O sportswashing é uma estratégia utilizada pela Arábia Saudita para promover soft power através do futebol Torcedores da Arábia Saudita assistem ao jogo da Copa 2026 — Foto: Hamad I Mohammed/Reuters A seleção da Arábia Saudita, que joga neste domingo (21) contra a Espanha, parece ter dois objetivos principais nesta Copa do Mundo 2026. O primeiro, dentro de campo, é superar a fase de grupos pela segunda vez na história; o segundo é decorrente do bom desempenho: mostrar que os altos investimentos no futebol local estão dando resultado para melhorar a imagem histórica do país diante do resto do mundo. Essa prática tem nome: sportswashing. É um mecanismo que promove soft power (promoção de valores nacionais sem a necessidade de força militar) através do esporte, enquanto, de certa forma, manipula a imagem que a opinião pública tem da nação. A Arábia Saudita é uma monarquia teocrática governada pela dinastia Al Saud. É conduzida pelo Rei Salman desde 2015, e é considerado o 7º regime mais autoritário dentre 167 nações pesquisadas no Índice de Democracia, da revista britânica The Economist. A organização Anestia Internacional frequentemente chama atenção em relatórios para o que classifica como atentados aos Direitos Humanos básicos na Arábia Saudita: o país é amplamente conhecido por sua severa restrição da liberdade de expressão — os meios de comunicação são controlados pelo Estado e a população pode ser condenada criminalmente por criticar o governo ou o Islã;restrição a casais homossexuais — prática ilegal, considerada "atividade imoral e indecente"; discriminatório contra mulheres — já que mulheres precisam ter "guardiões masculinos" para ter autorização para atividades básicas, como viajar e fazer procedimentos médicos; eé um dos países que mais executa pessoas no mundo, incluindo tanto sauditas quanto estrangeiros condenados. A Anestia Internacional é contra a Copa do Mundo 2034, que está marcada para acontecer em solo saudita. "A Fifa ignorou mais uma vez o histórico atroz da Arábia Saudita em matéria de direitos humanos, e é cúmplice de uma flagrante prática de sportswashing", disse à época do anúncio Stephen Cockburn, chefe de justiça econômica e social da organização. O futebol não era um esporte muito popular na Arábia Saudita até pelo menos a década de 1970, trazido por trabalhadores estrangeiros, com início da organização do futebol nacional. A estreia na Copa foi em 1996, com a melhor campanha até então: caiu nas oitavas de final (12º lugar). Em 2016, o governo saudita lançou o plano "Visão 2030", com o objetivo claro de não só diversificar a economia para além do petróleo e promover turismo, como também melhorar a imagem do país ante o resto do mundo. O futebol foi uma das modalidades esportivas escolhidas para receber investimentos massivos com este fim. Recursos do Fundo de Investimento Público (PIF, na sigla em inglês) permitiram investimentos bilionários, que começaram com a compra do New Castle, tradicional time inglês, e Cristiano Ronaldo no Al Nassr em 2022 — o que atraiu dezenas de outros craques a times nacionais, como Neymar Jr no Al Hilal em 2023. Isso fez com que o futebol nacional ganhasse mais qualidade e, assim, chamasse cada vez mais atenção para a liga saudita, principalmente nos direitos de transmissão internacionais e no mercado publicitário. "Até pouco tempo atrás, a liga saudita não chamava atenção nem de quem gostava de futebol alternativo. Hoje, a liga é muito globalizada porque tem muito mais investimento do que os outros. Atraiu grandes jogadores para atrair atenção da mídia, vender seus direitos de transmissão, os clubes licenciam seus produtos e começam a vender a imagem para fora", diz Victor Oliveira, pesquisador de geopolítica associado ao think thank Laboratório de Estudos do Oriente Médio (Leom). Com mais qualidade, os clubes começam a disputar campeonatos regionais e continentais, levando o nome do país para outro patamar no esporte. "É tudo feito muito bem pensado para isso", diz Oliveira, que destaca investimentos semelhantes em outros esportes globalmente populares, como MMA e F1. Ter sido escolhida para sediar a Copa 2034 é o encerramento deste plano construído com muito dinheiro por mais de uma década. "A Copa é a 'cereja do bolo' de todo esse plano", diz Oliveira. Segundo ele, sediar o evento global é oportuno para o país: promove o turismo massivo ao sediar os mais de 100 jogos em suas cidades (diversifica a economia, um dos objetivos do plano), e muda a visão que o mundo tem de seu regime, ganhando a simpatia global por meio do esporte mais popular do mundo.