Medida é altamente incomum nos EUA e se baseia em clássicos da literatura, deixando títulos que figuram entre os mais lidos de fora; especialistas questionam falta de representatividade 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Texas aprova lista de leituras obrigatórias para escolas públicas que inclui trechos da Bíblia — Foto: Sandy Huffaker/The New York Times RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 26/06/2026 - 19:31 Texas Adota Leituras Bíblicas Obrigatórias em Escolas Públicas, Gerando Debate sobre Diversidade e Separação Igreja-Estado O Texas aprovou uma lista de leituras obrigatórias para escolas públicas, incluindo trechos da Bíblia, algo incomum nos EUA, onde geralmente escolas ou professores escolhem os textos. A medida reflete políticas conservadoras e levanta debates sobre representatividade e separação entre igreja e Estado. Críticos apontam falta de diversidade e questionam a inclusão religiosa, enquanto defensores alegam valor cultural e literário. A lista visa aumentar o rigor educacional, mas enfrenta resistência por sua ênfase em clássicos e textos históricos predominantemente de autores brancos. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O Texas aprovou nesta sexta-feira uma nova e abrangente lista estadual de livros, que estabelecerá pela primeira vez um conjunto comum de obras que milhões de estudantes em todo o estado deverão ler, incluindo trechos da Bíblia. É altamente incomum — talvez sem precedentes — que um estado, em vez de uma escola ou de um professor, determine uma lista de leitura para todos os níveis escolares para todos os estudantes da rede pública. Se for aprovada, a lista vai influenciar o que uma geração de estudantes do Texas crescerá lendo. O estado abriga mais de 5 milhões de alunos da rede pública, o que representa 11% do total de estudantes de escolas públicas dos Estados Unidos. A lista reflete as prioridades do conselho estadual, que conta com uma maioria republicana de 10 a 5. Ela privilegia a literatura clássica e inclui trechos da Bíblia. A lista estava sendo editada até a tarde de sexta-feira, mas a minuta incluía livros como “A Menina e o Porquinho” (Charlotte’s Web), de E.B. White (3ª série), “A Noite”, de Elie Wiesel (8ª série), e “Hamlet”, de William Shakespeare (12ª série). Ao menos um trecho da Bíblia está incluído na maioria dos níveis escolares, a partir do final do ensino fundamental, o que tem gerado intenso debate. Autoridades da educação do Texas afirmam que a Bíblia é uma peça essencial da literatura e importante para entender a fundação e a cultura dos Estados Unidos. Críticos argumentam que incluí-la nas aulas de inglês viola a separação entre igreja e Estado e faz parte de um esforço mais amplo para introduzir o cristianismo nas escolas públicas do Texas. — O governo do Texas, muito menos qualquer órgão governamental americano, nunca deveria se envolver em impor uma religião a todos — disse Rachel Laser, presidente da organização Americanos Unidos pela Separação entre Igreja e Estado, que contestou uma lei que exige a exibição dos Dez Mandamentos nas salas de aula do Texas. A nova lista do Texas também é um esforço para elevar o nível de rigor e fazer com que mais alunos leiam. Menos estudantes estão lendo livros completos nas aulas de inglês ou em casa, e as notas de leitura nos EUA estão em queda há uma década. Alguns líderes educacionais e formuladores de políticas acreditam que dar ênfase a livros completos é cada vez mais essencial para combater o avanço da tecnologia, especialmente da inteligência artificial. A lista do Texas surge em resposta a uma lei estadual de 2023 que exigia que as autoridades educacionais selecionassem pelo menos uma obra literária para cada nível escolar. O conselho estadual foi além, definindo uma série de textos para cada série. Os professores do Texas ainda poderão ensinar livros que não estejam na lista, mas precisarão encontrar tempo adicional para isso, além das obras obrigatórias. As seleções têm sido criticadas por darem ênfase a textos mais antigos, frequentemente escritos por autores brancos e homens, em um estado onde mais da metade dos estudantes é hispânica ou negra. — Com uma lista tão extensa, os professores teriam tempo ou espaço para escolher textos que sejam realmente adequados para seus alunos, suas salas de aula e suas regiões? — questionou Markesha Tisby, presidente do Conselho de Professores de Língua Inglesa do Texas, que defendeu a redução da lista para permitir mais liberdade de escolha aos docentes. — O Texas é extremamente grande e muito diverso. Foco na literatura clássica A proposta para alunos do ensino fundamental e médio (K-12) apresentada ao conselho incluía cerca de 200 textos. Para alunos do ensino fundamental, a lista incluía clássicos como “The Very Hungry Caterpillar” (“A Lagarta Muito Comilona”), de Eric Carle. Também trazia vários livros sobre os Pais Fundadores dos EUA e figuras históricas, além de trechos de “The Children’s Book of Virtues”, uma antologia de histórias editada por William J. Bennett, secretário de Educação durante o governo de Ronald Reagan. No ensino médio e no ensino secundário, dois livros principais seriam obrigatórios por ano, junto com outros poemas, discursos, textos históricos e trechos bíblicos relacionados. Por exemplo, alunos do 10º ano leriam “A Tragédia de Júlio César”, de William Shakespeare, e “A Divina Comédia (Inferno)”, de Dante Alighieri. Entre outros textos, também leriam o discurso “I’ve Been to the Mountain Top” do reverendo Martin Luther King Jr., o famoso poema “The Raven” de Edgar Allan Poe, o elogio fúnebre de Margaret Thatcher a Reagan e um trecho do Livro de Jó. A lista segue uma abordagem educacional clássica, popular entre conservadores, que defende que os estudantes devem ler textos que resistiram ao teste do tempo. — Você não sabe o que é um clássico até 50 ou 60 anos depois da morte do autor — afirmou Jeremy Tate, fundador do Classic Learning Test, uma alternativa ao SAT e ao ACT, exames que avaliam a competência de alunos do ensino médio. Embora a definição de um conjunto comum de textos inevitavelmente gere debate, ele disse: “é melhor ter um cânone comum que possa fornecer algum terreno cultural compartilhado — uma base para debates — do que não ter cânone nenhum”. Membros democratas do conselho estadual e alguns educadores do Texas criticaram a falta de diversidade da lista em termos de raça, geografia e período histórico, argumentando que isso dificultará o engajamento dos alunos. — Há uma tentativa real de fazer com que os alunos não se vejam nessas listas — pontuou Jonna Perrillo, professora de inglês na Universidade do Texas em El Paso, que observou que há poucos autores texanos e poucos livros contemporâneos na lista, especialmente no nível do ensino médio. Trechos bíblicos seriam obrigatórios na maioria das séries Segundo a proposta, os alunos leriam pelo menos um trecho da Bíblia por ano, a partir do 4º ano. Os trechos incluem “A Necessidade da Humildade”, do Evangelho de Lucas, e “Para tudo há uma estação”, do Livro de Eclesiastes. No ensino médio, as passagens bíblicas seriam incluídas em unidades temáticas junto com um livro. Por exemplo, “A definição do amor”, de 1 Coríntios, seria estudado junto com “Orgulho e Preconceito”, de Jane Austen, no 12º ano. — Existe uma diferença entre proselitismo e o uso de grandes obras da literatura — argumenta Mandy Drogin, pesquisadora sênior da Texas Public Policy Foundation, um think tank conservador que apoia as mudanças. Mas a lista tem recebido objeções de professores, pais, alunos e líderes religiosos que testemunharam diante do conselho nesta semana. David Segal, um rabino que trabalha para o Comitê Conjunto Batista pela Liberdade Religiosa, afirmou que a lista mostra preferência por versões evangélicas da Bíblia, frequentemente a versão King James, o que pode representar “uma defesa inconstitucional” da religião. O que não está na lista A proposta do Texas não inclui alguns dos livros mais ensinados em escolas dos EUA, incluindo “Romeu e Julieta” e “O Grande Gatsby”, o primeiro e o segundo livros mais atribuídos em escolas secundárias dos EUA, segundo o Conselho Nacional de Professores de Inglês. Ela também evita alguns clássicos populares que têm sido contestados nos últimos anos, como “To Kill a Mockingbird” (“O Sol é Para Todos”). Esses livros estão entre os mais ensinados atualmente nas escolas de ensino médio do Texas, segundo pesquisas de Perrillo, professora da UTEP, e Andrew Newman, da Universidade de Stony Brook, que entrevistaram 1.250 professores de inglês do ensino médio, incluindo quase 200 do Texas, em 2024. Na pesquisa, os professores do Texas relataram ensinar uma variedade de outros livros, incluindo alguns romances contemporâneos como “All the Light We Cannot See” (“Toda Luz que Não Podemos Ver”), um romance de 2014 de Anthony Doerr que ganhou o Prêmio Pulitzer de ficção. A questão sobre o que incluir como literatura essencial não é nova. O College Board, por exemplo, há muito tempo incentiva professores a ensinar certos textos, como “Frankenstein”, em cursos de literatura de nível avançado. A lista do Texas seria uma tentativa rara de criar um cânone compartilhado para um estado inteiro. A lista ainda estava sendo editada nesta semana. Autoridades do Texas, por exemplo, votaram para remover um livro ilustrado sobre a Arca de Noé para alunos do primeiro ano, mas manter um livro sobre Jonas e a baleia, da leitura bíblica do Livro de Jonas. A lista não entraria em vigor imediatamente, mas seria implementada como uma exigência ao longo dos próximos anos.