Jorge Garcia Pereira chamou-lhe “arboricídio”. Os pequenos pulmões guardados no interior dos quarteirões do Porto, fulcrais na resiliência da cidade às alterações climáticas, estão a ser destruídos, denunciou. O vereador socialista referia-se aos logradouros e a uma devastação crescente desses espaços verdes sem que nada seja feito e anunciava um culpado: o Plano Director Municipal (PDM) de 2021.A última revisão deste documento “permitiu que isto acontecesse”, acusou, propondo uma “reflexão” sobre o tema. Até 2021, os técnicos eram obrigados a apresentar um projecto de arranjos exteriores, permitindo ao município perceber quais os planos para os logradouros. Essa exigência “caiu” e abriu portas a excessos. Agora, apelou, "é preciso estancar a destruição".A exigência na fase de projecto conduzia a “alguns indeferimentos com sugestões e melhoramentos” e evitava problemas, acrescentou ao PÚBLICO o vereador, falando também da sua experiência como arquitecto.O PDM de 2021 prevê que os logradouros sejam “livres de edificação” e “ocupados por coberto vegetal permeável”, embora permita excepções. O socialista entende, ainda assim, que o processo se tornou “mais omisso”, aumentando a “liberdade para cometer estes crimes ambientais”Catarina Araújo, responsável pelos pelouros do Ambiente e Sustentabilidade e também do Urbanismo e Espaço Público, admitiu haver uma “preocupação” com o tema, mas garantiu que os serviços já estão “a actuar” e a promover “melhorias”, nomeadamente com uma melhor articulação entre as duas áreas. O “bom senso”, afirmou, também deverá ser um aliado.Dentro de “quatro a cinco meses”, o município deverá alterar o seu código regulamentar, introduzindo “novas regras de salvaguarda do coberto vegetal, designadamente nos logradouros”, anunciou. Sabendo não ser suficiente, está também a trabalhar num plano de “médio prazo”, com uma “alteração no PDM” de 2021, aprovado por um executivo do qual também fazia parte. A prioridade será fazer com que a “estrutura ecológica disponha de regras mais consistentes e adaptadas aos desafios da cidade”.Jorge Garcia Pereira não quis apenas falar, fez também questão de mostrar. Com um powerpoint, deu a conhecer alguns casos, quase todos de obras iniciadas no ano de 2026. Na Rua de Campo Lindo, um antigo palacete está a ser reconstruído e ampliado e os proprietários optaram pela “destruição praticamente total do património vegetal do logradouro”. Na Rua Senhora do Porto, vê-se cimento no lugar onde existia verde. Na Rua de São Roque da Lameira, o maior logradouro de um conjunto de casas da artéria, com árvores centenárias, desapareceu. Nesse caso, também a frente urbana se alterou por completo, aproveitando que o novo PDM alterou a classificação da zona, que antes era de frente urbana consolidada.A destruição dos logradouros representa “uma penalização brutal para toda a gente e para a cidade”, afirmou em conversa com o PÚBLICO. "O papel das árvores é conhecido: reduz temperatura nas cidades, de dois a oito graus” e, “do ponto de vista ambiental, estar no domínio público ou privado é a mesma coisa". Se os estudos prevêem que “a temperatura média do planeta aumente 2% até 2100”, disse, é só fazer as contas para perceber a relevância destes logradouros.