Empresário explica como o setor de veículos clássicos e colecionáveis movimenta cifras expressivas e atrai olhares do mercado financeiro. Mário Augusto de Castro — Foto: Divulgação O mercado de carros antigos deixou de ser território exclusivo de entusiastas e passou a integrar discussões sérias sobre diversificação de portfólio. No Brasil, clubes de colecionadores, leilões especializados e feiras do setor registram crescimento consistente de participantes e de volume negociado. Nesse contexto, o empresário Mário Augusto de Castro acompanha de perto a evolução desse mercado e examina as condições que tornaram os veículos clássicos uma categoria de ativo com lógica própria de valorização e risco. Os carros antigos se tornaram um ativo de mercado Durante décadas, automóveis históricos circularam quase exclusivamente entre colecionadores movidos por paixão. A virada veio com a profissionalização do setor: avaliadores especializados, seguradoras com produtos específicos e plataformas digitais de compra e venda criaram um ambiente mais transparente e acessível. Diante disso, investidores com perfil mais conservador passaram a enxergar veículos bem conservados como reserva de valor tangível, semelhante ao mercado de arte ou de vinhos raros. A lógica de valorização segue critérios objetivos. Raridade, estado de conservação, autenticidade das peças e histórico de propriedade determinam o preço de um exemplar. Por outro lado, modelos com grande apelo emocional para determinadas gerações tendem a se valorizar conforme essa geração acumula renda e busca reconectar com referências do passado. Castro observa que esse movimento geracional é um dos principais motores de demanda no segmento atualmente. O ambiente regulatório e seus efeitos sobre o setor Um fator decisivo para o crescimento do mercado brasileiro foi a consolidação do marco legal dos veículos antigos. A legislação brasileira define como "antigo" o veículo com mais de 30 anos de fabricação, permitindo emplacamento especial e isenções em alguns estados. Além disso, a fiscalização de autenticidade em leilões e a exigência de documentação completa aumentaram a confiança dos compradores, atraindo um perfil de investidor que antes preferia manter distância do setor. Nesse contexto, Castro ressalta que a segurança jurídica é um dos pilares para que qualquer mercado de ativos alternativos se consolide. Sem regras claras sobre propriedade, transferência e tributação, o capital tende a migrar para categorias mais reguladas. O avanço regulatório do setor automotivo clássico no Brasil seguiu essa direção e contribuiu para legitimar o segmento perante o mercado financeiro. Riscos e oportunidades para quem considera entrar no setor Como todo ativo alternativo, carros antigos exigem conhecimento específico antes de qualquer movimentação. Os principais riscos envolvem adulteração de peças, documentação irregular e supervalorização pontual de modelos que não sustentam o preço no longo prazo. Por outro lado, para quem tem acesso à informação qualificada e rede de contatos no setor, as margens de valorização podem superar as de ativos tradicionais em determinados ciclos. O empresário Mário Augusto de Castro destaca que a entrada bem-sucedida nesse mercado depende menos de capital inicial e mais de capacidade analítica. Identificar quais modelos têm demanda crescente, quais regiões concentram os melhores compradores e como precificar corretamente um veículo são competências que diferenciam o investidor do colecionador ocasional. Nesse sentido, o setor se aproxima da lógica de outros mercados de nicho, em que a assimetria de informação ainda gera oportunidades reais. A digitalização como fator de transformação do mercado clássico Plataformas digitais especializadas, grupos em redes sociais e leilões online ampliaram significativamente o alcance geográfico das negociações. Um veículo anunciado em São Paulo pode ser arrematado por um comprador no exterior, o que pressiona os preços para cima em categorias de alta demanda internacional. Além disso, a digitalização trouxe mais transparência ao histórico de cada veículo, com registros fotográficos, laudos técnicos e rastreamento de propriedade acessíveis de forma remota. Esse movimento interessa diretamente a quem analisa o setor com olhar de negócios. Castro contextualiza que a tecnologia reduziu as barreiras de entrada e aproximou compradores e vendedores que antes dependiam de intermediários locais. O resultado é um mercado mais líquido, ainda que restrito a nichos específicos, e com maior capacidade de atrair capital organizado. O que o crescimento do setor revela sobre o comportamento do investidor brasileiro? A expansão do mercado de veículos clássicos no Brasil não ocorre de forma isolada. Ela integra um movimento mais amplo de busca por ativos reais e tangíveis, especialmente em momentos de volatilidade nos mercados tradicionais. Imóveis rurais, obras de arte, relógios e vinhos já compõem carteiras diversificadas de investidores brasileiros. Os carros antigos entram nessa lista com uma vantagem adicional: combinam potencial de valorização com uso e fruição pelo proprietário. Para Mário Augusto de Castro, esse dado revela uma mudança de mentalidade relevante no perfil do investidor nacional. A geração que hoje acumula patrimônio cresceu em contato com esses veículos e reconhece neles um valor que vai além da planilha financeira. Esse componente emocional, longe de ser irracional, pode sustentar a demanda do setor por um período considerável, especialmente enquanto os exemplares bem conservados seguem escassos e os novos colecionadores continuam chegando ao mercado.