Transferência de poder para um novo líder do Partido Trabalhista deve ocorrer até setembro Keir Starmer em discurso na frente da residência oficial do primeiro-ministro do Reino Unido — Foto: Jaimi Joy/Reuters O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, afirmou nesta segunda-feira que renunciará ao cargo, prometendo garantir uma transferência ordenada de poder para um novo líder até, no máximo, setembro, em uma tentativa de evitar instabilidade política em um país que se prepara para ter o sétimo líder em dez anos. Em um discurso emocionado, Starmer disse que ouviu as críticas do Partido Trabalhista, atualmente no governo, e percebeu que já não era a pessoa adequada para conduzi-lo às eleições nacionais previstas para 2029. Depois de passar semanas afirmando que enfrentaria qualquer contestação à sua posição como primeiro-ministro, Starmer passou o fim de semana refletindo sobre o futuro político na residência oficial no interior, enquanto via o apoio dentro do partido se esvair. Em Downing Street, a residência oficial em Londres, Starmer afirmou que pedirá ao comitê organizador do Partido Trabalhista que estabeleça um cronograma para a disputa pela liderança que definirá seu sucessor. As candidaturas serão abertas em 9 de julho e encerradas em meados do mesmo mês. Caso haja disputa, um novo líder estará no cargo até setembro. Starmer não mencionou o principal rival, Andy Burnham, amplamente apontado como provável substituto. "A pergunta que meu partido faz agora é se sou a pessoa mais bem posicionada para liderá-lo nas próximas eleições gerais. Ouvi a resposta do meu grupo parlamentar a essa pergunta e a aceito com serenidade", afirmou. Depois de descrever as conquistas obtidas por seu governo em dois anos no poder, o político, frequentemente criticado por parecer excessivamente mecânico, demonstrou forte emoção, com a voz embargada ao agradecer à família pelo apoio. "Quando eu deixar o cargo mais importante do país, dedicarei mais tempo ao trabalho mais importante de todos: ser o melhor marido possível para minha fantástica esposa, Vic, que foi meu alicerce nos bons e maus momentos, e ser o melhor pai possível para meus lindos filhos, que são meu orgulho e minha alegria." Quem quer que substitua Starmer se tornará o sétimo primeiro-ministro britânico desde o referendo do Brexit, que decidiu pela saída do Reino Unido da União Europeia e completa dez anos nesta semana. Esse nível de rotatividade — o mais elevado no Reino Unido em quase dois séculos — evidencia a dificuldade de manter o apoio de eleitores irritados com sucessivos fracassos em melhorar o padrão de vida, os serviços públicos e combater a imigração ilegal. A ameaça à permanência de Starmer, que vinha crescendo havia meses, intensificou-se fortemente na sexta-feira, quando Burnham, prefeito da Grande Manchester, venceu com folga uma eleição parlamentar para retornar a Westminster, derrotando um candidato do Reform UK, partido de extrema direita de Nigel Farage, que lidera as pesquisas nacionais de opinião há mais de um ano. A vitória renovou a esperança entre parlamentares trabalhistas de que Burnham, um político de carreira conhecido pelas fortes habilidades de comunicação, possa reverter a situação de um partido que perdeu apoio sob Starmer, cujos índices de popularidade caíram para os níveis mais baixos já registrados por um líder britânico. Apesar da expectativa de uma transição tranquila, a mudança não está isenta de riscos. Se outros candidatos decidirem entrar na disputa pela liderança, o partido poderá acabar mergulhado em uma disputa divisiva capaz de paralisar o governo. O ex-ministro da Saúde Wes Streeting ainda pretende disputar a liderança, informou a Sky News nesta segunda-feira, citando um de seus aliados. Burnham, que deve chegar a Londres nesta segunda-feira para assumir a cadeira recém-conquistada por Makerfield, região do noroeste da Inglaterra, ainda não apresentou uma agenda para a política externa, a economia e a defesa, se limitando a dizer que o país precisa de mudanças profundas e que deseja reduzir o custo de vida. Assim como Starmer, ele poderá descobrir que tem pouca margem de manobra, limitado por investidores do mercado de títulos contrários a novos aumentos do endividamento público e confrontado por um eleitorado irritado, que acredita que o país não está funcionando adequadamente. O Reino Unido já enfrenta os custos de endividamento mais elevados entre os países do G7, devido ao alto nível da dívida e dos pagamentos de juros, anos de crescimento econômico anêmico, dificuldades para reduzir gastos e à necessidade de investir em áreas como defesa. Os investidores ouvidos pela Reuters estavam divididos sobre se Burnham — que afirmou, em setembro passado, que o Reino Unido precisava ir "além dessa obsessão de ficar refém dos mercados de títulos" — respeitaria a necessidade de tranquilizar os mercados. Desde então, ele afirmou que suas declarações foram interpretadas de forma equivocada.