No turbinado mercado do futebol que, durante a Copa do Mundo, movimenta bilhões de reais em transferências entre clubes, um movimento singelo na semana passada pode ser considerado um negócio mais impactante do que a compra de Curcurella pelo Real Madrid ou a de Anthony Gordon pelo Barcelona. Aos 59 anos, o japonês Kazuyoshi Miura, o primeiro nipônico a jogar no Brasil, renovou seu contrato por mais uma temporada com o Fukushima United, da terceira divisão do Japão. Isso significa que o "Rei Kazu", como é chamado, vai jogar, pelo menos, até os 60 anos, o jogador mais velho do esporte. Antes mesmo da chegada de Zico em terras japonesas nos anos 90, a relação futebolística entre Brasil e Japão já havia dado seus primeiros passos com Kazu, que na década de 80 tornou-se o primeiro nipônico a atuar no futebol brasileiro. O que foi um intercâmbio de experiências décadas atrás, agora se transformou em confronto. Nesta segunda (29), a seleção brasileira enfrenta o Japão por uma vaga nas oitavas de final da Copa do Mundo. Na quinta-feira (25), o Fukushima United, da terceira divisão do Japão, anunciou a renovação do empréstimo de Kazu Miura - que pertence ao Yokohama FC - por mais uma temporada, a 42ª de sua carreira. Assim, ele ainda estará atuando até, pelo menos, os 60 anos, idade que completa em fevereiro do ano que vem. Kazu Miura durante sua passagem pelo Coritba, nos anos 80 — Foto: Arquivo Pessoal Na última temporada, Kazu teve participação modesta pelo Fukushima, clube que chegou nesse ano, após uma passagem pelo Oliveirense, de Portugal. Em 2026, ele participou de seis jogos da equipe. Ano passado, no período em que estava sem clube, ele já havia respondido que não pensava em se aposentar em entrevista ao site da Fifa. — Aposentadoria? Nem por um segundo (eu penso). Dito isso, quando eu tinha cerca de 35 ou 40 anos, comecei a dizer a mim mesmo: 'Não posso continuar jogando assim'. Em vez de pensar em desistir, era mais uma questão de me esforçar para entregar mais. Nesse sentido, venho criando autodisciplina. Não é que a palavra 'aposentadoria' não esteja no meu vocabulário, mas sim que nunca senti desejo de fazer isso. Início da carreira Kazu cresceu em uma época em que não existia futebol profissional organizado no Japão. Por isso, aos 15 anos, o filho de um empresário milionário decidiu vir ao Brasil tentar a sorte. Ele integrou as categorias de base do Juventus (SP), e lá chamou a atenção do Santos, que o contratou aos 18 anos. Foi no time de Pelé que Kazu estreou profissionalmente. Sua primeira partida foi em 9 de abril de 1986, pelo Campeonato Paulista, justamente contra o Juventus. Logo depois, foi emprestado ao Palmeiras para participar de uma turnê de amistosos no Japão. No ano seguinte foi cedido ao CRB de Alagoas, onde conquistou seu primeiro título, o campeonato estadual alagoano. Sem se firmar no Santos, acumulou novos empréstimos, como ao XV de Jaú e o Coritiba. Pelo primeiro, se tornou o primeiro japonês a fazer um gol no futebol brasileiro, em 1988, contra o Corinthians, pelo Paulistão. Já no Coritiba conquistou seu segundo título, o estadual paranaense. Kazu com uma bandeira do Japão após vitória contra o Irã nas eliminatórias para a Copa de 98 — Foto: AP /Mark Fallander Em 1990 retornou ao Santos, e chegou a ser apelidado de "exterminador verde" devido a uma atuação de destaque contra o Palmeiras. Mas, meses depois, voltou à sua terra natal, para defender o Yomiuri (atual Tokyo Verdy). Moldado no Brasil Na mesma entrevista ao site da Fifa, Kazu destacou a influência brasileira em sua formação. — Meu senso de profissionalismo, minha postura de vencer ou morrer e minha atitude em relação aos treinos foram todos moldados no Brasil — explicou o japonês, que frisou que "tinha que ser no Brasil" o início da sua trajetória. — A alegria da vitória, a dor da derrota e o significado do trabalho duro, aprendi tudo isso no Brasil. Acredito sinceramente que o fato de ainda estar jogando é graças à experiência que adquiri quando estive lá. Acho que um jogador que esteve no topo do futebol japonês teria dificuldades para continuar jogando em clubes locais em ligas inferiores, mas eu não tenho problema com isso por causa do meu tempo no Brasil. Nas últimas décadas, Rei Kazu peregrinou pelo mundo. Além de clubes brasileiros e japoneses, ele jogou no Genoa, da Itália, no Dínamo de Zagreb, da Croácia, Oliveirense, de Portugal, e no Sidney FC, da Austrália, pelo qual disputou o Mundial de Clubes de 2005. Passagem pela seleção Em 1994, foi o artilheiro da seleção japonesa nas eliminatórias para a Copa do Mundo, mas a seleção perdeu a vaga aos 45 minutos do segundo tempo em um jogo contra o Iraque. Aquele gol contra, que selou o empate e a eliminação japonesa, ficou conhecido "a Agonia de Doha". No ciclo seguinte, Kazu seguiu como peça importante do time, mas, aos 31 anos, não esteve na convocação final para a Copa de 1998, a estreia japonesa em mundiais. A ausência chamou a atenção na época, e ele decidiu se aposentar da seleção. Em 2012, ele finalmente participou de uma Copa do Mundo pelo Japão, mas de futsal. A momentânea transição de carreira lhe fez ser o jogador mais velho a já ter disputado um mundial da categoria. Kazu a Copa do Mundo de Futsal pelo Japão em 2012 — Foto: AFP PHOTO/ PORNCHAI KITTIWONGSAKUL Esperança no Japão Na mesma entrevista para a Fifa, Kazu elogiou a atual seleção japonesa, em especial Takefusa Kubo, um dos destaques do time. O ponta direita da Real Sociedad perdeu as últimas duas partidas da fase de grupos, devido a uma lesão no joelho esquerdo, mas voltou a treinar com bola e tem chances de jogar contra o Brasil. — Individualmente, acho que a atual seleção do Japão pode enfrentar qualquer um de igual para igual. Todos os jogadores são especiais, mas acho que Takefusa Kubo se destaca mesmo nesse grupo. Ele não tem muito porte físico e você não o verá empurrando os defensores, mas ele é muito inteligente e usa isso a seu favor. Realmente gosto disso nele — explicou Kazu, em 2025. — Não existe nada impossível, mas não parece que será fácil. Ao lembrar que nem sempre os favoritos vencem na Copa, o jogador recorreu mais uma vez à história brasileira. — Não é sempre a equipe mais forte que ganha. Como exemplo, a equipe do Brasil de 2006 era excepcional, mas ainda assim não venceu. Ela tinha Ronaldinho, Adriano, Roberto Carlos e Cafu. Qualquer um deles poderia ter ganhado uma Bola de Ouro, mas não foi o suficiente. No futebol, não é sempre a equipe mais forte que vence — explicou Kazu Miura.