Em videoinstalação, a artista Helen Cammock compara Churchill a Oliver Cromwell, e acusa o ex-primeiro-ministro britânico de ter causado de forma deliberada fome na Índia 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Winston Churchill — Foto: Yousuf Karsh / Wikipédia Uma artista retirou uma videoinstalação da National Portrait Gallery, em Londres, que culpava Winston Churchill pela fome na Índia colonial, após um historiador e outras pessoas criticarem a caracterização do ex-primeiro-ministro britânico. No vídeo, intitulado “Persistência”, a artista Helen Cammock compara Churchill a Oliver Cromwell, líder da guerra civil britânica no século XVII. Ela conta como sua opinião sobre Cromwell mudou depois de saber que ele havia “matado pessoas de fome em massa, de forma semelhante à fome deliberada que Winston Churchill causou à população indiana”. Andrew Roberts, historiador inglês e autor de uma biografia de Churchill, enviou ao museu uma carta aberta em 16 de junho, assinada por mais de 50 membros atuais e antigos da Câmara dos Lordes, incluindo Nicholas Soames, neto de Churchill. A carta classifica o vídeo como “um discurso ideologicamente motivado” e “historicamente absurdo”. Roberts também acusa Cammock de denegrir “alguém que muitos consideram o maior britânico de todos os tempos”. Em um comunicado, o museu descreveu a obra como “uma peça de reflexão concebida como uma narrativa em primeira pessoa” e apresentada “como uma obra de arte, não um documentário”. O filme apresenta uma ampla gama de grupos e indivíduos na história e explora múltiplas narrativas com um elenco de personagens reais e imaginários. O museu reforça que há apenas uma referência a Churchill no vídeo de 38 minutos. Cammock, que em 2019 ganhou o Prêmio Turner, a mais prestigiosa premiação britânica de artes visuais, tomou a decisão de retirar a obra na segunda-feira, segundo a National Portrait Gallery. A instituição disse respeitar tanto a decisão da artista quanto as opiniões daqueles que se opuseram à sua obra. Um representante de Cammock direcionou as perguntas sobre o assunto à National Portrait Gallery, que divulgou uma declaração separada da artista. Nela, Cammock afirmou que a obra, que esteve em exibição no museu por quase um ano, foi desenvolvida em parceria com a galeria e envolveu pesquisa no arquivo do museu. “Ela nos leva a refletir sobre quem é honrado e valorizado e quem não é”, escreveu ela. A fome de Bengala em 1943, nos últimos anos do domínio britânico na Índia, matou cerca de 3 milhões de pessoas, e por décadas acadêmicos têm debatido intensamente o papel desempenhado por Churchill, que era o primeiro-ministro britânico na época. A fome em Bengala não foi resultado de problemas de abastecimento, segundo o economista Amartya Sen, ganhador do Prêmio Nobel que estudou casos semelhantes na história e vivenciou a crise de Bengala na infância. Sen argumenta que um aumento acentuado nos preços dos alimentos, provocado pelos enormes gastos britânicos na luta contra o Japão durante a Segunda Guerra Mundial, levou muitas pessoas pobres da zona rural a passarem fome. Alguns estudiosos argumentam que as políticas de Churchill contribuíram significativamente para a fome. Madhusree Mukerjee, escritora e física, crítica ferrenha do governo de Churchill durante a guerra, afirmou em um livro de 2010 que o governo britânico foi repetidamente alertado de que suas políticas poderiam levar à fome na Índia, mas continuou a exportar arroz de lá. Outros estudiosos, incluindo Roberts, argumentam que a fome foi causada principalmente por um tufão e pela destruição das linhas de abastecimento durante a guerra. Eles afirmam que, assim que o governo Churchill tomou conhecimento do caso, enviou dezenas de milhares de toneladas de grãos para a Índia. Em sua declaração, Cammock afirmou que havia uma “pressão incrível sobre artistas e instituições artísticas” para cederem a pressões externas. Ela argumentou que desafiar as narrativas históricas era “vital para uma sociedade saudável”.