O centenário de nascimento de Vivian Maier celebra não apenas uma das maiores artistas do século XX, mas um terremoto no mundo da fotografia. Durante toda a sua vida, a americana produziu no mais absoluto anonimato. Trabalhando como babá para fechar as contas, nunca expôs ou publicou suas imagens, que capturavam com sensibilidade única o cotidiano de Nova York e Chicago. Foi necessário um desses golpes do acaso para que este legado viesse à tona. Em 2007, dois anos antes da morte da artista, milhares de negativos e fotografias guardados num depósito inadimplente foram vendidos num leilão de bairro em Chicago. Entre os compradores estava um colecionador chamado John Maloof, que percebeu de imediato o valor daquele acervo. Da noite para o dia, Vivian passou da invisibilidade para o panteão da chamada fotografia de rua, figurando ao lado de nomes como Robert Doisneau e Henri Cartier-Bresson. Por sua qualidade e seu caráter enigmático, a obra continua fascinando o público, como comprovam diversas mostras realizadas para a efeméride. Diretora da diChroma Photography, a francesa Anne Morin faz a curadoria de duas exposições atualmente em cartaz: “Unseen Work”, na galeria Fotografiska Shanghai (China); e “Vivian Maier — Antologia”, no Centro Português de Fotografia no Porto (Portugal). A primeira traz imagens raras, e a segunda reúne alguns de seus hits e trabalhos menos conhecidos, como sua fase em cores. — O fenômeno Vivian Maier foi uma revolução — diz Morin, em entrevista por telefone. — Não existem muitos fotógrafos amadores que tenham entrado para a História dessa forma. Com isso, ela reacendeu o sonho de inúmeros fotógrafos e criadores anônimos. Morin foi fundamental na organização do acervo da americana desde o seu primeiro contato com a obra, em 2010. Ela lembra que a consolidação de um legado tão novo e inesperado como o de Vivian envolveu alguns desafios. Primeiro, comprovar a autenticidade da descoberta, que parecia boa demais para ser verdade. Depois, ainda era preciso superar a romantização excessiva do público e da crítica, que muitas vezes acabava ocupando mais espaço do que seu talento. — Vivian pode ser considerada “amadora” apenas no aspecto formal da palavra, porque ela tinha todas as qualidades de uma fotógrafa profissional — lembra Morin. — As suas primeiras fotografias já são tão fortes como as que produziu décadas depois. Desde o início, ela já tinha um olhar muito bem construído. Não foi uma fotógrafa que aprendeu fazendo. Vivian Maier. Chicago, 1978 — Foto: © Estate of Vivian Maier, Courtesy of Maloof Collection and Howard Greenberg Gallery, NY Vivian chega ao seu centenário sem precisar de “nenhuma lenda para ser validada”, como ressalta Morin. Ainda assim, é difícil dissociar a artista do mistério que a cerca. Nascida em Nova York, dividiu a infância entre os EUA e a França antes de se estabelecer definitivamente em Chicago, onde trabalhou durante décadas como babá. Em seus últimos anos, enfrentando dificuldades financeiras, parou de revelar seus próprios filmes. Precursora do 'selfie' Com uma Rolleiflex (e depois uma Leica) pendurada no pescoço, caminhava pelas ruas encontrando magia e ironia nos acontecimentos mais banais: brincadeiras de crianças, ternuras de casais, esforço de trabalhadores... Seus autorretratos em espelhos, vitrines e sombras, hoje entre suas imagens mais famosas, misturam-se na paisagem urbana antecipando uma era obcecada pela autoimagem. — Muitos jovens veem nela uma espécie de precursora da cultura do selfie — diz Morin. — Mas sua principal contribuição foi outra: ela nos ensinou que a beleza está no cotidiano. Durante décadas, a fotografia valorizou a ideia de viajar para lugares distantes em busca do extraordinário. Vivian Maier mostrou que o extraordinário pode estar na esquina. Ela nos ensinou a olhar melhor para aquilo que está diante dos nossos olhos. Coordenador de Fotografia do Instituto Moreira Salles (IMS) e cocurador do Portal Brasiliana Fotográfica, Sergio Burgi identifica em Vivian Maier um vínculo com aspectos contemporâneos da fotografia. Hoje, milhões de pessoas têm uma câmera no celular e capturam compulsivamente os instantes do cotidiano. A construção do olhar, contudo, é o que diferencia cada um desses potenciais artistas, amadores ou não. — O acervo de Vivian se parece menos com um diário de acontecimentos e mais com um diálogo consigo mesma — diz Burgi. — Ela fotografava uma relação com o mundo, mas aquele processo também era uma forma de reflexão pessoal, um grau de experimentação construído ao longo do tempo. As lacunas deixadas por Vivian Maier inspiram artistas até mesmo fora do campo da fotografia. Em 2024, o escritor Jorge Nóbrega publicou a “A sexta estação” (Globo Livros), romance neo-noir com uma protagonista livremente baseada na artista. A partir da ficção, imagina outras trajetórias possíveis para ela. Mais do que uma fonte de mistérios, Nóbrega enxerga na postura de Vivian uma referência para outros criadores. — Vivian marca de modo radical as razões de ser da arte e do artista: a curiosidade, a imaginação e a solidariedade — diz Nóbrega. — Sua busca pelo anonimato, o lento desvelamento da sua identidade através do seu olhar são perguntas sem respostas. Quanto mais suas imagens nos tornam íntimos dela, mais inexplicável se torna a distância entre nós. Vivian Maier. Autorretrato, Nova Iorque, 1954 — Foto: © Estate of Vivian Maier, Courtesy of Maloof Collection and Howard Greenberg Gallery, NY À margem do circuito O efeito Vivian Maier amplia o interesse por arquivos produzidos à margem dos circuitos institucionais. Sua descoberta ajudou a transformar a maneira como curadores, pesquisadores e instituições olham para arquivos esquecidos. Como lembra Sergio Burgi, certos conjuntos de negativos, contatos e fotografias não publicadas passaram a ser tratados como potenciais obras autorais, e não apenas matérias-primas isoladas. Nas últimas duas décadas, coleções de negativos anônimos, álbuns de família e fotografias vernaculares garimpadas em mercados de pulga passaram a receber uma atenção antes reservada a nomes consagrados da fotografia. Projetos como o Beijing Silvermine, do colecionador francês Thomas Sauvin, fazem sucesso nas redes reunindo negativos descartados em Pequim. Foto de autor anônimo no bairro da Penha, exibida na mostra "O passado Fotos garimpadas pelo pesquisador Rafael Cosme encontra registros perdidos do Rio no século XX. Eles estão expostas na mostra "O Passado é um Ponto de Luz", no Teatro Municipal — Foto: Acervo Rafael Cosme A coleção revela reuniões familiares, bastidores de trabalho, festas comunitárias e flagrantes de boemia e outras imagens de autoria anônima, que não foram originalmente produzidas para figurar em museus. — Tenho percebido uma abertura cada vez maior das instituições para esses arquivos, que durante muito tempo ficaram à margem — diz Cosme. — Existe uma revisão sobre o que pode ser considerado patrimônio visual de uma cidade. Não são apenas as imagens produzidas por grandes fotógrafos ou por veículos de imprensa. Desconhecida na Penha — Foto: Acervo Rafael Cosme Para Cosme, esse movimento ajuda a ampliar a própria compreensão da vida urbana: — O Rio possui uma iconografia muito forte, construída por paisagens conhecidas e grandes acontecimentos que se repetem ao longo do tempo. O que esses arquivos fazem é deslocar o olhar, escancarar uma cidade construída sobretudo nos encontros, nas ruas, nos romances, na intimidade e em momentos que normalmente não entram na narrativa oficial. Anne Morin acredita que o caso Vivian Maier deixou uma lição para pesquisadores, curadores e fotógrafos: — Tenho certeza de que existem outras Vivian Maiers adormecidas nos arquivos da história. Precisamos tratá-las com tempo, paciência e respeito.
Centenário de Vivian Maier consolida revolução na fotografia e nova era para 'amadores' e arquivos esquecidos
Descoberta em 2007 após décadas de anonimato, obra de fotógrafa americana ganha exposições em Portugal e China







