Região responde por 13% do PIB industrial do Brasil, mas recuo recente na produção e desaceleração de áreas tradicionais evidenciam o desafio para expansão Responsável por cerca de 13% do Produto Interno Bruto (PIB) industrial do Brasil, a manufatura nordestina vive um momento de crescimento concentrado. Enquanto os Estados que sediam grandes polos industriais e projetos estruturantes, como Bahia, Pernambuco e Ceará, atraem investimentos em setores como energia renovável, automotivo, celulose, petroquímica e hidrogênio verde, os menores enfrentam dificuldades para ampliar sua base industrial, resultando em uma dinâmica de desenvolvimento desigual dentro da própria região. O recuo de 0,8% do setor no Nordeste em 2025, contra avanço de 0,6% na média nacional, segundo a Pesquisa Industrial Mensal do IBGE, reflete, em parte, a desaceleração de segmentos tradicionais da indústria de transformação regional, como alimentos, bebidas e minerais não metálicos. E, embora tenha registrado altas em 2023 e 2024, a indústria nordestina ainda enfrenta dificuldades para sustentar uma trajetória de expansão de longo prazo. Naqueles anos, os avanços foram impulsionados por setores cíclicos, como petroquímica, extração mineral e biocombustíveis. “O PIB industrial tem crescido por conta do desempenho desses segmentos, que estão sujeitos a oscilações de mercado e não representam necessariamente uma mudança estrutural”, afirma Giancarlo Kanaan, sócio da consultoria EY-Parthenon. O desafio está em fortalecer a indústria de transformação, considerada fundamental para dar maior sustentabilidade ao crescimento econômico regional. O potencial é reforçado pelo tamanho do mercado consumidor local, que concentra cerca de 30% da população brasileira. Ao mesmo tempo, a região é celebrada como nova fronteira ligada à transição energética, especialmente em fontes renováveis, e à bioeconomia (biocombustíveis e indústria de base florestal), segmentos que vêm recebendo recursos de programas como o Nova Indústria Brasil. “Esse novo ciclo de industrialização é focado no ambiente de energias renováveis, posto que o Nordeste tem condições de ser provedor não só para o Brasil, mas para o mundo. Mas esse crescimento precisa vir acompanhado de infraestrutura”, diz Cassiano Pereira, presidente da Associação Nordeste Forte, que reúne as federações de indústria dos Estados da região. Investimentos em linhas de transmissão e em sistemas de armazenamento de energia para lidar com os cortes de energia (o chamado curtailment) serão essenciais para fortalecer essa vocação, segundo Pereira. Outro desafio é a interiorização. Como os maiores polos industriais estão próximos aos complexos portuários e regiões metropolitanas (Camaçari, na Bahia, Pecém, no Ceará, e Suape, em Pernambuco), o fomento a novos clusters produtivos no interior e em Estados menores deve ajudar a dinamizar a indústria local. É o que ocorre em dois polos já consolidados em Pernambuco: o do setor automotivo em Goiana, na Zona da Mata; e o do setor têxtil e de confecções do Agreste. O primeiro, impulsionado pela montadora Stellantis, traduz o impacto da economia de aglomeração, já que ao redor da fábrica principal surgiu uma cadeia de fornecedores, logística, serviços especializados, centros de treinamento e novas oportunidades de negócios. Hoje a unidade e seus fornecedores geram perto de 15 mil empregos diretos e, ao longo da cadeia produtiva, são estimados outros 60 mil diretos e indiretos. No polo de confecções, concentrado em cidades como Caruaru, Toritama e Santa Cruz do Capibaribe, um dos arranjos produtivos locais mais significativos do setor têxtil, são 32 mil postos de trabalho. Esse novo ciclo de industrialização é focado no ambiente de energias renováveis” Há outras regiões industriais em ascensão no Estado, como no sertão do São Francisco, onde a agroindústria associada à fruticultura produz vinhos, derivados de frutas e alimentos processados; em Vitória de Santo Antão, na Zona da Mata Sul, com empresas dos setores de bebidas, alimentos e logística; e no Sertão do Araripe, que detém uma cadeia gesseira que abrange desde a extração até o beneficiamento mineral. De acordo com Maurício Laranjeira, gerente de Política Industrial da Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco (Fiepe), o diferencial pernambucano reside na diversificação de sua base industrial. “Esse processo de expansão gradual integra a força da indústria pesada presente em Suape ao dinamismo das cadeias produtivas do interior. O Estado equilibra especializações regionais com uma tendência sólida de fortalecimento econômico para além da região metropolitana do Recife”, diz Laranjeira. Na Bahia, frentes promissoras estão ligadas à mineração no interior, especialmente no semiárido, e a economia florestal, no extremo sul baiano, onde empresas como Suzano, em Mucuri, e Veracel Celulose, em Eunápolis, formam um polo de produção de celulose e papel. Com 700 mil hectares de área plantada e 400 mil ha de florestas nativas, o segmento de base florestal responde por 6% do PIB baiano e por 4% da arrecadação do Estado. O setor ainda tem olhado para outros potenciais segmentos ligados à bioeconomia e à restauração floresta. “A celulose continuará desempenhando um papel central, mas existe uma agenda crescente de inovação voltada ao aproveitamento cada vez mais eficiente da biomassa e à geração de novos produtos de base biológica”, diz Rodrigo Louzada, diretor administrativo e financeiro da Veracel Celulose.
Polos consolidados avançam, mas crescimento segue desigual
Região responde por 13% do PIB industrial do Brasil, mas recuo recente na produção e desaceleração de áreas tradicionais evidenciam o desafio para expansão






