O Instituto Brasileiro de Economia Circular (Ibec) anunciou hoje a criação do Comitê Brasileiro de Financiamento Circular (CBFC), que pretende reunir economistas e especialistas de diferentes entidades para ajudar a fomentar o crédito para projetos de transição produtiva na indústria brasileira. A economia circular é apontada por especialistas como uma oportunidade de abertura de novas frentes de negócios inovadores e sustentáveis no país, além de ampliar a competitividade da indústria e de setores estratégicos como o agronegócio e a geração de energia. No entanto, a falta de instrumentos financeiros de incentivo é apontada como o principal gargalo para a expansão no Brasil desse modelo, que acelera em outros países, como os a União Europeia e a China. O comitê vai conectar economistas e representantes de agências de fomento, bancos e indústrias para estruturar mecanismo financeiros que possam tirar do papel projetos que se encaixem no conceito de economia circular, um novo modelo sustentável de produção em expansão no mundo. Em que lugar da fila do pão está o Brasil na economia circular? Especialistas respondem com exemplos de outros países Modelo produtivo sustentável A economia circular tem como objetivo trocar o atual modelo produtivo linear — que vai da extração de recursos naturais para a fabricação de produtos ao descarte deles após o uso — por um processo que mire, desde o início do processo, na eliminação de resíduos, ampliando a presença de produtos e seus materiais no mercado por mais tempo e reduzindo a demanda por matérias-primas virgens. Economia circular — Foto: Criação O Globo Para fazer essa transição, as empresas precisam investir em inovações e na reformulação de processos, desde a concepção dos produtos, com abordagens como o ecodesign, que prioriza propriedades como durabilidade e facilidade de reparo e reúso. A reciclagem é uma das soluções empregadas, mas ainda é confundida como a economia circular em si. A economia circular exige a concepção de novos modelos de negócio. No entanto, como os projetos diferem dos que predominam na atual economia linear, é mais difícil para os empreendedores financiarem essas inovações, inclusive junto a instituições financeiras de financiamento, como a Finep e o BNDES. 'Abordagem mais ampla' O comitê pretende ajudar empresas interessadas no financiamento de inovações ligadas à economia circular a adaptar seus projetos para acessar linhas de financiamento, bem como informar instituições financeiras sobre os requisitos necessários para enquadrar propostas nessa categoria e estimular a criação de novas soluções de financiamento. Economia circular 1 — Foto: Criação O Globo O grupo vai oferecer uma espécie de consultoria aos interessados em financiar projetos na área e funcionar como um articulador entre a indústria e as instituições financeiras. Também vai levantar dados, formular indicadores e traçar diagnósticos de oportunidades de negócios de economia circular no Brasil. Segundo o Ibec, os dados “serão o ponto de partida para a elaboração de um novo modelo de financiamento circular para o país”. — Nosso desafio é trazer uma abordagem mais ampliada ao debate. Temos muitos estudos estrangeiros, mas precisamos de dados que traduzam o nosso potencial e sirvam de parâmetro para estabelecer métricas econômicas próprias para o Brasil. Será um espaço para aprendizado contínuo, produção de diagnósticos e, a partir daí, a construção das bases financeiras da transição circular no Brasil em escala — afirma Beatriz Luz, presidente do Ibec, entidade sem fins lucrativos dedicada ao fomento da economia circular no país. Já aderiram ao comitê a Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE), a Aliança Brasileira em Finanças e Investimentos Sustentáveis (Brasfi), o Conselho Federal de Economia (Confecon) e o Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon-SP). A primeira reunião será realizada na próxima sexta-feira, na sede da Delegação da União Europeia, em Brasília. A economia circular já é parte do arcabouço legal da União Europeia, com exigências de sustentabilidade impostas à indústria e que passam a ser impostas também a produtos manufaturados do Brasil exportados para o bloco por meio do acordo comercial UE-Mercosul. Brasil está atrasado A transição para a economia circular não é um desafio só da indústria. Essa abordagem vale também para os ciclos de alimentos e outros materiais orgânicos que consumimos, como a madeira, garantindo as condições para regenerar o solo e a vegetação. Técnicas como as da chamada agricultura regenerativa cumprem este papel circular no campo. A economia circular está em estratégias nacionais em mais de 100 países, embora sua concretização ainda seja lenta no mundo. O Brasil, no entanto, está atrasado mesmo no desenho institucional. O país ainda não teve aprovada no Congresso a sua Política Nacional de Economia Circular (Pnec). Nos últimos dois anos, o governo federal buscou tirar o atraso estruturando uma governança nacional para colocar os princípios da economia circular em prática no país. O ponto de partida foi a criação da Estratégia Nacional de Economia Circular (Enec), em 2024, pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Mdic), que incorporou a economia circular ao plano Nova Indústria Brasil (NIB). O fomento a reaproveitamento de materiais, remanufatura e extensão da vida útil de produtos e componentes, entre outras iniciativas, foi incluído no escopo da atual política de estímulo à competitividade do setor produtivo, mas setores industriais se queixam de que ainda faltam incentivos financeiros como crédito subsidiado e estímulos tributários para que as empresas invistam em inovações voltadas à economia circular. A Enec estabeleceu a primeira definição oficial do tema no país e serviu de bússola para o Plano Nacional de Economia Circular (Planec), apresentado em 2025 com metas para 2030, como a redução de 20% da geração de resíduos urbanos não recicláveis e o aumento do uso de materiais recuperados na indústria. Enquanto isso, a Política Nacional de Economia Circular (Pnec), já aprovada na Câmara, ainda aguarda aval do Senado. Segundo dados do Mdic, no ano passado a Enec mobilizou capital superior a R$ 1 bilhão para projetos de economia circular: R$ 670 milhões em linhas de crédito, R$ 300 milhões em investimento público direto e R$ 140 milhões em recursos não reembolsáveis.