A inteligência artificial (IA) ganha mais espaço na nova safra de máquinas e dispositivos eletrônicos produzidos pela indústria brasileira e grupos multinacionais para hospitais e clínicas do país. Uma das atrações é a nova ala de ressonância magnética do Instituto de Radiologia (Inrad) do Hospital das Clínicas de São Paulo, inaugurada em março deste ano, com quatro máquinas de alta performance, aliadas à IA, que reduzem o tempo médio de exame em cerca de 30%. O investimento total na renovação dos equipamentos de ressonância magnética, fornecidos principalmente pela Siemens Healthineers e pela GE, somou R$ 46,3 milhões, informa Marco Bego, diretor-executivo do Inrad. “As novas ressonâncias magnéticas fortalecem a capacidade diagnóstica do instituto, permitindo exames mais modernos, rápidos e precisos, além de contribuírem para uma melhor experiência do paciente, com fluxos mais digitais, integrados e humanizados”, diz ele. Segundo Giovanni Guido Cerri, presidente do Instituto Coalizão Saúde (Icos), que reúne prestadores de serviços de operadoras de planos de saúde, indústria farmacêutica e indústria de materiais e equipamentos, o mercado brasileiro de dispositivos médico-hospitalares vive um momento de expansão consistente. Tem seus motivos, comenta. “Os hospitais passam por uma transformação profunda em sua forma de operar. Equipamentos de diagnósticos por imagem com inteligência artificial integrada, sistemas de monitoramento preditivo de pacientes, plataformas de cirurgia minimamente invasiva e diagnóstico molecular de alta precisão estão chegando a hospitais de médio porte”, afirma. A indústria de máquinas e equipamentos hospitalares instalada no país está preparada para participar desse movimento de atualização tecnológica, assegura Jamir Dagir Junior, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Dispositivos Médicos (Abimo). “Temos empresas com forte capacidade tecnológica e geração de empregos qualificados, que atuam nos segmentos médico-hospitalar, odontológico, laboratorial e de reabilitação”, diz. Pelo menos 1,2 mil marcas de empresas da indústria nacional e grandes grupos multinacionais participaram da Hospitalar 2026, uma das maiores feiras do setor de saúde, realizada em São Paulo, em maio, com expectativa de geração de negócios em saúde acima de R$ 3 bilhões. No ano passado, as vendas da indústria brasileira de equipamentos médicos totalizaram R$ 26 bilhões, com mais de 85 mil empregos diretos. Por isso mesmo, a Siemens Healthineers, multinacional alemã especializada em tecnologia médica, com faturamento global de 23,4 bilhões de euros em 2025, considera o mercado brasileiro um dos mais estratégicos para a companhia, diz Adriana Costa, diretora-geral da filial brasileira. Segundo ela, o país responde por cerca de 45% dos resultados da região latino-americana. “Isso se materializa em uma operação robusta, com uma fábrica em Joinville (SC), responsável pela montagem de equipamentos como tomógrafos, ressonâncias magnéticas e aparelhos de raios-X — e em um compromisso crescente com inovação aplicada ao contexto local”, destaca. Adriana Costa, da Siemens: Dispositivo portátil para triagem de disfunções cardíacas em áreas remotas — Foto: Foto: Divulgação Além da produção em Joinville, a Siemens Healthineers criou, em Jundiaí (SP), um centro de treinamento equipado com alta tecnologia em acelerador linear e referência na capacitação de profissionais de radioterapia no país. No último ano, a empresa investiu R$ 19 milhões em pesquisa e desenvolvimento no país, em parceria com centros de excelência como o Hospital das Clínicas, Einstein Hospital Israelita e Hospital Sírio-Libanês. “São projetos concretos, como uma inteligência artificial capaz de gerar laudos de tomografia de tórax para apoiar radiologistas sobrecarregados; um protótipo capaz de oferecer suporte a radiologistas e neurologistas na identificação da esclerose múltipla; um dispositivo portátil para triagem de disfunções cardíacas em regiões remotas, onde um ecocardiograma tradicional simplesmente não chega”, diz. A estratégia de vários fabricantes é garantir que o país tenha acesso rápido e eficiente às inovações mais avançadas do mundo, mesmo que isso signifique um aumento na já elevada dependência externa em itens críticos para a operação hospitalar (atualmente o Brasil importa mais de US$ 11 bilhões anuais em dispositivos médicos, segundo a Abimo). A Medtronic, sediada em Galway, na Irlanda, por exemplo, importou de sua fábrica nos Estados Unidos a plataforma de cirurgia robótica Hugo RAS, desenvolvida para ampliar o acesso à cirurgia minimamente invasiva. “É um sistema que conta com visualização 3D em alta definição, instrumentos articulados e braços robóticos independentes e modulares, oferecendo maior flexibilidade para diferentes especialidades e ambientes cirúrgicos”, relata Andrés Cima, vice-presidente para a América Latina da Medtronic. O robô Hugo RAS já está em operação no Einstein Hospital Israelita, em São Paulo (SP), e no Instituto de Treinamento em Cirurgias Minimamente Invasivas (Ircad), no complexo do Hospital do Amor, em Barretos (SP). “O sistema conta com visualização 3D em alta definição, instrumentos articulados e braços robóticos independentes e modulares, oferecendo maior flexibilidade para diferentes especialidades e ambientes cirúrgicos”, diz Cima. A fabricante norte-americana Zebra Technologies, especializada em sistemas inteligentes de captura de dados, aposta na preocupação da rede hospitalar brasileira em criar um ecossistema de saúde hiperconectado e na busca de soluções integradas que permitam a interoperabilidade de dados. Segundo Denis Carvalho, vice-presidente interino e gerente-geral da companhia no Brasil, a Zebra está implementando com sucesso em vários hospitais terminais móveis, tablets para telemedicina, impressoras térmicas de pulseiras de alta precisão e suprimentos avançados, que permitem a identificação positiva do paciente. — Foto: Arte/Valor “O principal foco é a visibilidade em tempo real para o monitoramento adequado de pacientes, a rastreabilidade de ativos e equipamentos médicos e precisão nos tratamentos”, diz Carvalho. Ele cita como exemplo a adoção pelo Instituto do Coração (Incor), em São Paulo, de uma solução de identificação por radiofrequência (RFID) da Zebra, para gestão de ativos móveis, como cadeiras de rodas. “A tecnologia deixou de ser um elemento de modernização estética para se consolidar como a espinha dorsal da segurança operacional”, diz. Para muitos hospitais, investir em novas áreas como inteligência artificial, telemedicina, monitoramento remoto e automação hospitalar tem sido um esforço grande. O grupo Orizonti, que tem como principal ativo o Hospital Orizonti (55 especialidades e 252 leitos), em Belo Horizonte, nos últimos dois anos, investiu R$ 50 milhões na modernização de sua infraestrutura tecnológica, incluindo a compra da plataforma do Sistema Robótico Cirúrgico Endoscópico Multiportal EDGE, fornecido pela Edgemedical. “Para o próximo biênio, já temos um aporte previsto de R$ 100 milhões”, diz Amândio Soares, presidente do grupo. Os investimentos são notáveis, o uso de novas tecnologias ajuda na gestão hospitalar e permite maior controle de leitos, estoques, fluxos de pacientes e indicadores assistenciais, analisa Reginaldo Teófanes, presidente da Federação Brasileira de Hospitais. Mas existem ainda obstáculos a superar, indica ele: o país possui diferentes velocidades tecnológicas. “Enquanto alguns hospitais operam com soluções altamente sofisticadas, muitos outros ainda lutam para agilizar processos básicos. O grande desafio é democratizar esse acesso”, afirma.
IA ganha espaço na nova safra de máquinas e dispositivos produzidos para hospitais e clínicas do Brasil
A indústria de máquinas e equipamentos hospitalares instalada no país está preparada para participar desse movimento de atualização tecnológica, o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Dispositivos Médicos








