"Vinícius não tem nada a perder, ele pode enfrentar o racismo”, diz ex-goleiro AranhaHouve ação judicial contra uma das envolvidas, e o clube gaúcho foi eliminado daquela competição, punição que, quase 12 anos depois, ainda não se tornou regra. Crédito: EstadãoAntes dos € 46 milhões de euros, o que ninguém sabe é que ele percorria 70 km para treinar, ainda na adolescência. Tempos depois, o Real Madrid pagou €46 milhões por um garoto de 16 anos que ainda não havia completado uma temporada inteira no futebol profissional. A imprensa espanhola achou caro. Os torcedores do Flamengo acharam que o clube havia vendido cedo demais. O mercado, que sempre sabe tudo depois, ficou em silêncio sobre o que achava antes.A transferência de Vinícius Júnior para o Real Madrid, em 2017, foi à época o segundo maior valor já pago por um jogador na história do futebol brasileiro, atrás apenas de Neymar, e o maior já pago por um clube por um atleta com menos de 18 anos. A pergunta que define se uma decisão de investimento foi boa não é o preço pago. É o que o ativo entregou depois. E o que o Real Madrid comprou por € 46 milhões em 2017 entregou duas Champions League, o título de melhor jogador do mundo e um dos ativos de imagem mais valiosos do esporte global. O retorno é incalculável. O olheiro que assinou a aprovação daquela transferência fez a melhor leitura de talento da última década no futebol.Vini Jr. foi o jogador mais jovem da história a marcar em duas finais de Champions League, em 2022 e 2024 Foto: Werther Santana/EstadãoAntes de conquistar a Europa, ele precisou vencer obstáculos comuns a milhares de jovens brasileiros que sonham em viver do futebol. Nascido em São Gonçalo, cresceu em uma realidade marcada por limitações financeiras e desafios sociais. Para encurtar a distância de 70 km até o centro de treinamento do Flamengo, foi morar com o tio Ulisses. Essa distância é o detalhe que a maioria dos perfis de carreira ignora, porque parece menor do que os gols na Champions. Não é. É o dado que explica tudo o que veio depois. Quem percorreu 70 km por dia durante anos para chegar onde queria estar tem uma relação com o esforço que nenhum contrato milionário vai alterar. O dinheiro mudou. A disposição para continuar quando fica difícil, não.Brasil vai ao mata-mata com um '7 a 1 do bem' após melhor jogo na CopaSeleção exala confiança pela primeira vez no Mundial em vitória sobre a Escócia. Crédito: Mauro BettingPUBLICIDADETenho uma história em que um familiar tinha o sonho de ser jogador de futebol. Até que um dia o pai conseguiu que ele fizesse testes para entrar no Vasco. E disse: “Você vai pegar o ônibus, treinar e voltar de ônibus também.” Viu de perto a dificuldade de jovens que não tinham dinheiro nem para comprar a quentinha que o Sr. Zé vendia. Era um mundo que ele não conhecia e, obviamente, seu sonho durou escassos 32 dias. PublicidadeLeia tambémO Brasil virou o 5º maior mercado de apostas do mundo em 12 meses. Isso aconteceu por acaso?Por que as marcas brasileiras terão que ‘esconder’ o próximo jogo do Brasil na Copa? Casimiro quebrou o YouTube e mudou o mercado de mídia esportiva para sempreDe volta ao Vini, sua chegada ao Real Madrid em 2018 foi o começo do capítulo mais revelador. Nunca foi visto um jogador tão jovem passar por tantas críticas e por tanta chacota por parte da imprensa e conseguir dar a volta em praticamente todas as situações e chegar a ser o melhor do mundo. A imprensa madrilenha passou anos questionando cada aspecto do seu jogo. A finalização era fraca. O posicionamento era ingênuo. A consistência era questionável. Cada crítica chegava com o peso de uma instituição de cem anos de futebol julgando um garoto de vinte. Ele não mudou o jogo. Melhorou o jogo. A finalização, que era fraca em 2019, virou o gol que definiu a final da Champions de 2022. O gol ainda está no YouTube.A Arezzo tem um princípio de gestão de marca que me parece preciso nesse contexto: a empresa nunca abandonou sua identidade central, mesmo quando a pressão de mercado sugeria expansão para segmentos que não eram seus. O resultado dessa consistência é uma marca que hoje vale mais do que qualquer expansão apressada teria produzido. O melhor jogador do mundo tem a mesma lógica. Cada vez que a crítica sugeria que ele mudasse o estilo, ele continuou sendo o mesmo. Rápido, ousado, dançante, insolente na medida certa. A identidade que São Gonçalo formou resistiu a tudo que Madri tentou reformatar.Em 2024, foi eleito como o melhor jogador do mundo pela Fifa e se tornou o jogador mais jovem da história a marcar em duas finais de Champions League, em 2022 e 2024. Além disso, criou o Instituto Vini Jr., que treina professores da rede pública para serem educadores antirracistas. O instituto é o dado mais revelador de todos, porque é onde a trajetória se fecha num arco que vai além do esporte. O menino que precisou de ajuda financeira do Flamengo para pagar o transporte até o treino criou uma organização para garantir que outras crianças tenham acesso à educação de qualidade. Não é gesto simbólico. É política deliberada de quem entendeu, na própria pele, o que separa quem chega de quem fica pelo caminho.Tenho acompanhado trajetórias de fundadores e gestores há anos, e o padrão que aparece nas histórias de quem realmente chegou ao topo tem um denominador comum que raramente é romantizado da forma correta: não é a ausência de fracasso. É a capacidade de continuar depois do fracasso sem mudar quem você é. Um fundador de uma empresa de tecnologia de saúde no Ceará me disse certa vez que o momento mais difícil da sua trajetória não foi quando não tinha dinheiro. Foi quando tinha dinheiro, produto e time, e ainda assim os maiores do mercado diziam que o que ele estava fazendo não tinha futuro. Ele continuou. O mercado descobriu que estava errado.Na Copa de 2026, o melhor jogador do mundo carrega na camisa amarela uma história que o futebol raramente comporta com toda a complexidade que ela merece. São Gonçalo, onde ele nasceu e foi criado, tem Vini Jr. como motivo de orgulho e inspiração. Quando a bola rola nesta Copa, ele carrega muito mais do que a responsabilidade de decidir partidas. Carrega a história de um garoto que atravessou oceanos, superou dúvidas, venceu obstáculos e transformou um passeio de reconhecimento em Madri no primeiro capítulo de uma trajetória que já pertence à história do futebol brasileiro. O mercado pagou € 46 milhões em 2017. Nenhum valor consegue expressar o que foi construído desde então. Esse é o tipo de retorno que só aparece quando a aposta é feita antes que todo mundo saiba que era certa.Publicidade
Opinião | Vini Jr. custou € 46 milhões aos 16 anos; hoje, custa o que nenhum valor consegue expressar
Na Copa de 2026, o melhor jogador do mundo carrega na camisa amarela uma história que o futebol raramente comporta com toda a complexidade que ela merece















