Este ano, o Alkantara Festival não deixa cair os temas que os criadores que convida têm trabalhado, como uma investigação teatral sobre violência e cumplicidade masculina, mas também acolhe a ideia de ciclos: fins e recomeços. É assim que a premiada Carolina Bianchi traz a peça Brotherhood, por exemplo, e que a companhia teatral Cão Solteiro se despede com o seu derradeiro espectáculo, Menos. Os corpos dançarão Maputo pelas mãos do coreógrafo Idio Chichava, e o italiano Alessandro Sciarroni protege uma tradição.São estes os primeiros nomes avançados para a edição de 2026 do festival internacional de artes performativas que ocupará 17 dias de Lisboa com artes do palco, entre o teatro, a performance, a dança e também uma festa. “É impossível seguir em frente sem nos perguntarmos o que queremos preservar e o que gostaríamos ainda de guardar. Esta é uma das perguntas que orientaram a construção da edição deste ano”, diz a co-directora artística do Alkantara Festival 2026, Carla Nobre Sousa, segundo a comunicação enviada às redacções.Decorrendo de 13 e 29 de Novembro em Lisboa, a organização destaca os primeiros nomes confirmados entre criadores portugueses e estrangeiros. Carolina Bianchi e Cara de Cavalo, Idio Chichava, Cão Solteiro e André Godinho e Alessandro Sciarroni vão estar, respectivamente, na Culturgest – Auditório Rui Emílio Vilar (26, 27 e 28 de Novembro às 19h), no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian (17 de Novembro às 21h), na Sala Garrett do Teatro Nacional D. Maria II (13, 14 e 15 de Novembro) e no Centro Cultural de Belém a 14 de Novembro.Menos é uma estreia absoluta e uma despedida em que “todos os que foram Cão estão convocados”. No D. Maria II, e 29 anos depois da fundação da companhia Cão Solteiro, o espectáculo derradeiro da singular companhia portuguesa contemporânea assume-se como celebração, com uma criação com André Godinho que junta teatro, cinema em tempo real e… festa. “À medida que o palco se vai esvaziando, permanece uma história colectiva feita de encontros, cumplicidades e criação. Menos é um espectáculo sobre o fim, mas também sobre aquilo que permanece”, diz a companhia.Assinale-se que este espectáculo vai baptizar a Sala Garrett do D. Maria, que reabre finalmente após as obras de requalificação do edifício do teatro nacional lisboeta. Será um fim digno e provavelmente um pouco esdrúxulo que a companhia cujo teatro o programador Francisco Frazão, nos idos de 2010, descrevia como “um paradoxo", vai ter. Porque, dizia na altura Frazão, “não cabe em nenhuma das etiquetas que costumamos utilizar. Usam um texto dramático mas não ligam grande importância ao texto. Estão mais perto da literatura e, ao mesmo tempo, o teatro deles não é sobre isso”.Os três outros nomes trazidos ao Alkantara presenteiam-nos com estreias nacionais. Carolina Bianchi, Leão de Prata da Bienal de Veneza 2025, traz a Lisboa, em co-apresentação com o Teatro Municipal do Porto, o segundo capítulo da sua Trilogia Cadela Força, Brotherhood, que sucede A Noiva e a Boa Noite Cinderela, descrito pelo PÚBLICO em 2024, quando se estreou em Portugal precisamente no Alkantara, como “um banho de sangue – e de poesia”. Bianchi, brasileira radicada em Bruxelas, investiga e trabalha a violência, masculinidade e cumplicidade de género e usa o teatro e a dramaturgia para falar de trauma e representação, bem como as origens da misoginia e da crise da sexualidade.