Indústrias que geralmente se instalam na região possuem cadeias produtivas curtas, com poucas oportunidades para fornecedores de Estados vizinhos Um desafio para o Nordeste é promover a integração econômica interregional. O spillover effect (efeito transbordamento), a capacidade de um empreendimento produtivo gerar oportunidades na vizinhança, é muito baixo na região. “Uma fábrica instalada no Ceará tende a buscar fornecedores no Sul ou no Sudeste, raramente em um Estado vizinho”, diz o economista Flávio Ataliba, coordenador do Centro de Estudos para Desenvolvimento do Nordeste do Instituto Brasileiro de Economia (FGV-Ibre). Na fábrica da Stellantis instalada em Goiana (PE), por exemplo, 67,6% das compras vêm de fora da região, segundo estudo da Ceplan. A consultoria recifense promoveu no ano passado a instalação de 20 sistemistas no Supplier Park da montadora, que fornecem 24,4% das autopeças, insumos e serviços. Outros 8% vêm de empresas do Estado, mas de fora do Supplier Park. “O efeito transbordamento da Stellantis em outros municípios de Pernambuco é muito baixo e praticamente inexistente nos Estados vizinhos. O mesmo está se repetindo com a BYD na Bahia”, afirma o consultor Paulo Guimarães, sócio fundador da Ceplan. Segundo Guimarães, as indústrias que tipicamente se instalam no Nordeste, de alimentos, bebidas, têxteis e outros bens de consumo, possuem cadeias produtivas curtas, com poucas oportunidades para fornecedores de outros Estados. Além disso, diz Ataliba, a guerra fiscal promovida pelos Estados para atrair investimentos por meio de renúncia integral ou parcial de tributos, historicamente dificulta a integração produtiva regional. “A dinâmica dominante sempre foi de competição, não de complementaridade”, diz. Para Ataliba, a reforma tributária pode mudar essa realidade ao acabar com o ICMS e criar o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS). “Os Estados serão forçados a competir por investimentos ofertando qualidade de infraestrutura e ambiente regulatório”, afirma. Outro entrave para a integração é fraca infraestrutura logística. A falta de boas rodovias e ferrovias encarece o intercâmbio de mercadorias, reduz o incentivo à compra de insumos de fornecedores de outros Estados e limita o alcance da distribuição de produtos acabados. “As ferrovias Transnordestina e de Integração Oeste-Leste [Fiol] vão se tornar importantes vetores de integração regional”, diz Alisson Oliveira Martins, gerente do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (Etene), do Banco do Nordeste. Além da melhoria da malha rodoviária, com a concessão de rodovias para a iniciativa privada, a expansão da infraestrutura logística também pode vir com projetos estaduais para duas hidrovias; uma no rio Parnaíba, que o governo do Piauí planeja na divisa entre o Estado e o Maranhão, e outra no rio São Francisco, proposta da Companhia Docas do Estado da Bahia (Codeba). Ataliba destaca, entretanto, que as cadeias de fornecimento regionais não se formarão automaticamente, mesmo com melhorias logísticas. “É preciso uma política industrial coordenada e uma estratégia regional de inserção na economia nacional e internacional”, avalia. Uma das poucas indústrias com um grau de integração relevante no Nordeste é a de equipamentos para a geração de energia eólica. Ceará, Bahia, Piauí e Rio Grande do Norte são importantes fabricantes de componentes e peças. O turismo é outra atividade bastante integrada, sendo comum roteiros que abrangem destinos em mais de um Estado, impulsionando o intercâmbio entre diferentes tipos de operadores de serviços turísticos, agências de viagens e redes hoteleiras à locação de veículos e companhias aéreas.