Dado Villa-Lobos imaginava que o disco que estava preparando poderia se chamar "Exílio no Bairro dos Mortos". O título vinha do período em que ficou retido em Lisboa, durante a pandemia, sem conseguir voltar ao Brasil —ele morava no bairro da Ajuda, que tem esse apelido um tanto sombrio. O artista, porém, concluiu que a referência —que também mirava em "Exile on Main St.", álbum dos Rolling Stones— era pesada demais para um álbum que, embora nasça do confinamento, da violência política e da sensação de colapso, procura o tempo todo uma saída pela leveza.

O título escolhido levou o disco para uma zona menos soturna. "O que Você Quiser", quarto disco solo do guitarrista, faz um balanço dos últimos anos em forma de canções. Há ali o Rio de Janeiro sob tensão, o exílio lusitano, a família espalhada entre Brasil e Portugal, a chegada de netos, a memória dos amigos, as trilhas sonoras que atravessam sua escrita musical e uma inquietação permanente diante do país.

"O exílio, que eu digo, é porque eu não tinha como voltar", diz Dado. "Era a segunda onda da Covid, fiquei dez meses lá, não tinha avião. Uma coisa louca. E aí os temas foram aparecendo. Esse paraíso, a busca de um paraíso improvisado, um mundo conturbado, essa coisa que o Fausto [Fawcett] coloca bem claro em ‘O que Você Quiser’. O disco é uma crônica desses cinco anos, dessa loucura que a gente viveu, das coisas assustadoras que a gente ouvia e via na TV, de como a vida mudou naquele momento e de como foi um desafio passar por isso sendo criativo."