Entidades criticam foco do estudo na produtividade e defendem mais recursos para fortalecer a base produtiva local O Nordeste deve depender menos de subsídios fiscais e de crédito ineficientes e onerosos e, em lugar disso, precisa incentivar a produtividade e a inovação. Gargalos logísticos, baixa digitalização, problemas de saneamento e um ambiente de negócios fragmentado continuam limitando o avanço da indústria e dos serviços, setores responsáveis por 86% da força de trabalho regional. Essas são algumas das conclusões do relatório “Rotas para o Nordeste: Produtividade, Empregos e Inclusão”, apresentado em dezembro passado pelo Banco Mundial a autoridades regionais. Para a instituição, a região precisa de um novo desenho de fomento econômico junto aos governos estaduais, investir em infraestrutura de forma mais estratégica e ligar os jovens formados aos trabalhos mais produtivos. O ritmo lento de convergência do Nordeste (a aproximação com os níveis de desenvolvimento econômico e social das outras regiões) e a baixa expansão indicam que é preciso mudar o atual padrão de crescimento. Desde 2010, a agricultura é responsável pela maioria da alta do PIB per capita. Para o Banco Mundial, esperar só pelo crescimento gerado nesse setor é um erro, pois sua capacidade reduzida de criação de empregos não conseguirá ajudar o Nordeste a enfrentar seus principais desafios. É preciso ampliar as oportunidades para uma população urbana que convive com a subutilização da mão de obra, limitando a produtividade. A região tem o potencial para superar essas dificuldades; conta com recursos abundantes de energia limpa, localização geográfica estratégica para conectividade, comércio e logística e possui força de trabalho jovem. Ainda assim, registra a maior desigualdade do Brasil, e a mobilidade intergeracional de renda é menor. Mesmo que reconheça avanços na formação e índices educacionais (a parcela de trabalhadores com diploma universitário aumentou de 9,1% em 2012 para 17% em 2023), o estudo propõe aumentar a mobilidade. Cita a necessidade de expansão de programas de educação e formação profissional, especialmente para trabalhadores de baixa renda e informais. O Banco Mundial aponta ainda que a produtividade das indústrias é menor do que em outras regiões, em função de razões como distorções tributárias, alocação ineficiente de crédito e arcabouço regulatório complexo, que cria barreiras à concorrência. A substituição do financiamento público a obras de infraestrutura por parcerias público-privadas (PPPs) é destacada. Mas esses esforços têm sido limitados na capacidade do setor público de projetar e supervisionar projetos e do setor privado de executá-los com eficácia. A região também tem marcos institucionais e ambientes regulatórios menos robustos e aplicação menos consistente das leis. Esses fatores, juntamente com os índices mais baixos de atividade econômica e poder de compra, aumentam os riscos e dificultam a viabilidade de projetos sem apoio ou garantias governamentais substanciais. Sem ele [subsídio], e sem um crédito adequado a juros menores, a gente não teria a base que tem” Mas essas conclusões são vistas com reservas por parte de alguns economistas. “De certa forma todos nós conhecemos esses dados. Eles servem de alerta. Mas o trabalho vai numa questão central, que é utilizar menos os subsídios fiscais e o crédito”, critica Ana Cláudia Arruda, coordenadora da comissão de desenvolvimento regional do Conselho Federal de Economia (Cofecon). Segundo ela, a região precisa dos incentivos para a continuidade no processo de complementações das cadeias produtivas. “É preciso um plano de desenvolvimento mais articulado.” A atuação em termos de políticas de investimento, crédito, subsídios e incentivos, diz ela, não se mostrou suficiente ou foi descontinuada. “Por exemplo, o próprio BNDES, quando você pega os dados, investe muito mais no Sul e Sudeste.” Arruda defende que o Consórcio Nordeste e a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste tenham uma governança mais ativa e que façam conexões mais fortes “para a gente vencer os pontos ainda muito negativos em relação às demais regiões”. Para José Farias, diretor de Promoção de Desenvolvimento Sustentável da Sudene, o relatório em si é positivo e mostra a pujança da região na última década, mas ele também cita um desconforto. “Essa questão do subsídio é uma mítica internacional que não dá resultado”, argumenta. “Sem os subsídios e os próprios incentivos fiscais mais recentes, a gente estaria com uma base econômica muito mais frágil.” Ele defende ajustes e diz que incentivos fiscais podem ser melhor focados. “Mas o subsídio é extremamente necessário para poder fortalecer a base produtiva da região, principalmente industrial. Sem ele, e sem um crédito adequado a juros menores, a gente não teria a base que tem”, afirma. O economista diz que o relatório propõe o foco para projetos em setores mais produtivos, mas “a produtividade não é um resultado simples, é uma coisa muito mais ampla”. Ele cita que a infraestrutura tem um grau grande de não complementaridade e o ecossistema de inovação é incipiente. “Isso atrapalha a produtividade.” Setores mais complexos e produtivos precisam de incentivo para vir para a região, argumenta.
Subsídios são exagerados, afirma Banco Mundial
Entidades criticam foco do estudo na produtividade e defendem mais recursos para fortalecer a base produtiva local








