Seis ou sete personalidades da cidade – de diferentes áreas e com ligações profissionais ou emocionais ao Porto e ao seu centro histórico – vão repensar esta zona da urbe com o objectivo de apresentar um “conjunto de propostas e contributos para a intervenção da Câmara do Porto”. O grupo de trabalho é uma iniciativa do executivo de Pedro Duarte e está neste momento a ser criado, tendo algumas figuras já sido contactadas. O presidente do município espera “inverter” a tendência de perda populacional no centro histórico ainda no seu primeiro mandato.A divulgação foi feita nesta segunda-feira, no final de uma reunião privada do executivo, e no seguimento da votação de uma proposta de recomendação do Chega, que apresenta “medidas para requalificação” dessa zona da cidade “nos domínios da segurança, social e urbanístico”. O documento foi aprovado com abstenção dos vereadores de Pedro Duarte e votos favoráveis do PS.Defendendo uma polícia “ao serviço das pessoas”, Miguel Corte Real, o autor da proposta, incluiu nas acções prioritárias a criação de um grupo de polícias de proximidade para operar na zona classificada pela UNESCO, com novos elementos da PSP e em diálogo com a polícia municipal, a reabertura da esquadra de Cedofeita, mais videovigilância e fiscalização e a criação de uma linha de participação anónima para denunciar situações de tráfico, degradação ou insegurança. O documento sugere ainda medidas como um reforço da iluminação pública ou mais reabilitação no centro histórico. A ideia de criar um conselho municipal do centro histórico, também vertida na proposta, não será seguida. Mas o grupo de trabalho acabará por cumprir, em parte, o mesmo desígnio.O PS associou-se ao Chega nesta matéria, após algumas alterações do documento oficial e à clarificação de que a segurança “diz respeito a todos os cidadãos”, declarou Manuel Pizarro aos jornalistas. A reabertura da esquadra de Cedofeita, agora destinado aos turistas, é um dos pontos nos quais os socialistas se revêem. O tema da “re-habitação” desta área também convenceu Pizarro, que defendeu uma aposta no “investimento público”. De outra forma, completou, “temos a certeza de que 95% das pessoas estão excluídas dessa possibilidade [de viver no centro]”.A ideia estaria na agenda do executivo de Pedro Duarte antes da sugestão do Chega. Não subscrevendo algumas das sugestões do documento, o autarca e os seus vereadores abstiveram-se, mas o “princípio” é coincidente com o que defendem. Pedro Duarte quer olhar para o centro histórico como “uma zona da cidade do Porto com características especiais e que merece uma atenção especial", especialmente no ano em que o Porto assinala os 30 anos da classificação da UNESCO como Património Cultural da Humanidade. Assumindo um “sentido de urgência”, avançou querer repensar o “modelo de governação” deste território sem divulgar em que moldes isso será feito. Não escondeu, porém, inclinar-se para a criação de uma "equipa dedicada", que conheça a realidade de perto e trabalhe no terreno.O grupo de trabalho – que será acompanhado tecnicamente pelos serviços culturais e patrimoniais, serviços sociais e serviços urbanísticos – vai analisar o assunto com foco nas pessoas que habitam neste território, pensando políticas de habitação que lhes permitam continuar e possibilitem a fixação de outros que saíram ou queiram viver lá. Mas também olhará para o “património edificado”, que tem uma protecção especial nesta zona, mas tem sido alvo de algumas intervenções abusivas. O caso da demolição ilegal do interior da confeitaria Serrana, noticiado pelo PÚBLICO, é um dos exemplos mais recentes.O turismo teve um “efeito positivo” na cidade, considera o presidente da Câmara do Porto. Mas nem tudo são flores: “Como tudo na vida, tem de ter o peso, a conta e a medida certa", apontou. “Provavelmente, estamos a chegar ao ponto de saturação, do ponto de vista do impacto externo naquela área da nossa cidade. Precisamos de ter políticas públicas activas que equilibrem esta circunstância.” Não se trata de “expulsar turistas”, salvaguardou, mas de “não perder uma identidade muito própria” daquele lugar.