Especialista reúne evidências científicas para explicar como aprendemos, tomamos decisões e desenvolvemos nossas capacidades cognitivas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Para Manuel Martín-Loeches, a estimulação e a boa alimentação na infância são determinantes — Foto: Gentileza RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 25/06/2026 - 18:46 Neurocientista Desmistifica Inteligência Humana: Emoção e Razão Unidas O neurocientista Manuel Martín-Loeches explora a complexidade da inteligência humana, desmistificando a ideia de que o pensamento é um processo puramente racional. Ele argumenta que a inteligência surge em situações incertas e destaca a interconexão entre emoção e razão. Além disso, discute o impacto do ambiente no desenvolvimento cognitivo e critica a teoria das inteligências múltiplas, defendendo uma visão integrada das capacidades cognitivas. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O ato de pensar costuma ser imaginado como uma atividade limpa, quase cirúrgica, isolada do ruído das emoções. Uma espécie de laboratório interior onde as ideias se organizam sozinhas, como se o cérebro fosse uma máquina racional que funciona melhor quanto mais se aproxima de um algoritmo. No entanto, essa imagem é tão sedutora quanto incompleta. A mente humana se parece mais com um ecossistema do que com uma engrenagem, mais com uma conversa do que com uma equação. É nesse território híbrido, onde convivem impulsos, memórias, intuições e raciocínios, que Manuel Martín-Loeches trabalha há décadas. Professor de Psicobiologia e responsável pela área de Neurociência Cognitiva do Centro Misto UCM-ISCIII de Evolução e Comportamento Humanos, ele reúne em sua trajetória mais de cem publicações científicas e diversos livros que procuram traduzir a complexidade do cérebro em perguntas cotidianas: para que serve a inteligência? Por que emoção e razão parecem inseparáveis? O que realmente define uma pessoa inteligente? As respostas são mais importantes do que parecem. Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que o desenvolvimento cognitivo nos primeiros anos de vida é fortemente influenciado pelo ambiente, com impactos que podem se estender por toda a trajetória escolar. Ao mesmo tempo, pesquisas em neurociência cognitiva indicam que as áreas do cérebro ligadas à emoção e ao raciocínio estão profundamente conectadas. Estudos do neurologista Antonio Damasio, como os apresentados no livro O Erro de Descartes, demonstraram que a tomada de decisões é profundamente afetada quando os circuitos emocionais sofrem alterações. Na mesma linha, pesquisas publicadas na revista Nature Reviews Neuroscience apontam uma interação constante entre redes emocionais e cognitivas. A partir daí, o debate científico avança entre mitos e evidências, passando pela discussão sobre inteligências múltiplas, o papel do ambiente, o amadurecimento cerebral e a relação entre conhecimento e bem-estar. A inteligência mudou de definição ao longo do tempo? Talvez nos últimos 150 anos, mas existe um consenso relativamente amplo sobre o conceito. Hoje, inteligência costuma ser definida como a capacidade de aprender, fazer julgamentos e resolver problemas de forma geral. Há outra definição de que gosto mais, atribuída ao psicólogo Carl Bereiter: inteligência é aquilo que você usa quando não sabe o que fazer. Aplicar algo já aprendido depende do conhecimento prévio. A inteligência aparece de forma mais clara em situações novas, sem precedentes, quando surgem ideias originais e soluções criativas. O senhor discorda da teoria das inteligências múltiplas. Por quê? O autor dessa teoria, Howard Gardner, propõe a existência de oito inteligências em muitas de suas formulações, mas esse número não possui uma base empírica clara. Trata-se mais de uma classificação conceitual do que de uma conclusão obtida pelo método científico. Os dados disponíveis mostram que diferentes habilidades cognitivas costumam estar relacionadas entre si. Pessoas que apresentam bom desempenho em uma área geralmente também se destacam em outras, ainda que existam diferenças individuais. Por isso, considero mais adequado falar em capacidades ou aptidões do que em inteligências independentes. A inteligência funciona como um fator geral que integra essas capacidades, e um único índice, como o quociente de inteligência (QI), costuma ser suficiente para descrevê-la de forma global. Inteligência e maturidade caminham juntas? Do ponto de vista evolutivo, cérebros que levam mais tempo para amadurecer tendem a alcançar níveis maiores de complexidade. O cérebro humano é um exemplo disso, já que pode completar seu desenvolvimento apenas entre os 21 e os 25 anos. Esse período prolongado existe porque precisamos adquirir aprendizagens complexas, especialmente no campo social e emocional. Mas um desenvolvimento mais lento não garante automaticamente melhores resultados. Existe uma janela de tempo em que determinadas habilidades precisam ser adquiridas. Se isso não acontece, a pessoa alcança a maturidade cerebral, mas com limitações que podem acompanhá-la ao longo da vida. Como a vida digital afeta a inteligência? Ela faz parte das experiências que moldam o cérebro. Como qualquer estímulo, seus efeitos dependem da qualidade e da diversidade das interações que proporciona. O cérebro humano evoluiu em contato direto com o ambiente físico. Experiências sensoriais, movimento e interação concreta com o mundo são elementos fundamentais para a construção do conhecimento. Uma vida excessivamente mediada por telas pode empobrecer parte dessa experiência, especialmente quando substitui o contato direto com a realidade. Qual é a influência do ambiente na inteligência? Enorme. Existe uma base genética, mas o desenvolvimento posterior depende fortemente das experiências vividas, sobretudo nos primeiros anos de vida. Nos três ou quatro primeiros anos, desenvolvem-se as áreas cerebrais ligadas à percepção e ao movimento. Elas funcionam como a base sobre a qual serão construídas as capacidades cognitivas mais complexas. A qualidade dos estímulos visuais, auditivos, táteis e motores, além de uma alimentação adequada, é determinante. Carências nesses aspectos podem comprometer o desenvolvimento de forma profunda e duradoura. Se a inteligência não foi suficiente para evitar guerras e violência, o que deveríamos desenvolver? A inteligência nos ajuda a compreender melhor a realidade, inclusive nossas próprias limitações. Esse conhecimento pode reduzir comportamentos prejudiciais, embora eliminá-los completamente seja algo mais complexo. A humanidade melhorou diversos indicadores de bem-estar ao longo do tempo, o que sugere um avanço gradual na compreensão de si mesma. Nesse contexto, habilidades ligadas ao autoconhecimento e à regulação emocional aparecem como complementos importantes para que a inteligência contribua de forma mais efetiva para o bem-estar coletivo. Qual é a relação entre inteligência e emoções? A relação é estreita e complexa. As áreas cerebrais envolvidas nesses dois processos estão diretamente conectadas, influenciando-se mutuamente o tempo todo. Pessoas com níveis mais elevados de inteligência costumam apresentar maior conhecimento sobre suas emoções e mais capacidade para regulá-las, embora existam exceções. Um conceito importante é o da granularidade emocional: a capacidade de identificar e nomear com precisão diferentes estados emocionais. Quanto mais amplo for esse vocabulário emocional, maior tende a ser a compreensão e o gerenciamento das próprias experiências internas. Do ponto de vista funcional, a inteligência está a serviço das emoções. O comportamento humano busca alcançar estados positivos e evitar os negativos, e a inteligência funciona como uma ferramenta para ajudar nesse processo.
'A inteligência surge justamente no momento em que deixamos de saber o que fazer', diz Manuel Martín-Loeches, neurocientista
Especialista reúne evidências científicas para explicar como aprendemos, tomamos decisões e desenvolvemos nossas capacidades cognitivas
Inteligência emerge em situações novas quando não sabes o que fazer; cérebro até aos 25 anos moldado pelo ambiente. Para team upskilling e AI, emoção e razão integradas desafiam automação decisória; experiências diretas superam sobrecarga digital.







