O medo das ameaças feitas pelo namorado era tão grande que Michele já havia passado a dormir com a porta do quarto trancada. Ele chegava tarde, alcoolizado, e dormia na sala do apartamento onde moravam, em Pinheiros, zona oeste de São Paulo.

Mas houve uma noite em que chegou quando ela ainda não havia se trancado. Os dois discutiram, e ele partiu para cima da namorada quando ela disse que não aguentava mais a relação e iria embora. Derrubou-a no chão e começou a apertar seu pescoço para asfixiá-la. Gritava que iria matá-la.

Michele, com 1,60 metro de altura, bem menor do que o agressor, se debatia, até que conseguiu atingir, com um chute, a genitália dele. Com a dor, ele saiu de cima da namorada. Ela só teve tempo de pegar a bolsa, e saiu desesperada atrás de um táxi. Refugiou-se em um hotel. No dia seguinte, ele trocou a fechadura do apartamento e a proibiu de pegar suas coisas. Nem uma troca de roupa, nada.

A noite traumática ocorreu há 20 anos, em junho de 2006, mas só recentemente a empresária Michele Vanzella, 50, diretora da casa de jazz Blue Note no Brasil, conseguiu falar publicamente sobre o episódio.

Ela narrou a experiência no livro "Virando Páginas", que reúne relatos de mulheres que enfrentaram a violência envolvendo machismo e misoginia.