O mieloma múltiplo é um tipo de câncer hematológico que afeta as células plasmáticas, um tipo de glóbulo branco produzido na medula óssea 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Eliana Mafra, 60 anos. Diagnosticada com Mieloma Múltiplo desde 2023. — Foto: Edilson Dantas / O Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 25/06/2026 - 14:40 Cresce Mieloma Múltiplo em Jovens: Avanços e Desafios no Tratamento O mieloma múltiplo, um câncer hematológico raro que afeta as células plasmáticas, tem mostrado aumento entre jovens. O diagnóstico é desafiador, mas avanços terapêuticos nas últimas décadas elevaram a expectativa de vida de 1-2 anos para mais de 10. O tratamento CAR-T Cell é promissor, mas o acesso contínuo a terapias ainda enfrenta dificuldades. Pacientes destacam a necessidade de novas opções e suporte multidisciplinar. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO “Senti uma fisgada do lado direito, na altura da costela, mas achei que era da academia. Só que a dor evoluiu e ficou muito forte. Fui ao hospital e me receitaram anti-inflamatório. Fui de novo, e me mandaram procurar um ortopedista. Resumindo, passei exatamente um ano com a dor e muito cansaço até receber o diagnóstico de mieloma múltiplo”, conta Eliana Mafra, de 60 anos, que foi diagnosticada com o câncer 2023, após ir ao hospital por causa de um cálculo renal. O mieloma múltiplo é um tipo de câncer hematológico que afeta as células plasmáticas, um tipo de glóbulo branco produzido na medula óssea. Como resultado, o câncer afeta principalmente os ossos e os rins. Segundo os especialistas, trata-se de uma doença relativamente rara, que corresponde a cerca de 1% de todos os tipos de câncer. Isso representa cerca de 8 mil novos casos anuais só aqui no Brasil. Mas ainda não há estatísticas oficias no país. De acordo com a hematologista Vânia Hungria, cofundadora e presidente do conselho científico da International Myeloma Foundation Latin America (IMF) e professora adjunta na Santa Casa de São Paulo, 80 a 90% dos pacientes apresentam comprometimento ósseo, que podem evoluir para ossos frágeis e fraturas espontâneas, em especial na coluna vertebral. As células cancerígenas também vão infiltrando na medula e atrapalhando a produção da série vermelha. Como resultado, 60% dos pacientes têm anemia e sintomas relacionados a isso, como fadiga. Além disso, 20% dos pacientes têm insuficiência renal. —E por conta de todas essas alterações dos anticorpos, os pacientes ficam imunossuprimidos e têm muita infecção — diz a médica. Um estudo feito no Reino Unido mostrou que, em média, um paciente com mieloma múltiplo consulta seu médico da atenção primária três vezes com sinais e sintomas compatíveis com a doença antes de o diagnóstico ser considerado. — Na maioria dos pacientes, os sintomas persistem por um longo período antes do diagnóstico ser estabelecido, já que não há um sinal ou sintoma simples, como ocorre com o câncer de mama ou de cólon, que nos faça pensar nessas doenças. A maioria das pessoas, ao apresentar os primeiros sintomas, sente-se fatigada, tem anemia ou dor óssea. Esses são sintomas muito comuns na medicina. Portanto, esse diagnóstico tardio sempre foi um dos grandes desafios do mieloma — ressalta o médico Joseph Mikhael, diretor médico da Fundação Internacional de Mieloma. No Brasil, uma pesquisa realizada pela Abrale – Associação Brasileira de Câncer do Sangue mostra que o caminho até o diagnóstico também é longo e, muitas vezes, tardio. Cerca de 42% dos pacientes procuraram um médico após o surgimento de sintomas, principalmente dor óssea, cansaço e fraqueza. Mas quase metade dos entrevistados (47%) atestou que teve dificuldade para ter o diagnóstico confirmado. De acordo com Hungria, existe um exame de sangue simples, chamado eletroforese de proteínas, que sinaliza o mieloma múltiplo. Se isso acontecer, é preciso realizar exames adicionais, incluindo um aspirado da medula óssea, para ver se os plasmócitos estão aumentados. Em geral, a condição é mais comum em pessoas acima de 60 anos, mas, nos últimos anos, ela tem aumentado em pacientes jovens. Um estudo abrangente encabeçado por pesquisadores de Harvard mostrou que seis tipos de câncer estão aumentando de forma mais rápida entre os jovens do que entre os idosos e o mieloma múltiplo é um deles. De acordo com Mikhael, está mais relacionado com “testes melhores e uma busca mais atenta pelo diagnóstico do que, de fato, com a identificação de uma mudança ambiental ou de algum tipo que esteja causando a maior incidência em indivíduos mais jovens”. Na maioria dos casos, não se sabe o que causou o mieloma. O envelhecimento é o principal fator de risco. Pessoas negras também correm um risco aumentado, assim pessoas do sexo masculino. A exposição a alguns produtos tóxicos e a obesidade também são fatores de risco. Se por um lado o diagnóstico do mieloma múltiplo ainda é um desafio, o tratamento evoluiu substancialmente nas últimas décadas. — O que mudou drasticamente nos últimos 20 anos, e ainda mais nos últimos cinco, foi o desenvolvimento de novos tratamentos, de modo que agora o prognóstico dos pacientes melhorou muito. Quando comecei a trabalhar com mieloma múltiplo, há mais de 25 anos, a maioria dos nossos pacientes vivia, no máximo, um ou dois anos. Era um câncer terrível. — diz Mikael. — Passamos de uma expectativa de vida de um a dois anos para uma média de mais de 10 anos. E isso numa doença em que a idade média do diagnóstico se situa entre os 65 e os 69 anos — completa o médico. Um relatório elaborado pela American Cancer Society mostrou que a probabilidade de um paciente estar vivo cinco anos após o diagnóstico dobrou, passando de 32% em 2000 para 62% atualmente, o que reflete a revolução nas opções terapêuticas disponíveis. Estes resultados podem ser atribuídos aos avanços terapêuticos e a adoção do transplante autólogo de medula óssea próprio paciente para tratar cânceres, principalmente mieloma múltiplo e linfomas, como parte do tratamento. O mieloma não tem cura, pois os pacientes enfrentam recidiva (quando a doença retorna) e refratariedade (quando não responde aos tratamentos). Por isso, múltiplas opções de terapia são importantes na jornada de quem vive com a doença. Além disso, a maioria precisa fazer tratamento contínuo. — É uma doença que ainda não tem cura, que os pacientes podem recair. Começamos a falar em cura funcional, que são pacientes que fazem o tratamento e ficam muito tempo em remissão — diz Hungria. Eliana, por exemplo, recaiu precocemente, após dois tipos de tratamento que não conseguiram controlar a doença - incluindo o transplante autólogo. Mas ela teve a possibilidade de receber um tratamento de ponta na segunda linha que é um CAR-T Cell chamado Carvykti, da Johnson & Johnson Innovative Medicine, aprovado no Brasil para o tratamento de mieloma. Essa terapia, aplicada em uma única infusão, usa as células geneticamente modificadas do próprio paciente para combater o tumor. Estudo mostram que ele proporciona remissões duradouras por pelo menos 5 anos, além de pacientes livres de tratamento. Desde esse tratamento, o mieloma de Elaine segue em remissão e ela está ativa, trabalhando, praticando exercícios e vivendo. Mas a realidade para a maioria dos pacientes é outra. A pesquisa da Abrale mostrou que embora o início do tratamento seja um pouco mais ágil: 41,6% dos pacientes começaram a tratar a doença entre uma semana e um mês após a confirmação diagnóstica, o acesso contínuo à terapia ainda apresenta falhas. Cerca de 17% relataram ter interrompido o tratamento em algum momento por falta de medicamentos, evidenciando fragilidades na organização da assistência Os especialistas concordam que os avanços das últimas décadas não só aumentaram o tempo de vida, como a qualidade de vida dos pacientes. Mas ela está longe de ser satisfatória para a maioria. Apesar de todos esses avanços, os impactos da doença e do tratamento na vida cotidiana são expressivos, principalmente para os pacientes que precisam de tratamento contínuo. Cerca de 64% dos pacientes entrevistados pela Abrale apontam prejuízos à saúde física e ao dia a dia, enquanto o mesmo percentual relata impacto no bem-estar emocional. Além disso, 61% afirmam que as idas constantes ao médico afetam a rotina, e 60% destacam os efeitos colaterais como um dos principais desafios do tratamento. Quando questionados sobre o que poderia melhorar sua jornada, 58% citaram o acesso a novas opções terapêuticas, enquanto 41% destacaram a importância do suporte de uma equipe multidisciplinar. Apoio psicológico (37%) e suporte financeiro (36%) também aparecem como necessidades relevantes. Em relação às prioridades individuais, 59% dos pacientes apontam a manutenção da autonomia e da qualidade de vida como o aspecto mais importante durante o tratamento, enquanto 23% destacam o desejo de viver o máximo possível. — Os dados reforçam a necessidade de fortalecer políticas públicas e estratégias de cuidado que garantam diagnóstico mais precoce, equidade no acesso às terapias e uma abordagem mais ampla e humanizada ao paciente com mieloma múltiplo — avalia a médica sanitarista Catherine Moura, CEO da Abrale.