Tóquio não é apenas a capital do Japão, mas também sua cidade mais visitada e a principal porta de entrada para quem quer explorar outros cantos do país, como Osaka e Kyoto. Por isso mesmo, muitos turistas costumam não prestar muita atenção nos arredores da grande metrópole, e perdem a oportunidade de conhecer a prefeitura (equivalente aos estados brasileiros) de Kanagawa, colada à capital japonesa e local de nascimento de oito dos 26 jogadores da seleção do Japão inscritos nesta Copa do Mundo de 2026. Praticamente um terço do grupo que enfrenta o Brasil nesta segunda-feira (29/6), pela segunda fase do Mundial da Fifa, nasceu em quatro cidades de Kanagawa: Kawasaki (Ao Tanaka, Junnosuke Suzuki e Takefusa Kubo), Yokohama (Ko Itakura, Tsuyoshi Watanabe e Koki Ogawa), Miura (Yuito Suzuki) e Yokosuka (Junya Ito). A presença não é de se espantar, já que a região é uma das mais populosas do país, com cerca de nove milhões de habitantes, e uma das mais importantes para a economia nacional, especialmente no setor industrial e portuário. O que não significa ser uma área sem atrativos turísticos que merecem um lugar no roteiro de quem viaja ao Japão. Kanagawa oferece uma metrópole cosmopolita (Yokohama), uma antiga capital medieval (Kamakura), um dos principais destinos de natureza e águas termais (Hakone), uma ilha de lazer (Enoshima) e uma cidade naval de enorme importância histórica (Yokosuka). Vista do moderno bairro Minato Mirai 21, em Yokohama, no Japão — Foto: Reprodução/Roberto Jr Saldana/Unsplash Com a abertura do Japão para o comércio internacional, na segunda metade do século XIX, Yokohama deixou de ser uma pequena vila de pescadores para se tornar o principal porto do país. Foi por ali que chegaram os primeiros jornais em língua estrangeira, as primeiras companhias ferroviárias e de iluminação pública, as primeiras cervejarias industriais e os esportes ocidentais (em especial o beisebol, que viria a se tornar uma paixão nacional japonesa). Esse caráter cosmopolita é preservado até hoje na cidade de 3,8 milhões de habitantes. Yokohama, por exemplo, tem a maior Chinatown do Japão, um bairro que surgiu junto com o porto e que hoje é um dos símbolos da cidade (e ótimo lugar para quem quer se aventurar pela gastronomia do outro gigante asiático). Também na região portuária fica o Minato Mirai 21, um bairro moderno e planejado que se transformou na maior atração de Yokohama, com restaurantes, hotéis, centros comerciais e muita coisa para ver e fazer, como a roda-gigante Cosmo Clock 21, a Yokohama Landmark Tower (com seus 296 metros de altura), o Red Brick Warehouse (antigos armazéns portuários transformados em centros culturais, lojas e restaurantes), e o divertido Cup Noodles Museum Yokohama, que, além de contar a história do macarrão instantâneo, permite que os visitantes criem seu próprio copo. Na cidade também fica o Estádio Internacional de Yokohama, um dos principais do país, com capacidade para pouco mais de 70 mil espectadores. Para os brasileiros, o lugar tem valor histórico, já que foi o palco da conquista da quinta Copa do Mundo pela seleção brasileira, e dos títulos mundiais de clubes de São Paulo (2005), Internacional (2006) e Corinthians (2012). Kamakura O Grande Buda de Kamakura, no Japão — Foto: Reprodução/Emiliano Lara/Pexels O clima pacato desta cidade de cerca de 170 mil habitantes e a uma hora de trem de Tóquio esconde um passado grandioso. Entre os séculos XII e XIV, Kamakura foi o centro do poder do Japão medieval, servindo como sede do xogunato Kamakura, um dos mais influentes da história do país. Na verdade, o passado glorioso não está escondido, e sim bem visível através dos templos e construções históricas que justificam o apelido de "Kyoto do leste". A herança mais destacada deste período é o Grande Buda de Kamakura, um gigante de bronze com 11 metros de altura que data do século XIII. Outros templos religiosos que merecem destaque são o santuário xintoísta Tsurugaoka Hachimangu, o principal da cidade, e o Templo Hase-dera, conhecido pelos jardins e pela enorme estátua de Kannon, deusa da compaixão. Hakone Passeio de barco ao estilo 'pirata' e vista para o Monte Fuji no Lago Ashi, em Hanoke, no Japão — Foto: Reprodução/Creative Commons Esta pequena cidade nas montanhas é um dos destinos turísticos mais queridos entre os japoneses que buscam escapar da correria das grandes cidades. É uma das referências quando se trata dos onsen, os tradicionais banhos termais, com água de origem vulcânica capazes de relaxar até a alma mais tensa. O ideal é reservar ao menos uma diária num dos muitos ryokans da região, hotéis instalados em casas tradicionais japonesas. Outro programa imperdível é o Lago Ashi, formado em uma antiga cratera vulcânica e que oferece uma vista espetacular do Monte Fuji. Especialmente para quem embarca num dos barcos turísticos em estilo "navio pirata", que oferecem passeios pelo lago. Vale também visitar o Owakudani, vale vulcânico com intensa atividade geotérmica, com fumarolas e fontes sulfurosas que impressionam. Não deixe de provar os ovos cozidos em águas vulcânicas. A casca preta pode assustar, mas, reza a lenda, que quem come um ganha sete anos a mais de vida. A cidade é conhecida também por seu museu de esculturas ao ar livre, com obras de arte espalhadas por gramados e jardins, com as montanhas ao fundo. Há até um pavilhão dedicado a Pablo Picasso. Enoshima Visitantes na ilha de Enoshima, no Japão — Foto: Reprodução/Roméo A./Unsplash Outro destino bastante popular entre os moradores da Grande Tóquio é essa ilha, parte do município de Fujisawa. Ligada ao continente por uma ponte, Enoshima começou a ser frequentada no século VI por motivos religiosos, por conta de um culto à deusa Benzaiten, associada à água, à música, às artes, à sabedoria e à prosperidade. O santuário xintoísta dedicado a ela é na verdade um complexo de construções históricas, que se estende pela encosta da ilha, da parte mais baixa à mais alta. Outras atrações importantes são o farol, apelidado de "Sea Candle", de cujo topo se vê o Monte Fuji; e o Enoshima Aquarium, um dos melhores do país, dedicado à vida marinha da Baía de Sagami, onde fica a ilha. Se tiver tempo, vale a pena também explorar as cavernas de Iwaya, escavadas por milhões de anos pela atividade do mar e que, durante séculos, serviram também de local de peregrinação religiosa. Yokosuka O encouraçado Mikasa hoje é um museu flutuante que conta a história da Marinha do Japão, em Yokosuka — Foto: Reprodução / Wikimedia Commons Apaixonados pelo universo náutico devem incluir esta cidade costeira, de 380 mil habitantes, em seu roteiro. Yokosuka é sede de uma das principais bases da Força Marinha de Autodefesa do Japão, e também da Sétima Frota da Marinha dos Estados Unidos, estabelecida no país logo após a derrota japonesa na Segunda Guerra Mundial. Claro que essas instalações militares não estão abertas à visitação, mas é possível observar, quase de perto, as embarcações durante os passeios de barco pelo porto, oferecidos por agências locais. Outro ponto interessante com vista para os navios é o Verny, um parque à beira-mar, famoso pelos jardins de rosas. O histórico naval militar vem do final século XIX, quando Yokosuka abrigou um dos grandes arsenais da Marinha Imperial, e teve papel fundamental nos conflitos da primeira metade do século XX. Parte dessa história é contada no Memorial Ship Mikasa, um navio de guerra transformado em museu flutuante. O encouraçado Mikasa foi a nau capitânia do almirante Togo Heihachiro na Batalha de Tsushima, evento decisivo da Guerra Russo-Japonesa. Os muitos marinheiros que passaram por Yokosuka nos últimos séculos deixaram suas marcas também na gastronomia local. Não deixe de provar o Yokosuka Navy Curry, uma versão do curry japonês inspirada na alimentação da Marinha Imperial e ainda servida em diversos restaurantes da cidade, e o Yokosuka Burger, hambúrguer criado sob influência da culinária americana.
Região de Kanagawa, berço de um terço da seleção do Japão, mostra que país vai além de Tóquio e Kyoto
Coladas à capital, cidades como Yokohama, Kamakura e Hakone oferecem atrações que vão de palácios históricos a banhos termais








