ao aumento da demanda e à ampliação do acesso aos serviços de saúde. Dados da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed), entidade que reúne empresas responsáveis por mais de 85% dos exames realizados na saúde suplementar, mostram que, entre 2023 e 2024, o parque de equipamentos do setor avançou 18,3%, passando de 247,8 mil para 293,3 mil unidades. No mesmo período, o número de unidades de atendimento cresceu 31,4%, enquanto o total de exames acessados eletronicamente saltou de 26,5 milhões para 97,1 milhões — alta de 267%. O mercado de trabalho também expandiu. Segundo a Abramed, a medicina diagnóstica representa hoje 11,1% das vagas da área da saúde, com criação de 9,1 mil postos em 2024. Entre os associados da entidade, o número de colaboradores passou de 95,4 mil para 116,2 mil em um ano. Na avaliação de Milva Pagano, diretora-executiva da Abramed, o setor deixou de ocupar uma posição complementar dentro da assistência para assumir um papel mais central na gestão da saúde e na tomada de decisão clínica. “O diagnóstico está presente desde o nascimento até a morte. Ele permeia toda a jornada de vida das pessoas”, diz. Segundo a executiva, o envelhecimento populacional e o aumento da incidência de doenças crônicas ampliaram a necessidade de acompanhamento contínuo da saúde, elevando a demanda por exames preventivos. Leonardo Vedolin, da Dasa: IA para ganho de eficiência operacional e apoio à decisão médica — Foto: Foto: Divulgação O movimento também impulsiona investimentos em novas tecnologias. De acordo com a Abramed, 39% das associadas investiram ou desenvolveram novos modelos de negócio em 2024, incluindo abertura de unidades, expansão da infraestrutura diagnóstica, automação, inteligência artificial, soluções digitais e parcerias com startups. No grupo Fleury, o foco tem sido a integração de dados, desenvolvimento de exames, relacionamento com pacientes e aprimoramento da experiência digital. A companhia também avalia que o envelhecimento da população e o avanço das doenças crônicas devem ampliar a procura por consultas ambulatoriais, exames diagnósticos e vacinação adulta nos próximos anos. “Diagnóstico é prevenção”, afirma Patricia Maeda, presidente da Unidade de Negócios B2C da companhia. Segundo ela, o monitoramento contínuo permite identificar doenças ainda em estágios iniciais e evitar tratamentos de maior complexidade e custo. Maeda também aponta o aumento da conscientização sobre vacinação adulta. Alinhado a esse cenário, o grupo, que está completando 100 anos, inaugura em 2026 um centro voltado ao envelhecimento saudável. “O atendimento é focado em pessoas 40+ que buscam envelhecer com qualidade”, explica. Ela destaca ainda que o uso de canais digitais para agendamento de exames cresceu significativamente nos últimos anos, acompanhado da ampliação do uso de inteligência artificial nos bastidores da operação. O grupo já utiliza IA em áreas como mamografia, tomografia e ressonância magnética, com aplicações voltadas à detecção precoce de doenças e apoio à decisão médica. Patricia Maeda, do Fleury: Foco em integração de dados, novos exames e relacionamento com pacientes — Foto: Foto: Divulgação “A assistente virtual já resolve quase metade dos atendimentos sem intervenção humana”, afirma Maeda. Segundo a executiva, os investimentos em tecnologia precisam estar associados a ganhos concretos de eficiência, qualidade e experiência do paciente. “Se for apenas uma ideia muito boa, mas sem visibilidade clara de geração de valor, não é exatamente uma inovação que queremos perseguir”, diz. A ideia de que exames mais sofisticados evitam tratamentos inadequados e melhoram a precisão terapêutica, especialmente em áreas como oncologia e genética, permeia também os processos da Dasa. Como exemplo, Leonardo Vedolin, VP da área médica do grupo, cita o avanço do sequenciamento genético, cujo custo caiu drasticamente na última década com a evolução tecnológica. Como forma de enfrentar desafios relacionados a acesso, sustentabilidade e desfecho clínico, a Dasa aposta na expansão tecnológica. A inteligência artificial passou a ocupar espaço crescente na rotina do setor. Vedolin afirma que ferramentas baseadas em IA vêm sendo utilizadas tanto para ganho de eficiência operacional quanto para apoio à decisão médica. O uso da IA em equipamentos de imagem permitiu reduzir o tempo de alguns exames de ressonância magnética, diz o executivo. “Mas vale lembrar que usar tecnologias é uma forma de fazer com que o processo seja mais qualificado e seguro e jamais substitui o profissional que atua próximo aos pacientes”, completa. Neste ano, a companhia anunciou uma parceria com a IBM para ampliar o uso de automação, assistentes virtuais e fluxos inteligentes em sua central de atendimento ao cliente. Segundo Debora Granjeiro, diretora de experiência do cliente da Dasa, a iniciativa busca aumentar eficiência sem comprometer a qualidade do atendimento. O projeto deve impactar cerca de 1,3 milhão de chamadas e 200 mil interações digitais por mês, com potencial de reduzir em até 45% o tempo médio de atendimento ao longo do contato. “O diagnóstico está presente desde o nascimento até a morte. Ele permeia toda a jornada de vida das pessoas” Milva Pagano, da Abramed — Foto: Divulgacao/Divulgacao No setor de medicina diagnóstica do Einstein Hospital Israelita, os investimentos recentes têm sido concentrados em automação, conectividade, inteligência artificial e multiômica, área que integra diferentes camadas de dados biológicos para ampliar a precisão diagnóstica. Marcos Queiroz, diretor da área no Einstein, diz que o principal desafio atual é equilibrar incorporação tecnológica e sustentabilidade financeira. Exames genéticos e novas modalidades de imagem ampliam a capacidade diagnóstica, mas também elevam os custos do sistema. Nesse cenário, torna-se essencial garantir o uso correto dos procedimentos. “Existe um conceito muito utilizado na medicina diagnóstica: ‘o exame certo para o paciente certo, na hora certa’”, explica. O grupo Sabin também vem ampliando investimentos em digitalização, expansão territorial e medicina preventiva. A presidente-executiva da companhia, Lídia Abdalla, também relaciona o envelhecimento populacional e o aumento das doenças crônicas à demanda por modelos de cuidado mais preditivos e personalizados. Para Abdalla, o setor vive hoje o desafio de ampliar acesso e inovação em meio à pressão financeira crescente. “A sustentabilidade da saúde depende de relações mais equilibradas entre todos os agentes do sistema”, afirma. Na avaliação da executiva, o atual modelo de remuneração, somado ao aumento das exigências regulatórias e dos custos operacionais, vem pressionando os prestadores de serviços diagnósticos. Segundo Pagano, da Abramed, embora o volume de exames tenha aumentado, os reajustes pagos pelos procedimentos não acompanham a elevação dos custos operacionais e tecnológicos do setor. “Qualidade não tem preço, mas tem custo”, diz. De acordo com a pesquisadora Ligia Bahia, especialista em saúde pública da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a medicina diagnóstica brasileira passou simultaneamente por um processo de modernização e concentração econômica nos últimos anos. O desenvolvimento da tecnologia, diz, ampliou a sofisticação do setor, mas também elevou custos e aprofundou desigualdades de acesso, já que exames mais avançados permanecem restritos a parte da população e ainda possuem baixa oferta no SUS. “O setor se tornou mais sofisticado, mas também mais caro, concentrado e centralizado”, afirma. Apesar da expansão do segmento, empresas e especialistas avaliam que a medicina diagnóstica seguirá pressionada nos próximos anos pelo avanço da demanda por exames. Na avaliação da Abramed, além da defasagem na remuneração, o setor enfrenta desafios relativos à concentração da infraestrutura diagnóstica nos grandes centros e à integração insuficiente de dados entre operadoras, hospitais e laboratórios.