Ver o jogo contra o Marrocos com Simone me lembrou que existe muita coisa entre o futebol da redação e o da arquibancada 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Douglas Santos se estica para desarmar o lateral-direito Hakimi, do Paris Saint-Germain, no empate da seleção brasileira com o Marrocos — Foto: Kevin C. Cox/Getty Images via AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 20/06/2026 - 14:43 "Experiência Inédita: Futebol Além das Redações e Arquibancadas" Assistir ao jogo Brasil x Marrocos ao lado da esposa Simone foi uma experiência inédita para o autor, destacando a diferença entre o futebol das redações e o das arquibancadas. A partida, repleta de conversas e questionamentos sobre o desempenho dos jogadores, revelou o futebol como um fenômeno multifacetado, que vai além do conhecimento técnico e envolve paixão e simplicidade na análise. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O empate com o Marrocos foi o primeiro jogo da seleção brasileira numa Copa do Mundo que vi inteirinho ao lado de Simone, minha mulher. Fomos juntos ao Estádio Olímpico de Berlim, em 2006, para outra estreia, contra a Croácia, mas nos sentamos em lugares distantes; e estávamos com nossos filhos na casa de amigos para o Brasil x Chile de 2014, mas precisei sair na prorrogação. Em todas as outras, o trabalho nos separou — desde 1994, quando ainda éramos namorados, eu tinha de ficar na redação do GLOBO até o fechamento de cada edição, e ela assistiu à final com os porteiros do prédio onde morava, em Copacabana, numa TV em preto e branco; até 2022, quando eu fiquei no Brasil, ela viajou para o Catar e estava atrás do gol em que Messi fez o que fez contra a França. Sozinhos em casa (agora foi a vez de nossos filhos irem torcer com amigos), tomamos cerveja e comemos azeitonas, presunto e queijo, petiscos que um ansioso como eu não tem maturidade para apreciar com moderação, especialmente diante de um começo tenso como foi o daquele jogo. E conversamos — essa, para mim, a grande novidade. Quando se tratava de ver o Brasil numa Copa, sempre estive num estádio, numa redação ou com um grupo de amigos e parentes, e o que acontece nesses ambientes não é exatamente um diálogo. Simone gosta de futebol e é uma torcedora entusiasmada, embora não fanática — temos o mesmo time no Brasil, mas na Inglaterra ela escolheu o Manchester United e entrou em rota de colisão comigo e com nosso caçula, Pedro, que somos Arsenal (o atual campeão da Premier League, achei que valia a pena lembrar). E não passa nem perto do estereótipo da grã-fina das narinas de cadáver das crônicas de Nelson Rodrigues: sabe muito bem quem é a bola. Só não curte o uso de uma linguagem superespecializada para analisar o jogo. Prefere explicações simples para os problemas que identifica: por que o Casemiro não está jogando bem? Muitos dos comentários vieram assim, em forma de pergunta. O Alisson deveria estar ali na hora do gol do Marrocos? Fiquei na dúvida e levei para a bancada do “Troca de Passes”, que confirmou a percepção: não, não deveria. Ela também confia muito no meu suposto conhecimento enciclopédico, mas são muitas as vezes em que não tenho a resposta. E mesmo o que pode parecer uma dúvida aleatória pode se transformar em informação: por que tantos jogadores estão usando chuteira rosa na Copa? Eu não sabia, ela mesma pesquisou e descobriu que as fornecedoras de material esportivo escolheram fúcsia como a cor do evento — e não é só moda, é uma decisão de negócios que deve movimentar quase dois bilhões de dólares em vendas. Conversar com Simone vendo o Brasil jogar me lembrou de algo tão fácil de entender quanto de esquecer no dia a dia: o futebol não é só o esporte dos especialistas nas redações nem só o dos apaixonados na arquibancada. A Copa do Mundo é um momento especial para observar quantas formas de ver e torcer existem entre os extremos. E uma delas pode estar bem ali, do nosso lado, todos os dias. Vimos o jogo contra o Haiti na casa de amigos. Foi divertido, claro. Mas aquela primeira vez, depois de tantos anos juntos, vai ficar guardada na memória.