Mona Khalil, ambientalista de 76 anos, dedicou grande parte da vida à protecção e conservação de tartarugas marinhas na costa do Líbano. No início do mês, as forças israelitas bombardearam a sua casa, junto à praia de Mansouri, na cidade de Tiro, de onde se recusou a fugir. A activista ambiental acabou por não resistir aos ferimentos e morreu na sexta-feira, 19 de Junho, na unidade de cuidados intensivos de um hospital em Beirute."Mona dedicou a vida à protecção do património ambiental libanês, em particular, aos frágeis ecossistemas costeiros do Sul do país e às tartarugas marinhas em risco de extinção, que encontraram nela uma fervorosa guardiã", lembrou a Sociedade para a Protecção da Natureza do Líbano (SPNL), destacando também a forma como "inspirou comunidades, orientou gerações de voluntários e ajudou a construir uma cultura de gestão ambiental baseada na participação local e responsabilidade colectiva".Durante décadas, a casa de Mona Khalil (ou a própria Mona Khalil) confundiu-se com a praia de Mansouri. Era aí, nesse areal com sete quilómetros de extensão, que assistia, todos os anos, à chegada de dezenas de tartarugas marinhas, que lá iam fazer os seus ninhos."Há pessoas que trabalham pela conservação e há pessoas que se tornam a própria conservação. Mona Khalil foi uma dessas raras pessoas cuja vida, espírito e existência quotidiana se tornaram indissociáveis da causa à qual se dedicou", afirmou Assad Serhal, director-geral da SPNL.A ambientalista foi a fundadora do santuário a que chamou Orange House Project, em Mansouri, onde recebia voluntários e visitantes que procuravam saber mais sobre a protecção da tartaruga-verde e da tartaruga-comum. Nessa casa, atingida este mês pelos bombardeamentos israelitas, não se falava apenas de trabalho, mas de "esperanças e sonhos para o futuro do Líbano e da sua vida selvagem", recorda Assad Serhal."Ela costumava falar sobre a praia como se falasse de uma pessoa. A ligação dela ao pôr-do-sol, à água, às tartarugas... Ela dedicava-se de corpo e alma à conservação, e à essência, ao espírito da conservação", disse, em declarações à BBC, Hisham Younes, presidente da Green Southerners, associação libanesa com a qual Mona Khalil trabalhava.Mona Khalil nasceu a 2 de Agosto de 1949 na cidade de Lagos, na Nigéria, quando o país era ainda uma colónia do Império Britânico, filha de pais libaneses. Aos sete anos, mudou-se para o Líbano. Ainda viveu mais de duas décadas na Europa, fugindo à guerra no Líbano, mas acabou por regressar em 1999.Nesse ano, decidiu voltar à antiga casa da família, na praia de Mansouri, não muito longe da "zona tampão" que permanecia sob ocupação israelita. Numa noite, encontrou na praia uma tartaruga-verde a fazer o seu ninho, e só então percebeu que estava num dos últimos locais de nidificação para esta espécie no Líbano. Em 2000 instalou-se, de forma definitiva, em Mansouri, onde protegeria, até à morte, as tartarugas vindas do Mediterrâneo."A Green Southerners condena veementemente o ataque que tirou a vida a Mona Khalil e feriu a sua assistente. O ataque teve como alvo um local há muito conhecido pela conservação ambiental e protecção da biodiversidade", lê-se no comunicado emitido pela associação. "A sua morte é um exemplo gritante do impacto devastador que os ataques israelitas continuam a causar a civis, aos defensores do ambiente e ao património ambiental que procuravam proteger."A assistente de Mona Khalil, referida no comunicado, sofreu queimaduras graves na sequência do mesmo ataque israelita, a 4 de Junho, mas encontra-se estável e a recuperar.A BBC tentou contactar as Forças de Defesa de Israel, mas não obteve resposta. Desde 2 de Março, as forças israelitas mataram mais de 4000 pessoas no Líbano, alegando ter como alvo os combatentes e instalações do Hezbollah.