Começam nesta segunda-feira, no Fórum Criminal da Barra Funda, na zona oeste de São Paulo, as audiências que marcam o encerramento da fase de instrução do processo que apura a morte da soldado da Polícia Militar de São Paulo Gisele Alves Santana. Acusado de matar a esposa, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto será ouvido, assim como testemunhas de acusação e de defesa, em sessões previstas até o dia 3 de julho. Concluída essa etapa, caberá ao Judiciário decidir se o oficial será levado a julgamento pelo Tribunal do Júri por feminicídio. Ao longo dos cinco dias de audiência, estão previstos os depoimentos de 42 testemunhas arroladas pela acusação e pela defesa. Entre elas estão policiais militares, peritos, investigadores e pessoas próximas ao casal que podem contribuir para a reconstituição dos fatos. Veja o calendário: Neto responde pelos crimes de feminicídio e fraude processual. Segundo a acusação, ele teria matado a esposa com um tiro na cabeça e alterado a cena do crime para simular um suicídio. A defesa nega as acusações. Em abril, o Superior Tribunal de Justiça decidiu que o caso deve tramitar na Justiça comum, sob responsabilidade da 5ª Vara do Júri da capital paulista, e não na Justiça Militar. Caso o juiz entenda que há provas suficientes da materialidade do crime e indícios de autoria, o tenente-coronel será levado a julgamento por jurados populares. Relembre o caso A policial militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, foi encontrada morta no apartamento em que o casal morava na região central de São Paulo em 18 de fevereiro. Laudos necroscópicos e pós-exumação apontaram que o tiro que a matou foi desferido com a arma encostada à têmpora direita, de baixo para cima. Além disso, ela teria sido abordada por trás, com a mão esquerda do agressor apertando sua face e pescoço. A arma foi empunhada e disparada pela mão direita do atirador, segundo os exames. Outro ponto que levantou suspeitas foi a posição da arma usada no crime. Quando os primeiros policiais chegaram ao apartamento viram a vítima caída na sala, em frente à televisão. Em sua mão direita, a arma estava presa a um de seus dedos, o que é inusual em casos de suicídio. Em geral, o revólver se solta das mãos, segundo peritos. Diante das evidências, os investigadores afastaram a hipótese de suicídio. "O mosaico probatório, portanto, afasta a hipótese de suicídio e indica que Gisele foi abordada por trás, com mão esquerda do agressor na mandíbula/face e arma na mão direita dirigida à têmpora direita; após o disparo, o corpo foi deposto ao chão, houve escoamento sanguíneo e manipulações subsequentes (inclusive posição da arma na mão), com limpeza/banho do autor, sendo o investigado a única pessoa com ela antes do fato e o primeiro a intervir na cena, o que robustece a autoria em seu desfavor", diz trecho do despacho do juiz militar. Visão do box para a sala Além de fazer a perícia no local do crime, os policiais civis realizaram uma reprodução simulada do ocorrido no apartamento em que Gisele morava com o marido. Um dos pontos que chamaram a atenção dos investigadores foi o fato de Geraldo Neto ter dito que tomava banho quando ouviu o disparo de uma arma, vindo da sala. Na sequência, ele teria visto, pelo vidro do box e pela porta do banheiro, a esposa caída. Porém, para os peritos, a dinâmica do local impediria que Geraldo Neto tivesse tal visão. Além disso, com uso de resíduos e substâncias, eles localizaram marcas de sangue no banheiro, tanto no box quanto nas paredes e no piso. "A reprodução simulada e a perícia (...) identificaram luminol positivo no box, paredes, piso e registros do banheiro usado pelo investigado, toalha rosa com reação positiva e bermuda jeans dele com padrão de gotejamento latente, tudo em frontal contradição com a versão de que não teve contato com o sangue nem manipulou a cena. Ainda, a reconstrução tridimensional do ambiente concluiu que, da porta do banheiro, não era possível visualizar o corpo na posição registrada nas fotos de chegada dos socorristas, com ou sem a árvore de Natal na sala, contrariando a narrativa do investigado". Assédio no trabalho Segundo colegas de trabalho de Gisele, em depoimentos citados na decisão judicial, o relacionamento do casal era marcado por episódios de ciúmes e comportamento controlador por parte do marido. Os relatos dão conta de que o tenente-coronel frequentemente comparecia ao local de trabalho dela, mesmo não tendo atribuição funcional ali. De acordo com as declarações, ele se utilizava de sua condição hierárquica (inicialmente como major, depois como tenente coronel) para entrar na Seção de Logística, permanecendo por vezes longos períodos, sentado próximo a Gisele e observando suas atividades, o que causava desconforto entre os integrantes da equipe.
Caso PM Gisele: audiências do processo contra tenente-coronel acusado de feminicídio começam nesta segunda
Delegados, peritos e familiares serão ouvidos; interrogatório do réu está previsto para o último dia da instrução










