As instituições criadas em 1945 refletem uma distribuição de poder que mudou, e sua dificuldade de responder a problemas contemporâneos é evidente 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Segurança é uma das áreas que demandam cooperação — Foto: Edilson Dantas / Agência O O Globo/ 13/04/2026 RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 19/06/2026 - 08:35 "Cooperação Internacional: Brasil e o Desafio da Autonomia Estratégica" A busca por autonomia estratégica, em um mundo mais competitivo, requer cooperação internacional, destaca artigo. Países, como o Brasil, precisam participar de coalizões e influenciar regras globais, em vez de isolar-se. Instituições de 1945 estão defasadas frente a desafios modernos como inteligência artificial e mudanças climáticas. Autonomia efetiva surge ao enfrentar conjuntamente problemas que transcendem fronteiras. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A autonomia estratégica virou palavra de ordem no mundo inteiro. Do Canadá à França, da Índia à Indonésia, governos buscam reduzir vulnerabilidades externas e ampliar sua capacidade de decisão num ambiente internacional mais fragmentado e competitivo. Há, porém, uma interpretação equivocada sobre o que isso significa. Para muitos, autonomia estratégica consiste em evitar compromissos amplos, negociar bilateralmente com quem tem poder e preservar máxima liberdade de manobra diante das rivalidades entre grandes potências. Essa visão pode ter feito sentido num mundo menos interdependente. Hoje, tornou-se insuficiente. No século XXI, a autonomia de países como o Brasil depende justamente da capacidade de construir cooperação em áreas que nenhum Estado consegue administrar sozinho: financiamento do desenvolvimento, comércio, inteligência artificial, clima, saúde pública, crime organizado transnacional e transição energética. Nenhuma dessas agendas pode ser tratada de modo exclusivamente nacional. Países do porte do Brasil — grandes o suficiente para importar, mas não para impor regras à força — têm mais a perder com a erosão de normas comuns. Um mundo em que tarifas, sanções, acesso a tecnologias e até disputas territoriais passam a depender exclusivamente da vontade unilateral dos mais fortes reduz a margem de escolha dos demais. Isso não significa defender o multilateralismo tal como ele existe hoje. As instituições criadas em 1945 refletem uma distribuição de poder que mudou profundamente, e sua dificuldade de responder a problemas contemporâneos é evidente. Em muitos países, cresceu a percepção de que acordos internacionais produzem promessas ambiciosas, mas poucos resultados concretos para a vida cotidiana. Ainda assim, abandonar a cooperação internacional não resolve esse problema. Apenas torna as sociedades mais vulneráveis num ambiente global mais coercivo e menos previsível. Foi precisamente essa tensão que emergiu num amplo diálogo regional conduzido pelo Cebri, em parceria com think tanks da Rede Cepas e com apoio da Fundação Rockefeller, sobre o futuro da cooperação internacional na América Latina e no Caribe. Apesar das diferenças nacionais e políticas entre os participantes, surgiu uma convergência importante: as sociedades continuam demandando cooperação internacional — desde que ela produza benefícios concretos, reduza desigualdades e amplie capacidades nacionais. Também emergiu um diagnóstico claro sobre os desafios transnacionais que nenhum país consegue enfrentar isoladamente. A inteligência artificial talvez seja o exemplo mais evidente. Seus impactos sobre mercados de trabalho, segurança nacional e estabilidade política atravessam fronteiras, enquanto seu desenvolvimento permanece concentrado num número reduzido de países e empresas. Para países como o Brasil, autonomia estratégica não será construída pelo isolamento ou pela rejeição a compromissos formais, mas pela capacidade de influenciar as regras, coalizões e instituições que organizarão o mundo nas próximas décadas. A escolha que temos pela frente não é entre autonomia e cooperação. É entre participar ativamente da construção de uma ordem internacional mais funcional e legítima ou aceitar um mundo em que o poder atua sem contenção e a margem de escolha dos países se torna cada vez menor. *José Pio Borges é presidente do Cebri, Matias Spektor dirige a Escola de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas e é conselheiro consultivo do Cebri