Sequência quase ininterrupta de jogos faz público pôr de lado filmes, séries... ao menos, por ora 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Salas de teatro e cinema vazias viraram fato comum durante a Copa do Mundo de futebol — Foto: Arte de André Mello RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você O lançamento de "Toy Story 5" registrou queda de 40% de público no país em comparação ao filme anterior. A concorrência com as transmissões esportivas afetou as bilheterias. Com a expansão para 48 seleções, o torneio agora soma 104 partidas. Esse volume inédito de jogos faz com que espectadores adiem séries e maratonas no streaming. No teatro, o impacto foi variado. Enquanto algumas peças registraram salas vazias durante os jogos do Brasil, outras produções mantiveram o público fiel com descontos especiais. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A estreia aguardada há meses já não parece tão urgente. O ingresso do cinema ficou para a semana seguinte. Em casa, a lista de séries televisivas com episódios para pôr em dia só aumenta... Está aí um lance inevitável, a cada quatro anos, para muita gente: enquanto houver bola rolando na Copa do Mundo, o zigue-zague dos dedos pelo controle remoto obedecerá, não tem jeito, à tabela de jogos. Produções de TV e grandes lançamentos de Hollywood têm disputado espaço com uma sequência quase ininterrupta de partidas — aliás, muitas delas acontecem entre seleções que, fora do Mundial, dificilmente mobilizariam tanta atenção. O resultado é uma mudança significativa, apesar de temporária, na geografia do consumo cultural. A título de exemplo, “Toy Story 5”, a maior aposta do cinema americano para este mês — que estreou nas telonas na última semana —, levou 1,68 milhão de espectadores às salas brasileiras nos primeiros sete dias em cartaz. O número, embora expressivo, representa uma queda de mais ou menos 40% em relação ao desempenho de “Toy Story 4”, lançado em 2019 no mesmo período (mas sem a concorrência de uma Copa, e também antes da pandemia e da redução do público de cinema que veio com ela). Em comparação com o último título da franquia, porém, “Toy Story 5” está sendo exibido em solo nacional em 31% mais salas que o antecessor. O analista de mercado Fabiano Ristow, editor do site Filme B, acredita que o movimento tem relação com o futebol. — Historicamente, em dia de jogo do Brasil na Copa (como acontece hoje) sabemos que o país para. Diferentemente de eventos como o carnaval, em que ainda há pessoas que buscam refúgio no cinema, na Copa do Mundo é diferente. Ela afeta bastante o mercado, e os exibidores buscam alternativas — diz Ristow. O Streaming que espere... O fenômeno se acentua por causa da cobertura “multimodal” que o evento esportivo passou a absorver em tempos de conexão constante na internet. O episódio de uma série continuará lá, intacto no streaming, amanhã e depois de amanhã e depois... Mas o meme de algum pênalti, a reação inusitada da torcida, o gol aos 48, o nome que ninguém esperava dizer (quem aí conhecia Vozinha, o goleiro cabo-verdiano alçado a estrela?), a fofoca envolvendo alguma “selesposa” (como vêm sendo chamadas as mulheres casadas com os atletas) ou até mesmo um desses neologismos futebolísticos, tudo isso envelhece em poucas horas. — São muitas subtramas. Vai além da bola rolando — comenta a publicitária paulista Luísa Moura, de 28 anos, que escanteou os seriados, ao menos por ora. — Acho o máximo acompanhar as histórias por trás dos jogos. Nem sempre estou prestando atenção só na partida. Fico vendo os comentários nas redes, as torcidas, as famílias dos jogadores... Para alguns — e, ops, há quem precise deixar quieta esta informação — a Copa ocupa até o expediente. O publicitário Victor Rosa, de 27 anos, trabalha diante de três telas. Em junho, uma delas ganhou função exclusiva: transmitir jogos praticamente o dia inteiro. Ele atendeu à ligação do GLOBO enquanto trabalhava e... acompanhava o confronto entre Equador e Alemanha. No meio da entrevista, chegou a interromper a conversa por alguns segundos, convencido de que tinha visto um pênalti para os alemães. Era alarme falso. — Estou num hiperfoco total com os jogos. Não esperava que fosse ser assim. Mas, num dia desses, me peguei assistindo a Jordânia e Argélia à 1h da manhã — diverte-se. Antes do torneio, o rapaz tentava terminar as 12 temporadas de “Two and a half men” e acompanhava “O último mestre do ar”. Tudo segue em suspensão. Ele também deixou para depois a nova temporada de “A casa do dragão” e faz o possível para driblar os spoilers na internet. Quarenta jogos a mais Não faltam exemplos de quem colocou outros hábitos culturais na reserva. A designer Lizandra Pereira, de São Gonçalo, trocou as maratonas noturnas pelas transmissões esportivas e programas de análise (“Que outra oportunidade eu teria de assistir a um Portugal versus Uzbequistão?”, brinca). O analista de sistemas Edison Santiago, de Curitiba, adiou duas idas ao cinema previstas para junho (para “Dia D”, de Steven Spielberg, e “Supergirl”) porque, segundo ele, “os filmes podem esperar”. Já a analista de dados Ana Cibeli Mendes reorganizou a rotina em função da tabela de jogos e deixou a nova temporada de “A casa do dragão”, sua série predileta, para depois da competição. — Nem é uma decisão difícil — atesta a niteroiense. Fato é que, pela primeira vez, a Copa reúne 48 seleções, 16 a mais do que nas edições anteriores. Com isso, o número de partidas saltou de 64 para 104. Considerando apenas o tempo regulamentar, quem decidir acompanhar todos os jogos passará mais de seis dias diante da televisão — sem contar programas esportivos, podcasts, redes sociais e a infinidade de conteúdos produzidos em torno do torneio. — O que me pega não são só os jogos, mas também a vontade de participar da conversa, conferir a cobertura e acompanhar as notícias. Assim, vira algo capaz de consumir todo o dia — reforça o crítico de cinema Guilherme Jacobs, que reconhece que seu perfil no Letterboxd (rede social em que as pessoas registram os filmes a que assistem) se transformou num “deserto”. — Depois de meio-dia, é futebol atrás de futebol. Perdi coisas que vão de megalançamentos como “Mestres do Universo” até títulos aclamados que venho esperando há algum tempo, como “O bolo do presidente”. A conversa permanente em torno da Copa muda o dia a dia nos lares, a exemplo do casal de servidores públicos Marcelo Cruz e Larissa Gaspar. Fanático por futebol, ele admite que sequer abriu a Netflix desde o início do Mundial e deixou para depois séries como “The Boys”, “Demolidor” e “A casa do dragão”. Larissa acompanha boa parte das partidas, mas, de vez em quando, pede tempo. — Mesmo jogos mais aleatórios eu acabo assistindo por causa do bolão. Mas chega uma hora em que não aguento mais ver futebol e vou para outro quarto ler um livro ou ver um filme bobinho que o Marcelo não quer ver — conta. Na última quarta-feira, enquanto o Brasil enfrentava a Escócia e confirmava a vaga no mata-mata da Copa do Mundo — fase que prossegue hoje, às 14h, contra o Japão — , havia gente com os celulares desligados e alheia aos gritos que escapavam das ruas. Em duas salas de teatro no Rio, o terceiro sinal soou no mesmo horário em que a bola rolava no gramado. E, sim, os espetáculos transcorreram de forma normal ao longo dos 90 minutos de partida. Diferentemente dos cinemas — que cerram as portas durante jogos do Brasil (a única exceção é a rede UCI, que afirmou não ter disponibilidade para comentar a escolha ao ser contatada pelo GLOBO) —, alguns palcos seguem em plena atividade. No Teatro Multiplan, no VillageMall, na Barra da Tijuca, a equipe de “Meu filho é um musical”, inspirado na trajetória do ator e humorista Paulo Gustavo, decidiu manter a programação inalterada desde o início da temporada. A estratégia deu certo: segundo a produção, mesmo concorrendo com a seleção brasileira, o espetáculo tem reunido entre 400 e 500 espectadores em dias de jogo — cerca de metade da capacidade da sala. Há descontos especiais para grupos nessas datas, como ocorreu na estreia do país no campeonato, às 19h de uma sexta-feira (na ocasião, houve duas sessões seguidas, com 600 e 400 pagantes, a maior parte deles formada por mulheres com idades acima dos 50 anos). —Em nenhum momento pensamos em cancelar ou alterar horários em cima da hora, porque acreditamos na força do espetáculo e no compromisso com o nosso público, que se planeja para estar conosco — diz a produtora Renata Borges Pimenta. — Isso mostra que o teatro musical tem um público muito fiel e que há uma demanda reprimida por entretenimento ao vivo que vai além do futebol. Percebemos uma plateia entusiasmada, que muitas vezes escolhe o teatro justamente para celebrar ou estender o clima de festa do dia. E os atores, sabendo de algum gol do Brasil, estão ensaiados a dar, de forma sutil, o placar junto a plateia. No fio da navalha Nem sempre, porém, a conta fecha. Na maior parte dos teatros, a coincidência entre sessões e jogos da seleção inspira apreensão — tanto que parte das produções prefere cancelar apresentações ou adaptar a programação em dias de Copa. Foi o caso de “Elogio da loucura”, que encerrou ontem uma temporada bem-sucedida no CCBB, na capital fluminense. Na última quarta-feira, para evitar o confronto direto com Brasil e Escócia, a produção antecipou o horário da sessão, que terminou pouco antes do apito inicial em campo. Ainda assim, a atriz Leona Cavalli cultivou receio de encontrar a plateia vazia. — Foi um risco manter a peça naquele horário, mas a plateia lotou. Acho que isso mostra que, embora o futebol continue sendo uma paixão nacional, hoje existe uma diversidade maior de interesses. A arte e o esporte sempre se encontraram — diz a atriz, que, terminada a apresentação, correu para a casa da colega Nathalia Timberg, com quem acompanhou a partida junto a mais amigos em comum. A experiência de Rodrigo Penna não foi bem a mesma. O diretor viu a derradeira sessão da temporada do espetáculo “Aurora” — no Teatro Poeira, em Botafogo — coincidir justamente com o horário do duelo entre Brasil e Escócia. Embora boa parte dos ingressos já tivesse sido vendida, mais da metade dos espectadores desistiu de comparecer, deixando vazia a maior parcela das cadeiras na plateia. — Foi melancólico fechar uma temporada tão bonita desse jeito — reconhece o diretor. — E não deixa de ser simbólico, sabe? Isso mostra que o jogo nunca está ganho para a cultura, especialmente para o teatro. Mas, tudo bem, sem drama, né? O que importa é que a temporada foi linda. E bola pra frente... * Lívia Mendes é estagiária sob supervisão de Gustavo Cunha
Com o maior número de partidas da história, Copa muda hábitos de consumo na cultura
Sequência quase ininterrupta de jogos faz público pôr de lado filmes, séries... ao menos, por ora







