Uma nova geração de instituições de ciência e tecnologia chega ao Nordeste. O primeiro campus do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) fora de São Paulo será instalado em Fortaleza, o Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), do Rio de Janeiro, terá uma unidade em Teresina e os Estados da região, articulados pelo Consórcio Nordeste, lançaram em dezembro o Centro de Inteligência Artificial do Nordeste (Ciane). De origens distintas, os projetos convergem no objetivo de firmar a região como produtora de tecnologia, com ganhos de desenvolvimento social e soberania digital. “Nós temos todas as condições para sermos os produtores, desenvolvedores e fornecedores dessas tecnologias para o Brasil”, afirma Carlos Gabas, secretário-executivo do Consórcio Nordeste. Os novos projetos não marcam o início dessa trajetória, e sim a expansão de uma base científica consolidada. No interior da Paraíba, a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) nasceu em 1952, quando a região precisava formar seus próprios engenheiros. Hoje, forma doutores e atrai pesquisadores de vários países. “É possível fazer ciência de qualidade socialmente engajada e contextualizada no semiárido nordestino”, diz José Irivaldo, coordenador do Núcleo de Inovação e Transferência de Tecnologia da UFCG. “Temos um parque tecnológico avançado que talvez muitas pessoas no Brasil não façam ideia que exista”, afirma. No campus, há laboratórios de petróleo com a Petrobras, o centro Virtus, de software e microchips, grupos de robótica e o Certbio, que certifica próteses mamárias. Essa infraestrutura deve crescer com a chegada do supercomputador mais rápido do Nordeste, que a Paraíba receberá da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) para pesquisas em inteligência artificial (IA). A articulação do Consórcio Nordeste corre por outra via. O bloco dos nove Estados estrutura o Ciane sobre uma tríade que Gabas resume em três pilares: rodovias digitais - os cabos submarinos que aportam em Fortaleza, por onde entra a maior parte da internet do Brasil -, data centers movidos a energia limpa, ainda no plano de investimento, e o cérebro digital, IA que dá uso a essa estrutura. O centro funciona em modelo virtual e colaborativo, sem sede física, reunindo a estatal Dataprev, a chinesa Huawei e universidades federais de cinco Estados (CE, RN, PB e PI. Voltado ao serviço público, o Ciane já desenvolveu cinco aplicações em saúde, segurança, gestão e fiscalização rural, e prevê qualificar 40 mil estudantes em inteligência artificial até 2028. ITA e Impa Tech, por sua vez, respondem a demandas locais de formação de profissionais. A chegada do ITA a Fortaleza reconhece o desempenho do Ceará na educação básica: o Estado responde por cerca de 40% dos alunos do instituto em São Paulo. O campus terá os cursos de engenharia de energia e de sistemas, alinhados à vocação cearense em energias renováveis e hidrogênio verde. As atividades acadêmicas começam em 2027, com investimento do MEC que pode superar R$ 445 milhões. “A intenção é que tenhamos o mesmo patamar de excelência que temos em São José dos Campos [SP]”, afirma Antonio Guilherme de Arruda Lorenzi, reitor do ITA. Ele lembra que, na cidade paulista, a formação de engenheiros estimulou um polo de empresas na região, efeito que espera reproduzir no Nordeste. Para Lorenzi, é esse mecanismo que segura talentos. As universidades e as instituições precisam produzir ciência e resolver problemas reais da vida das pessoas” O modelo do ITA pressupõe a hélice tríplice de relação entre governo, academia e setor privado: a pesquisa nasce na universidade e transborda para a indústria, que a converte em produtos e novas empresas, que devem absorver os egressos e evitar que migrem para o Sudeste ou para o exterior. O Impa Tech Nordeste, em Teresina, deve abrir até 50 vagas anuais também a partir de 2027, com prioridade a medalhistas de olimpíadas do conhecimento - 23% das medalhas nacionais na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas nos últimos cinco anos foram para nordestinos. O investimento federal previsto parte de R$ 17,9 milhões por ano. “No Brasil, a matemática responde por 4,6% da economia. Na França, chega a 18%. Há um grande espaço a preencher”, diz Marcelo Viana, diretor-geral do Impa. Ele observa que a matemática, hoje impulsionada pela IA, entra em setores tão distintos quanto finanças, mineração, medicina e agronegócio. “Não há fronteiras para onde a inteligência artificial está indo”, afirma. Outro alicerce dessa tradição está em Macaíba (RN), erguido pelo neurocientista Miguel Nicolelis. Reconhecido pelo Projeto Andar de Novo, que em 2014 levou uma pessoa paraplégica a dar o pontapé inicial da Copa do Mundo com um exoesqueleto controlado pelo cérebro, ele fundou ali, há duas décadas, o Instituto Santos Dumont (ISD), que descreve como o primeiro campus do mundo dedicado ao cérebro. O instituto mantém o único mestrado em neuroengenharia da América Latina, funciona como laboratório nacional aberto e administra uma clínica com mais de 60 mil atendimentos gratuitos por ano em gestações de alto risco e reabilitações. Desde sua instalação, o município subiu 23 posições no Índice de Desenvolvimento Humano. “O talento humano é explosivo. Todos aqui são Santos Dumont. As pessoas só precisam ter um aeroporto para decolar, e nós estamos trazendo o aeroporto”, afirma Nicolelis. Para o diretor-geral do ISD, Reginaldo Freitas Júnior, é o vínculo com a sociedade que dá sentido ao investimento. “As universidades e as instituições precisam produzir ciência e resolver problemas reais da vida das pessoas”, diz. Os investimentos feitos no Nordeste terão benefícios que extrapolam os limites geográficos. "O país que não investe em conhecimento está fadado ao fracasso. Além de ser um país agrícola, temos que ser um país do conhecimento, tecnológico, que invista em cérebros", diz José Irivaldo. Para ele, o investimento em ciência e inovação deve fazer parte da estratégia nacional para reduzir desigualdades sociais e regionais. Ainda, os novos centros poderão desenvolver tecnologias de interesse público com potencial de escala nacional. "O Ciane não será só para o Nordeste. A partir do Nordeste, levaremos soluções para o Brasil", diz Gabas.
Estados do Nordeste atraem centros de tecnologia e IA
ITA e Impa abrem unidades na região, que já tem instituto criado por Miguel Nicolelis
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