"É muito difícil competir com a infância." Era assim que Gabriel García Márquez respondia a quem perguntava por que havia escrito "apenas" um dos três volumes previstos para suas memórias. O resultado foi "Viver para Contar", livro fundamental para quem deseja compreender a obra do escritor colombiano.

Ali estão os personagens, cenários e episódios que mais tarde reapareceriam transformados em literatura. As tias que enchiam a casa com suas manias e crenças, a avó que narrava acontecimentos extraordinários como se fossem fatos corriqueiros, o avô coronel que lhe apresentou o mundo e a própria cidade de Aracataca: tudo isso acabaria migrando para os romances que fizeram de García Márquez um dos autores mais importantes do século 20.

Entre as lembranças mais célebres está a do avô que leva o menino para conhecer o gelo. A cena, eternizada em "Cem Anos de Solidão", ocorreu numa região onde o calor é permanente e as temperaturas raramente descem dos 24 graus. Como tantas outras passagens da obra de Gabo, aquilo que parece invenção nasceu de uma experiência concreta.

É justamente essa relação entre memória e literatura que está no centro de "Viagem à Semente", a monumental biografia escrita pelo colombiano Dasso Saldívar e agora reeditada no Brasil, pela Record, às vésperas do centenário de nascimento do autor, celebrado em 2027.