Vias amazônicas são usadas para tráfico internacional de drogas A Operação Contenção, ação contra o Comando Vermelho (CV) que deixou 122 mortos nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, em outubro de 2025, descortinou um elo do crime organizado do Sudeste com o Pará. Quinze dos mortos eram lideranças paraenses, além de seis presos egressos de lá. Foi o Estado com o maior número de envolvidos de fora do enclave fluminense. Segundo o pesquisador do programa de pós-graduação em geografia da Universidade do Estado do Pará (UFPA) Aiala Couto, o Pará é hoje o principal aliado do CV no Brasil - e foi a partir do Estado que a facção entrou na Amazônia, ampliou-se para outros Estados da região e chegou às fronteiras. “Isso mostra muito bem essa relação entre os dois Estados [PA e RJ], porque diz respeito a essa conexão entre grupos criminosos", aponta ele, que é autor de estudos sobre as facções na região amazônica. Há dois fatores por trás disso. Primeiro, o Brasil virou um grande mercado consumidor de cocaína atrás apenas dos Estados Unidos, de acordo com o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime; segundo, o país é “área de trânsito” da droga para a Europa e a África. Daí provém o interesse de outra facção na região: a paulista Primeiro Comando da Capital (PCC). “A Amazônia, e o Pará em particular, com sua vasta rede hidroviária e fronteiras porosas, transforma-se em um corredor logístico fundamental. O Estado deixa de ser uma periferia do crime para se tornar um ‘centro nervoso’, onde as rotas internacionais se conectam com as dinâmicas internas de disputa territorial entre as facções, explicando sua intensa disputa e fixação na região", diz o estudo “Crime organizado na Amazônia paraense”, do Instituto Mãe Crioula. Nas palavras de Couto, a Amazônia se transforma em um “hub criminal”. Foram os problemas históricos da região, como garimpo ilegal e grilagem de terras, que pavimentaram condições para a expansão do crime organizado no Pará. No Vale do Tapajós, o narcotráfico se associa à mineração irregular, mas de modo distinto daqueles de outros Estados da região onde as próprias facções exploram o garimpo. “O mercado de drogas [no Pará] usa pistas de pouso [dos garimpeiros] para transportá-las”, diz Couto. “Por outro lado, já é um sinal dessa aproximação entre o narcotráfico com o garimpo ilegal, principalmente na região de Itaituba egressas de Santarém", ressalta ele. O último relatório Cartografias da Violência na Amazônia, do Fórum Nacional de Segurança Pública, considerou Santarém, Barcarena e Belém como centros portuários estratégicos para o escoamento de drogas, inclusive com uso de pequenas embarcações em uma rota oceânica via Suriname. O presidente do fórum, Renato Sérgio de Lima, afirma que a questão ganha ainda mais força por se sobrepor ao crime ambiental, que segundo ele já detém tecnologias para lavagem de dinheiro, exportação e ocultação transnacional. “O tráfico absorve o know-how do crime ambiental para um processo de convergência”, diz Lima. Para Couto, o problema de combate ao crime na região não é local, mas nacional, agravado pelo fato de o garimpo ter sido estimulado pelo Estado há décadas na região, o que também estimulou a extração ilegal na Amazônia. “Há dificuldade em se criar uma política nacional de segurança pública”, afirma. “A estratégia de inteligência é muito mais eficaz do que a política de repressão", aponta. O Ministério da Justiça e da Segurança informou não ter dados segmentados sobre o Pará no contexto do programa Brasil Contra o Crime Organizado. Questionada sobre a dificuldade de se criar uma política integrada, a pasta não respondeu. Já a Polícia Federal informou que não iria responder.